seca vermelho

A água vai acabar? O que fazer? Os planos apresentados pelo Governo do Estado parecem insuficientes para conter a crise e garantir que a cidade não sofra um dos maiores desastres sociais, econômicos e ambientais da história humana. Os níveis dos reservatórios não param de cair. A péssima gestão de recursos levou a um estado de colapso no sistema e reverter isso custará muito caro.

Desde o começo da crise tenho me esquivado de apresentar soluções. Primeiro porque qualquer discussão sobre o assunto deve ser pública; segundo porque eu não disponho de dados claros os suficientes para respostas científicas. Arrisco um esboço de medidas que me parecem necessárias, eficientes e plausíveis. Mas entendo que elas precisariam ser tomadas em bloco, uma sem a outra não funciona, e muito estudadas. O custo disso? Bilhões e bilhões (possivelmente mais que o montante investido na Copa e Olimpíadas). Algo será necessário a ser feito algo além das lentas transposições já prometidas e interligações de sistemas. Coloco essas sugestões, sobretudo, como discussão de pautas para reinvindicações populares. Nada será feito sem lutas.

-Estatização da Sabesp e adequação da tarifa (1)
-Exploração de água subterrânea em poços públicos de baixo desempenho (2)
-Exploração de água subterrânea em poços públicos de alto desempenho (3)
-Investimento em detecção de perdas (4)
-Criação de um órgão público municipal (5)
-Criação de uma agência federal para áreas metropolitanas (6)
-Projeto de reflorestamento de mananciais (7)
-Investimentos em saneamento, reurbanização e despoluição de rios (8)
-Projetos pilotos de fechamento do ciclo de abastecimento-esgoto (9)
-Instalação de relógios eletrônicos individuais e restrição de cota per capita (10)
-Construção de uma estação de tratamento para a Represa do Rio Grande (11)

(1) Estatização da Sabesp. Isso é o mais fundamental para que o problema possa ser corrigido sem interesses particulares em jogo e para que a crise não volte a ocorrer no futuro. Por que os lugares mais capitalistas do mundo como a Holanda têm seus serviços gerenciados por empresas públicas? Simplesmente porque o setor de água é estratégico demais para ser tratado como mercadoria ou como jogo de ações. A maior parte do capital privado da Sabesp deve ser transferida para os municípios servidos ou Estado. Uma porcentagem pequena pode permanecer negociada em mercados, algo que não passe, por exemplo, de 10%. Com a Sabesp estatizada, eu recomendo que a tarifa da água atinja patamares sustentáveis. Água é bastante barata em meio urbano para gerar inflação geral. A água mais cara é aquela que não temos. Portanto, a arrecadação do Estado com água deve cobrir as despesas de operação e investimentos, com exceção desse período inicial de readequação que demandará capitais gigantescos de várias fontes.

(2) Exploração de água subterrânea em poços públicos de baixo desempenho próximos da metrópole. Em regime de urgência, para que o sistema consiga esboçar recuperação, a Sabesp deve perfurar poços de exploração de água subterrânea em fazendas específicas, a serem desapropriadas segundo mapa de recursos hídricos e alocação de água. É sabido que a eficiência de eventuais poços próximos da cidade não será alta, mas essa água pode contribuir significativamente para o abastecimento, sobretudo se o número de poços for grande. As águas desses poços precisam receber tratamento similar a as provenientes de reservas superficiais (represas). A exploração deve também ser sustentável, sem que seja abstraída mais água que a capacidade de recuperação do lençol.

(3) Exploração de água subterrânea em poços públicos de alto desempenho. Parece adequado trazer água do centro do Estado de São Paulo, dos lençóis aflorados do chamado aquífero Guaraní. Para isso será necessário investimento em grandes aquedutos e subestações de energia elétrica para bombeamento do líquido. Será uma água cara, mas que pode vir em grande quantidade e, se for feito estudo adequado, de forma ambientalmente correta.

(4) Contratação de milhares de equipes treinadas para detecção de perdas. Técnicos munidos de equipamentos ultrassônicos de detecção de vazamento devem percorrer 24hs todas as ruas da capital. Vazamentos devem ser arrumados em poucas horas. Além disso, desvios ilegais precisam ser cortados; quem não paga, não usa racionalmente. Para compensar, tarifas sociais são indicadas. É necessário um investimento massivo nas detecção de perdas, não são meia dúzia de equipes que resolverão o problema na escala de SP.

