seca

A origem da crise hídrica na cidade de São Paulo é econômica e política, não é natural. Os acionistas na Bolsa de Nova Iorque não estão preocupados se as pessoas estão sem água na torneira por aqui. Nesse ano de caos, os lucros projetados da SABESP são de R$1.8 bilhões e pelo menos metade vai para mãos privadas. Valor que deixa de ser aplicado na cidade nos sistemas de abastecimento e saneamento. O Estado não fez sua parte para garantir planejamento e investimentos seguros a longo prazo.

Nas últimas décadas, apesar do crescimento populacional e econômico, a produção de água não aumentou na mesma proporção. Cresceu na metrópole apenas 4,3% entre 2006 e 2013, passando de 66,2 para 69,1m3/s. Os esforços para diminuir as altíssimas perdas do sistema, como de vazamentos e desvios, atualmente próximo dos vergonhosos 30%, foram ineficientes.

A falta de chuva permanece como desculpa para políticos e diretores da empresa. Um sistema de abastecimento com planejamento sério deve prever períodos sazonais de secas. Não é exagero trabalhar com possibilidade de estiagens – sem ocorrência de qualquer transtorno – que, estatisticamente, aconteçam a cada 100 anos. Sem falar que uma rede tão grande e fundamental, precisa contar com plano A, B e C, e não depender, quase exclusivamente, de uma única fonte (no caso, o Sistema Cantareira).

Mais fácil é responsabilizar o aquecimento global: estudos sérios, no entanto, mostram mudanças nos padrões de chuva em uma escala de grandeza que, de forma alguma, poderiam secar reservatórios de um ano para o outro. Além disso, o mundo inteiro está já, desde 1992, usando modelos de aquecimento para considerar eventualidades, por exemplo, em regimes de chuva. Isso faz parte da previsão estatística.

Mais de 50% do capital da Sabesp está nas mãos do Governo do Estado, porém, ela é gerenciada, estranhamente, como uma empresa privada. Lucros, lucros e mais lucros que fizeram, por exemplo, o sistema Cantareira secar pelo simples motivo que a água produzida lá tem um preço unitário mais barato por não ter grandes custos em bombeamento e tratamento. O colapso nesse sistema, por razões econômicas e políticas, está anunciado desde 2001. Fazendo investimentos, 13 anos teriam sido tempo suficientes para não contar com a sorte da chuva em certos locais.

Outros reservatórios existentes têm preços mais elevados de produção e, apesar do sistema integrado, não interessam tanto financeiramente para a empresa. Novos lugares para captação não conseguiriam também competir com o valor da água vindo da Cantareira. Mas a água mais cara é aquela que não temos.

O que fazer? A CPI na Câmara dos do Município – responsável pelas concessões de abastecimento segundo a lei brasileira – não demonstra seriedade em encarar o assunto, como assumiu o vereador Andrea Matarazzo em áudio vazado durante sessão: “Isso daqui [a CPI sobre a falta d'água] não tem a menor consequência. Não tem”; “É teatrinho”, completou a presidente da SABESP.

Abastecimento e saneamento são coisas muito sérias. Interferem em toda a economia da cidade, e são direitos universais segundo a ONU. Não é possível que todo o sistema de água de São Paulo – cidade instalada em um lugar riquíssimo em recursos hídricos, diga-se –, fique na falta de planejamento – deixada sempre impune – de gestores e nas mãos do lucro de meia dúzia. Vejo quatro opções, que amenizariam o problema atual, mas, mais importante, poderiam evitar que isso se repita no futuro:

1- Estatização do capital privado da SABESP; medida esta a ser tomada pelo Governo do Estado, que ainda não se mostrou verdadeiramente preocupado com o problema. Os atuais lucros iriam para investimentos locais. Planos de longo prazos precisam ser aprovados formalmente e com responsabilidades (criminais, inclusive) para os gestores públicos.

2- Cassação das concessões da SABESP. Seria necessário organizar uma nova empresa metropolitana de águas com apoio do Estado, mas que deveria ter capital público controlado pelas prefeituras, modelo muito comum no exterior como nos Países Baixos, onde a questão da água é considerada estratégica.

3- Quebra do monopólio do abastecimento, com várias empresas públicas competidoras. A Prefeitura de SP organizaria, por exemplo, uma empresa independente, para exploração de água vinda de fora do município. Essa água é enxertada no sistema de distribuição atual. Outras prefeituras da região metropolitana poderiam fazer o mesmo e oferecer para toda população. O consumidor opta por qual água, virtualmente, consumirá. O problema disso é que esse sistema funciona melhor com liberdade tarifária. Nesse modelo, é preciso garantir que o preço para o pequeno consumidor não influencie seu gasto de vida.

4- Revisão radical dos contratos com a prefeitura para que, especialmente em momentos de crise, entre os lucros dos acionistas e a manutenção sustentável do abastecimento, prevaleça o bem público sobre os interesses privados. O Estado precisaria ter valores mínimos de investimentos anuais (obviamente maiores do que os atuais, insuficientes e ineficientes).

Nenhuma dessas alternativas será tomada sem luta, sem forte pressão popular. As pessoas terão que ir para as ruas, reivindicar por sua segurança hídrica, como já acontece atualmente em Itu. Para os acionistas em Nova Iorque, a situação vai muito bem, obrigado; água na torneira e dinheiro no banco.

Mais importante: a crise pode ser um momento de oportunidade para revermos nossos princípios sobre o uso da água por aqui, e fazer uma transição para um gerenciamento hídrico sustentável, que trate todo o esgoto, que valorize os rios urbanos, As águas precisam ser reincorporadas na vida cotidiana e não como problemas (esgoto, enchente, falta d’água…), mas como virtudes dessa cidade que cresceu e se desenvolveu por causa dos rios.