(5) Criação de um órgão público municipal. A prefeitura precisa ser reinserida no debate a partir de um escritório público de assuntos hídricos, que inexiste até hoje. A função dessa instituição será fiscalização dos órgãos estaduais e projeto para novos empreendimentos públicos urbanísticos no setor das águas, como a perspectiva de uma transição do atual sistema para um gerenciamento sustentável de recursos.

(6) Criação de uma agência federal para áreas metropolitanas. Há uma ambiguidade na legislação se é a responsabilidade de abastecimentos em áreas metropolitanas é do município ou do Estado. Jurisprudência no STF indicou que é do Estado, ao contrário de áreas não-metropolitanas. Nesse caso, a instância federal precisa ter um órgão específico de fiscalização e, até, de investimentos complementares nessas regiões. A instância Estadual não pode simplesmente fiscalizar ela mesma; nem nós podemos fechar os olhos para o problema institucional no setor, com leis demasiadamente complexas.

(7) Programa de reflorestamento de mananciais. As áreas de cabeceiras precisam ser urgentemente recuperadas ambientalmente. Por incrível que pareça, situações análogas mostram que a recuperação hídrica em áreas reflorestadas pode ser surpreendentemente rápida. Não estamos falando, de qualquer forma, de meia dúzia de árvores, mas centenas de milhares de hectares, um projeto massivo.

(8) Investimentos em saneamento, reurbanização e despoluição de rios. Essa é a medida mais importante a ser adotada. A crise de abastecimento já é, na verdade, uma crise antiga e invisível: a de saneamento. O problema em São Paulo não é a falta de água, mas falta de água limpa. Nas últimas décadas, o poder público negligenciou totalmente esses investimentos, porque “saneamento só dá prejuízo” e não traz votos. A última estação de tratamento de esgoto concluída em São Paulo foi em 1998! 1998! Os córregos precisam ser todos redesenhados, se possíveis destamponados e acompanhados de novos parques lineares adjacentes, para reinserir as águas na vida urbana. Cada rio precisa ter um feixe de pelo menos 5 canais paralelos (quatro subterrâneos: um de águas pluviais e outro de esgoto, de cada lado; e um superficial: o canal central). Cada um desses tipos de canais tem suas águas encaminhadas para estações de tratamento específicas. O ideal é que essas estações fiquem nas fozes dos córregos/rios. Estamos falando de um investimento estratosférico, para corrigir erros históricos e tentar salvar o sistema hídrico de SP. Aliás, a lei brasileira já exige que as águas urbanas sejam totalmente tratadas, fato ignorado pelo Governo do Estado por meio da Sabesp. O município também é corresponsável por isso. Pode parecer inacreditável, mas a atual gestão suspendeu um projeto modelo: o Renova São Paulo, que propunha a reurbanização de córregos na cidade, acompanhado de investimentos em habitação.

(9) Projetos pilotos de fechamento do ciclo de abastecimento-esgoto. Cidades como Singapura (com seus 5 milhões de pessoas) conseguiram fechar o ciclo de água. Ou seja, tudo que é consumido, vira esgoto e depois é tratado com padrões tão sofisticados que podem ser reinseridos no sistema como água potável novamente. Assim, praticamente não é necessário fazer captação de novos recursos; tudo é reutilizado. Acredito que esse é o futuro para qualquer cidade. Para isso é necessário uma rede nova de esgotamento e abastecimento, totalmente lacrada e de alta tecnologia. Em São Paulo isso pode começar a ser feito em certos bairro, como projetos pilotos para que no futuro atingir toda a cidade.

(10) Instalação de relógios eletrônicos individuais e restrição de quantidades per capita por mês. A economia de água que isso propicia pode ser gigantesca: o consumidor paga pelo que consome, mesmo em um prédio com a caixa d’água coletiva. Além disso, a concessionária pode programar o medidor para liberar apenas certa quantia por mês para cada usuário. No caso de torres, é necessário uma instalação mais complexa, com sensores nos barriletes. Essa medida é de alta eficiência e considerada extremamente cara.

(11) Construção de uma estação de tratamento de água para a Represa do Rio Grande. Parte da maior reserva de águas de São Paulo não pode ser usada por causa dos índices de poluição. Existem hoje usinas de tratamento de altíssimo desempenho, capazes de remover quase qualquer poluente. A construção de uma dessas plantas industriais de alta tecnologia viabilizaria o uso da Represa do Rio Grande. Aliás, não consigo entender, a não ser por questões eleitorais, porque isso não começou a ser feito.

Por fim, sou totalmente contrário a qualquer projeto de descentralização de redes de abastecimento, sejam cisternas ou poços artesianos, como política pública. Primeiro, porque já existe um sistema público instalado – e pagamos bem caro por isso no passado; segundo, porque não há como garantir a qualidade dessa água vinda de milhares de fontes diferentes e testar em laboratórios isso rotineiramente é algo incabível em termos de custo-benefício. Terceiro, porque, especialmente no caso dos poços, a exploração pode parecer uma solução mágica no presente, mas é desastrosa no futuro, gerando um desequilíbrio de todo o sistema hídrico com cada um tirando a água da forma que lhe parecer melhor. A única exceção que penso ser desejável a esse respeito é a instalação de sistemas de reaproveitamento de água pluvial em vasos sanitários (apenas para vasos) para novas construções (a adequação em antigas é extremamente custosa e difícil). Torneiras de jardim são perigosas porque podem ser manipuladas de forma inadequada por alguns usuários desavisados, como crianças.

Além disso, sou também contrário à redução de pressão da rede ou rodízio de regiões. Isso pode criar uma solução muito problemática para a saúde pública porque aumentam as chances de contaminação na rede vinda do lençol freático, dada os altos níveis de vazamentos: o mesmo buraco por onde a água vaza, torna-se porta de entrada de agentes nocivos se a pressão é baixa. A ideia de construção de uma usina dessalinizadora em Santos é tão absurda que não merece nem ser comentada.

Essas são medidas de curto, médio e longo prazo; mas todas, caso sejam feitos investimentos brutais, podem dar resultado em pouco tempo (talvez meses). Mas algo precisa ser feito e com o atual Governo do Estado nenhuma mudança sairá sem muita luta popular.

Gabriel Kogan é arquiteto e jornalista, formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; seu mestrado, em Gerenciamento Hídrico no UNESCO-IHE (Holanda), focou as origens históricas das enchentes em São Paulo.


1- LUCROS DESPROPORCIONAIS: A capacidade de investimento da SABESP foi corroída por lucros estratosféricos e uma gestão voltada para satisfazer acionistas, que capitalizaram a concessionária no passado em ofertas públicas de ações. A empresa é parcialmente pública, porém regida por interesses privados.

2- GESTÃO SEM FISCALIZAÇÃO: Os órgãos responsáveis, tanto pelo serviço quanto pela fiscalização, estão todos nas mãos da instância estadual. Ninguém, portanto, multa ninguém ou obriga mudanças radicais de gestão. A ausência de alternância de poder estadual agravou o problema.

3- ESGOTO SEM TRATAMENTO: O saneamento foi negligenciado pelo Estado e o judiciário fez vistas grossas disso. O problema então não é simplesmente de falta d’água, mas falta d’água limpa. Os rios, lençóis freáticos e represas estão poluídos, e a coleta de esgoto é precária, o que dificulta o reaproveitamento do recurso após eventual tratamento.

4- INTERESSES ELEITOREIROS: Interesses políticos-eleitorais se sobrepuseram a campanhas de esclarecimento ou a possibilidade de novos investimentos para contornar, em regime de urgência, uma situação anunciada como dramática há, pelo menos, dois anos.

5- DESTRUIÇÃO AMBIENTAL: O desflorestamento nas regiões de cabeceira sem nenhum controle público afeta o regime hídrico e reduz a capacidade de recuperação cíclica de nascentes.

6- PRODUÇÃO ESTAGNADA DE ÁGUA . A falta de investimentos sistemáticos ou emergenciais permitiu que o consumo superasse a oferta sem que nada fosse feito. Os reservatórios existentes entrarem em estado de estresse. Novas fontes de água, como a subterrânea, não foram exploradas.

7- TECNOLOGIA ULTRAPASSADA. O descaso de investimentos acarretou em péssima manutenção de rede (hoje com grandes perdas) e no uso de uma tecnologia obsoleta para abastecimento e saneamento. O tratamento a base de cloro, por exemplo, está proibido na Europa e Singapura trata todo o esgoto e reinsere na tubulação de água potável para fechar o sistema, sem desperdiçar uma gota sequer.

Gabriel Kogan, 12/01/2015


A gestão de águas em SP é um grande acordo de cavalheiros, em que quem sai perdendo é a população mais pobre, agora sofrendo as consequências da péssima administração no setor.

Há uma ambiguidade na legislação brasileira se a responsabilidade sobre o abastecimento e esgotamento deve ser do estado ou do município no caso de regiões metropolitanas. O STF, em 2013, abriu jurisprudência – a valer nacionalmente – em favor do Estado do Rio de Janeiro. Seguindo o ideal do pacto federativo, porém, devemos considerar que a responsabilidade direta é do Estado, mas o município deve agir como fiscalizador das atividades.

Bom… O que se passa no mundo encantado de São Paulo? A prefeitura conseguiu fazer um acordo com o Estado em 2010 (ver aqui: goo.gl/5gTJWd), formalizando a responsabilidade da SABESP – uma empresa parcialmente estadual, porém jogada aos interesses dos acionistas. O único órgão da região já estabelecido para fiscalizar e regular esse acordo era então a estadual ARSESP (nunca ouviu falar? nem eu tinha). O que a prefeitura fez em 2010? Transferiu também a responsabilidade da fiscalização do contrato que tinha firmado com o Estado e Sabesp para a ARSESP. Vejamos. SABESP: Estadual, respondendo a interesses privados. ARSESP: Estadual. Responsabilidade pelas águas: Estadual. Fiscalização e regulação: Estadual.

Portanto, respondendo a pergunta: Por que multar os consumidores de água e não a Sabesp pela crise? Porque todas as instituições de serviço e regulação estão na instância estadual, e o Estado multar a Sabesp seria como o ele multar a si mesmo ou, pior, prejudicar os acionistas que emprestaram dinheiro para a Sabesp, algo que o Governo Alckmin já mostrou que não irá fazer até o fim, custe o que custar. Por fim, parece mais que óbvio dizer que o serviço/gestão/fiscalização de águas não pode funcionar adequadamente nesse modelo, montado para satisfazer poucos interesses, distantes de ideias republicanos. Foi o que já escrevi antes: a crise das águas em SP mostra a falência do pacto federativo no Brasil.

Gabriel Kogan, 11/01/2015


A desastrosa gestão de recursos hídricos promovida pelas 3 instâncias governamentais em São Paulo, sobretudo o Estado por meio de sua concessionária, leva a cidade a iminência de um desastre social nos próximos anos. Apesar das fortes chuvas de verão, os níveis dos principais reservatórios parecem estagnados, como já vinham alertando especialistas. Previ isso em um texto publicado em 1º de Outubro (https://www.facebook.com/gabriel.kogan2/posts/10152841048147784). Caso não seja ampliada a oferta de água vinda de outras fontes – diferentes das atuais –, os atuais reservatórios custarão muito para recuperar. A demanda superou a oferta e as represas existentes se tornaram, por causa do estresse hídrico imposto pelas políticas públicas voltadas para o lucro, ineficientes. Esse fenômeno político/físico é bem conhecido do nordeste brasileiro, onde as represas secam rapidamente nos períodos nos quais mais precisam deles:

1- Com o reservatório seco, a água da chuva atinge um solo permeável. A água então percola (infiltra) para o lençol freático, sem que haja escoamento superficial (run off). A área de captura da água da chuva não é mais o grande espelho d’água anterior, mas a pequena área remanescente dos volumes mortos.

2- A recarga dos reservatórios pode ser feita pelo próprio fluxo dos rios. As chuvas recarregam o lençol freático e assim aumentam os fluxos de água das nascentes. O problema aqui é que esse não é um processo linear e, eventualmente, nem imediato. Isso depende de muitos fatores inclusive o desmatamento das regiões de cabeceira que impactam a capacidade de recuperação das nascentes.

3- O verão traz a chuva, mas também o calor e com ele a evaporação. Ou seja, boa parte da água que cai dos céus volta para a atmosfera rapidamente. Isso é natural, mas o baixo nível dos reservatórios acelera esse processo: o volume baixo significa diminuição da inércia de evaporação. Um volume de água maior tem uma taxa de evaporação muito menor em relação ao todo. A superfície exposta ao ar aumenta em proporção ao volume total de água quando o volume é baixo.

A recuperação desses reservatórios será difícil e a situação poderá ser dramática até a próxima estiagem. Avisos de especialistas sobre a má gestão não faltaram; vieram desde começo dos anos 2000, e discursos mais alarmantes, há um ou dois anos atrás. Isso teria sido tempo suficiente para grandes investimentos se concretizarem. As medidas tomadas e os planos emergenciais parecem vir tarde demais e ainda são tímidas demais. Para reverter o problema precisaremos de investimentos muito rápidos a valores estratosféricos. E isso se tornará pior a cada dia: o tempo continua passando sem que haja uma mudança verdadeira na gestão das águas aqui.

Gabriel Kogan, 03/01/2015


A atual crise hídrica pode ser uma oportunidade para revermos as bases urbanísticas de São Paulo. Proponho um exercício: um passo atrás; dois à frente. Bailemos olhando a história para projetarmos o futuro. E isso demanda algo como uma “História social dos rios de São Paulo”, assunto que intersecciona meu mestrado (http://goo.gl/qbBRZ6). Fica aqui um breve recorte temporal e conceitual em 4 atos:

São Paulo dos Campos de Piratininga (1) – Os portugueses viram no sítio as mesmas virtudes que os indígenas conheciam: vistas de morros para segurança, abundância de recursos hídricos e entroncamento estratégico de caminhos. Estavam por lá o Rio Tietê (o Rio Volumoso), o Jurubatuba (nosso Rio Pinheiros ou o Rio das Palmeiras) e o Tamanduateí (Rio do Tamanduá Bandeira). Para obter água não era preciso ir longe, as infinitas nascentes da região provinham água fácil e relativamente segura. Havia, no entanto, um problema: esses grandes três rios da região eram meândricos, corriam em um terreno quase plano das várzeas, as águas não tinham um leito fixo. De tempos em tempos vinha uma enchente sazonal, mudava as curvas do rio e trazia peixes para secarem nas margens. Daí veio o primeiro nome da cidade, “Peixe Seco” ou “Piratininga” em Tupi Guarani. À medida que a cidade colonial crescia, durante o século 19, a área das várzeas, com as suas águas estanques, ficavam menos salubres já que o esgoto ia, invariavelmente, parar lá. Corta.

São Paulo Sinfonia da Metrópole (2) – Estamos em 1929 e o prefeito da cidade, Pires do Rio, tem em seu gabinete 3 projetos para os rios urbanos: o “Projeto Serra” tocado pela empresa canadense ‘Light’ que estava a todo vapor transformando os cursos d’água em lucros de geração elétrica; o projeto de Saturnino de Brito que pensava o uso integrado das águas e projetava lagos e parques; e o projeto de dois engenheiros Ulhôa Cintra e Prestes Maia que pensava os rios como simples vetores de transporte privado e rodoviário. Desde 1888, a cidade vivia um boom demográfico, impulsionada pela industrialização. A população de 60.000 pessoas atinge seu primeiro milhão no final da década de 1920. As pessoas pobres são empurradas para as baratas e perigosas várzeas, sujeitas a grandes inundações. A relação com os rios é conflituosa, tanto pelos desastres sazonais quanto pelas águas cada vez mais fétidas do Tietê e seus tributários. Para o poder público a transformação das águas havia de ser um projeto ideológico: secar as várzeas, valorizar os terrenos, arrancar as pessoas pobres e jogar para periferia, vender para empresas como a Cia City a preço de banana e construir bairros jardins, fazer canais artificiais e represas para gerar energia para as indústrias, construir grandes avenidas marginais junto as áreas planas dos rios para promover o carro. Ou, em outras palavras, valorização fundiária, geração de energia e promoção do transporte individual. Os rios passavam a ser vistos como algo ruim, mas muito útil. Corta.

São Paulo Meu Amor (3) – As águas urbanas são males a serem extirpados. As enchentes castigam a cidade e uma CPI chefiada por Figueiredo Ferraz é montada na Câmara dos Vereadores em 1963. Vem o golpe e com ele a onipresença de Maluf, para substituir Prestes Maia. Os projetos de 29 foram parcialmente feitos; o que interessava os lucros dos donos do poder foi construído, o que era perfumaria para a qualidade de vida dos habitantes, descartado. O pensamento dominante é o de que os rios são horrorosos, que precisam ser canalizados, tamponados, darem lugar a mais ruas ou irem para um piscinão à 7 palmos abaixo da terra. Vamos matar os rios! (se é que eles já não estão mortos). E quem não concorde com isso que vá para outro lugar. São Paulo, ame-a ou deixa-a. Em que ano estamos? Estou um pouco confuso… 1964 ou 2014? É nesse ambiente de esquizofrenia surreal que tucanos projetam e executam uma reforma da calha do Tietê em puro concreto, que aumentam as marginais em vez de desabilitá-las, que privatizam as empresas que cuidavam dos rios, que sucateiam a empresa de saneamento e abastecimento para depois vendê-las. Os rios se tornam escravos dos carros. A cidade convive com a iminência paradoxal de enchentes devastadoras e secas terríveis. Há um desequilíbrio total na gestão das águas, essas inimigas. Vivemos em crise. Corta.

São Paulo Cidade do Futuro (4) – Reinserir as águas na vida cotidiana dos cidadãos é enfrentar a própria história de construção da cidade. Após mais de um século e meio de intensas transformações dos rios (o canal do Tamanduateí foi completado em 1914 e suas primeiras obras são de 1851), São Paulo encontra uma encruzilhada. Para onde ir? Continuar o projeto dominante de tratar as águas pragmaticamente através da engenharia ou tratar os rios como parques, lugares de encontro e imprescindíveis para a cidade. Tudo deve começar com o saneamento. Bastaria aplicar a lei e forçar a empresa encarregada a tratar todo o esgoto. Precisamos ir além, tomar nosso esgoto e fechar o sistema: toda água de abastecimento é tratada e reinserida na tubulação. Há de vir um redesenho das margens e desativação das Marginais (a serem substituídas por sistemas de transporte público de alta capacidade). Infelizmente, redesenhar rios da cidade significa mudar traçado viário. E mudar o traçado das ruas significa mexer na predominância do transporte individual. As ocupações das várzeas também hão ser desapropriadas (pelo simples motivo que nunca deveriam ter ido para lá, espremeram o leito). Tudo isso demanda projeto, planejamento e não pode ser feito de um dia para o outro. É caro? Muito. Mas quanto custa um dia de enchente em São Paulo, sem nenhuma atividade econômica? Qual é o verdadeiro custo econômico desse desabastecimento? E quanto custa viver em uma cidade sem lazer, onde os rios são esgotos a céu aberto? Quanto custa pessoas viverem com pés nos córregos poluídos? Para a saúde pública, para toda a economia da cidade? A cidade do futuro é uma continuação dos projetos ideológicos do passado, com os seus rios subjugados aos carros, a especulação financeira e as empresas privadas que detém o controle da exploração de nossos recursos naturais? Qual futuro? Fim.

Gabriel Kogan, 09/11/2014


linachaminé

Lina Bo Bardi tem hoje, dia 5 de Dezembro de 2014, celebrado seu centenário, mas seu pensamento ainda parece pouco assimilado – inclusive (e sobretudo) por arquitetos –, apesar de o mundo ver hoje uma verdadeira onda de Linamania: exposições, livros, palestras e novos edifícios inspirados na obra da arquiteta ítalo-brasileira; de São Paulo a Munique, de Roma a Buenos Aires.

A tônica das atuais revisões é formal, superficial, e em pouco incorpora sua vivacidade criativa e dimensão política. Aliás, essa própria compreensão formal parece limitada. Lina conseguia criar um desenho, ao mesmo tempo, pesado e elegante, com um forte senso de massa. Os arquitetos contemporâneos são incapazes de sequer emular isso e, quando se propõe a algo similar, o resultado é impreciso, sem o peso e sem a elegância. As exceções são raríssimas.

A leitura internacional da obra de Lina vem impregnada por uma névoa de fetiche sobre algo exótico: uma mulher, a partir dos anos 50, no Brasil. Análises respeitosas precisam se despir desses elementos, porque eles são absolutamente irrelevantes, principalmente quando estamos falando de uma obra tão poderosa. A arquitetura de Lina não é boa porque ela é um homem ou uma mulher, se foi feita agora ou há 50 anos, se é brasileira ou não. Nem é boa por causa de uma hipotética discussão, de fato irrelevante, entre modernismo e pós-modernismo. A força dessa arquitetura está acima dessas palavras-chave de fetichismo universal.

Aqui no Brasil, a leitura dominante da obra de Lina soa ainda menos convincente. Tratam com desdenho a essência política da noção de, como ela mesma definia, “arquitetura feia”: livrar-se de um determinismo espacial estabelecido pela arquitetura, para transferir a construção do espaço para a livre organização política dos Homens.

Sua obra se edifica a partir da radical simplicidade e clareza, tanto de pensamento quanto programática. As instalações de infraestrutura – como hidráulica, elétrica, etc – são simples como podem ser, quase sempre expostas ao olhar de qualquer pessoa, e sem nenhuma parafernália ou milhares de pranchas de projeto. Não existe espaço para o politicamente correto de acessibilidade universal ou sustentabilidade. Da arquitetura fica apenas o essencial, para o corpo e para o espírito, mesmo que isso inclua elementos com estrita função simbólica.

Não por acaso, o aspecto mais negligenciado da arquitetura de Lina, no entanto, é a forte conexão com o canteiro de obras. Sobretudo, a partir do projeto do Sesc Pompéia, Lina começa a fazer uma arquitetura coletiva, em que as soluções eram discutidas, criadas e definidas em conversas na construção, com pedreiros e mestres de obras. Isso possibilitou que, por causa da simplicidade e racionalidade construtiva, suas obras dessem sempre um passo à frente em termos tecnológicos. É um projeto político, um projeto revolucionário: a arquitetura se faz não apenas como produto, mas também como processo. Aliás, os próprios elementos da cultura popular, agora fetichizados até a aniquilação, precisariam entrar dentro dessa mesma dimensão processual.

Além disso, o princípio de intervenção no espaço construído, utilizando as potencialidades históricas existentes, foi outro princípio severamente ignorado na arquitetura brasileira dos últimos 30 anos. Em oposição aqui temos uma exacerbação do desenho e da monumentalidade da arquitetura (ou ao menos o desejo disso).

Estamos diante, em Lina, de um projeto arquitetônico e político amplo, no qual as atividades contemporâneas localizadas e ultrafocadas – como “acupunturas urbanas”, “arquitetura sustentável” ou “arquiativismo” – não tem e nem podem almejar ter qualquer relação. São projetos antagônicos em essência, sobretudo se olharmos para a abrangência e potência da obra de Lina, que se ergue quase como ‘uma teoria’.

A maior prova de que a arquitetura dela não foi ainda bem compreendida socialmente é o péssimo estado de conservação dos edifícios de Lina Bo Bardi no Brasil, como se isso não fosse, em absoluto, relevante para a arquitetura: seus projetos urbanos na Bahia parecem ruínas, o MASP teve seu espaço totalmente desfigurado e o Teatro Oficina é encurralado por novos e gigantescos edifícios. De fato, praticamente todas as suas obras enfrentam graves problemas. Lina, cem anos; talvez demoraremos mais cem para respeitar e compreender sua arquitetura.

Gabriel Kogan, 05/12/2014


seca

A origem da crise hídrica na cidade de São Paulo é econômica e política, não é natural. Os acionistas na Bolsa de Nova Iorque não estão preocupados se as pessoas estão sem água na torneira por aqui. Nesse ano de caos, os lucros projetados da SABESP são de R$1.8 bilhões e pelo menos metade vai para mãos privadas. Valor que deixa de ser aplicado na cidade nos sistemas de abastecimento e saneamento. O Estado não fez sua parte para garantir planejamento e investimentos seguros a longo prazo.

Nas últimas décadas, apesar do crescimento populacional e econômico, a produção de água não aumentou na mesma proporção. Cresceu na metrópole apenas 4,3% entre 2006 e 2013, passando de 66,2 para 69,1m3/s. Os esforços para diminuir as altíssimas perdas do sistema, como de vazamentos e desvios, atualmente próximo dos vergonhosos 30%, foram ineficientes.

A falta de chuva permanece como desculpa para políticos e diretores da empresa. Um sistema de abastecimento com planejamento sério deve prever períodos sazonais de secas. Não é exagero trabalhar com possibilidade de estiagens – sem ocorrência de qualquer transtorno – que, estatisticamente, aconteçam a cada 100 anos. Sem falar que uma rede tão grande e fundamental, precisa contar com plano A, B e C, e não depender, quase exclusivamente, de uma única fonte (no caso, o Sistema Cantareira).

Mais fácil é responsabilizar o aquecimento global: estudos sérios, no entanto, mostram mudanças nos padrões de chuva em uma escala de grandeza que, de forma alguma, poderiam secar reservatórios de um ano para o outro. Além disso, o mundo inteiro está já, desde 1992, usando modelos de aquecimento para considerar eventualidades, por exemplo, em regimes de chuva. Isso faz parte da previsão estatística.

Mais de 50% do capital da Sabesp está nas mãos do Governo do Estado, porém, ela é gerenciada, estranhamente, como uma empresa privada. Lucros, lucros e mais lucros que fizeram, por exemplo, o sistema Cantareira secar pelo simples motivo que a água produzida lá tem um preço unitário mais barato por não ter grandes custos em bombeamento e tratamento. O colapso nesse sistema, por razões econômicas e políticas, está anunciado desde 2001. Fazendo investimentos, 13 anos teriam sido tempo suficientes para não contar com a sorte da chuva em certos locais.

Outros reservatórios existentes têm preços mais elevados de produção e, apesar do sistema integrado, não interessam tanto financeiramente para a empresa. Novos lugares para captação não conseguiriam também competir com o valor da água vindo da Cantareira. Mas a água mais cara é aquela que não temos.

O que fazer? A CPI na Câmara dos do Município – responsável pelas concessões de abastecimento segundo a lei brasileira – não demonstra seriedade em encarar o assunto, como assumiu o vereador Andrea Matarazzo em áudio vazado durante sessão: “Isso daqui [a CPI sobre a falta d’água] não tem a menor consequência. Não tem”; “É teatrinho”, completou a presidente da SABESP.

Abastecimento e saneamento são coisas muito sérias. Interferem em toda a economia da cidade, e são direitos universais segundo a ONU. Não é possível que todo o sistema de água de São Paulo – cidade instalada em um lugar riquíssimo em recursos hídricos, diga-se –, fique na falta de planejamento – deixada sempre impune – de gestores e nas mãos do lucro de meia dúzia. Vejo quatro opções, que amenizariam o problema atual, mas, mais importante, poderiam evitar que isso se repita no futuro:

1- Estatização do capital privado da SABESP; medida esta a ser tomada pelo Governo do Estado, que ainda não se mostrou verdadeiramente preocupado com o problema. Os atuais lucros iriam para investimentos locais. Planos de longo prazos precisam ser aprovados formalmente e com responsabilidades (criminais, inclusive) para os gestores públicos.

2- Cassação das concessões da SABESP. Seria necessário organizar uma nova empresa metropolitana de águas com apoio do Estado, mas que deveria ter capital público controlado pelas prefeituras, modelo muito comum no exterior como nos Países Baixos, onde a questão da água é considerada estratégica.

3- Quebra do monopólio do abastecimento, com várias empresas públicas competidoras. A Prefeitura de SP organizaria, por exemplo, uma empresa independente, para exploração de água vinda de fora do município. Essa água é enxertada no sistema de distribuição atual. Outras prefeituras da região metropolitana poderiam fazer o mesmo e oferecer para toda população. O consumidor opta por qual água, virtualmente, consumirá. O problema disso é que esse sistema funciona melhor com liberdade tarifária. Nesse modelo, é preciso garantir que o preço para o pequeno consumidor não influencie seu gasto de vida.

4- Revisão radical dos contratos com a prefeitura para que, especialmente em momentos de crise, entre os lucros dos acionistas e a manutenção sustentável do abastecimento, prevaleça o bem público sobre os interesses privados. O Estado precisaria ter valores mínimos de investimentos anuais (obviamente maiores do que os atuais, insuficientes e ineficientes).

Nenhuma dessas alternativas será tomada sem luta, sem forte pressão popular. As pessoas terão que ir para as ruas, reivindicar por sua segurança hídrica, como já acontece atualmente em Itu. Para os acionistas em Nova Iorque, a situação vai muito bem, obrigado; água na torneira e dinheiro no banco.

Mais importante: a crise pode ser um momento de oportunidade para revermos nossos princípios sobre o uso da água por aqui, e fazer uma transição para um gerenciamento hídrico sustentável, que trate todo o esgoto, que valorize os rios urbanos, As águas precisam ser reincorporadas na vida cotidiana e não como problemas (esgoto, enchente, falta d’água…), mas como virtudes dessa cidade que cresceu e se desenvolveu por causa dos rios.

Gabriel Kogan, 21/10/2014




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