Gabriel Kogan, 21/10/2014


A situação da crise hídrica em São Paulo é seríssima, não apenas porque ameaça todas as bases econômicas da cidade, mas porque mostra a falência do pacto federativo no Brasil.

A complexidade legal/institucional no setor das águas é surreal: a agência reguladora é federal; os conselhos e a gestão das águas são estaduais; as outorgas são municipais. Não entendeu? Nem eu, que estudo isso há mais de 10 anos.

Na prática, nenhuma instância tem poder efetivo sobre as demais, apenas por meio de pressão política. Além disso, tudo é feito para conspirar contra. A política nacional (Lei Nº 9.433), por exemplo, é de 1997; a lei estadual de SP (Lei nº 9.034 é de) é de 1994. Mas pode isso, Arnaldo? Uma lei estadual mais antiga que a nacional?

Em 2008-10 o Estado fez um Plano para a Bacia do Alto Tietê (onde, infelizmente, estamos). O plano “enquadrou” (classificou) os rios (http://goo.gl/8YwfV2). O Rio Tietê foi considerado, em algumas partes, de classe 3 – que devem apresentar condições de “não verificação de efeito tóxico agudo a organismos” ou “substâncias que comuniquem gosto ou odor” e que sirva para “abastecimento para consumo humano”, “à irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras” e “à pesca amadora” (http://goo.gl/bB0WjC). Yupiii! À pesca amadora, à pesca amadora, à pesca amadora, à pesca amadora…

Isso parece um delírio distante? Sim, se considerarmos a onipresença da SABESP e seu fiel escudeiro, o Governo do Estado. Mas, péra, por que o Rio Tietê é poluído? Simples: porque o esgoto na cidade não é tratado. A partir do momento que o rio é “enquadrado”, são estabelecidas obrigações para esse tratamento, para a SABESP e governo.

O que nosso querido governador (aprovado por 57,3% da população) fez para evitar enormes gastos em coisas inúteis como saneamento ou meio ambiente e garantir os importantes lucros dos acionistas da SABESP na Bolsa de Nova Iorque? Não submeteu o plano (pago com dinheiro público) para o Conselho de águas do Estado. Ou seja, para efeito geral, é como se o plano e o enquadramento dos rios não existissem. Vejam se vocês acham alguma ata disso das reuniões do conselho: http://goo.gl/GUXV7l.

E então qual medida a ANA (Agência Naciona de Águas) pode tomar? Nenhuma. E os municípios? Na prática, nenhuma. E fica tudo como está. Uma falência total e absoluta dos modelos estabelecidos pelo pacto federativo da constituição de 89 e um caos de abastecimento e saneamento na cidade. Legal, né?

Assim, não existe obrigação da SABESP em tratar todo o esgoto da cidade (como acontece em qualquer metrópole descente, e sem essa de falar em subdesenvolvimento porque a SABESP se gaba de ser a maior empresa de saneamento do mundo, com lucro projetado, nesse ano infeliz de 2014, em R$1,8 bilhão).

Agora, vocês acham que isso não tem nada a ver com crise hídrica? Recomendo a leitura de um paper sobre a transformação no sistema de águas em Singapura (http://goo.gl/CvTYEC). Fecharam o sistema por lá: 100% do esgoto é tratado e reinserido na tubulação para ser consumido. A cidade-estado que não conta com rios, não precisa assim importar água de outros países. A dessalinização complementa o sistema. E estamos falando de uma rede grande, para 5 milhões de pessoas, hein? Não me surpreenderia que todo essa tecnologia custe menos que um ano de lucro da SABESP. Não mesmo…

Gabriel Kogan, 19/10/2014

Original em https://www.facebook.com/gabriel.kogan2/posts/10152888195847784


Os acionistas da SABESP fazem a festa enquanto a população vê suas torneiras secarem. O lucro líquido acumulado de 2014 (só nos 1º e 2º trimestres, vejam relatórios) é de nada menos que R$798,6 milhões. Esse é o montante que deixou de ser investido no aumento do sistema de captação de água, na diminuição dos vazamentos da rede, no tratamento do esgoto que polui a bacia do Rio Tietê…

A crise não tem nada a ver com a falta de chuva (isso é previsível por meio de modelos estatísticos simples), mas com a ganância dos acionistas da empresa e o descaso conveniente do Governo de São Paulo. Esses acionistas não são penalizados? Só a população? Precisamos começar a debater publicamente a cassação das outorgas da SABESP ou a estatização completa de toda a empresa. Não vejo outras soluções. Infelizmente, já como a situação é radical, as providências também precisam ser. Abastecimento e saneamento são coisas muito sérias e estratégicas para ficarem como reféns de lucros estratosféricos de meia dúzia.

Os relatórios da SABESP:
T1-2014 http://www.sabesp.com.br/…/91A98C139…/$File/ITR_1tri2014.pdf
T2-2014
http://www.sabesp.com.br/…/7E7CA9C831…/$File/ITR2tri2014.pdf

Gabriel Kogan, 07/10/2014

Original em https://www.facebook.com/gabriel.kogan2/posts/10152857682492784


Algumas questões pertinentes sobre o último texto (http://cosmopista.com/2014/10/14/10-mitos-sobre-a-crise-hidrica/) chegaram até mim. Tento responder:

1- “No atual cenário, a água pode mesmo acabar?” Devemos complementar a pergunta: Quando? Para quem? O sistema de represas de São Paulo está todo interligado, ou seja, é possível bombear água de um lugar para o outro, inclusive para o reservatório da Sabesp na esquina da Cerro Corá com a Heitor Penteado, um dos pontos mais alto do sítio urbano. A “Cantareira” é importante para garantir pressão para o sistema, já como as represas dessa região estão mais altas que a Paulista e assim a água desce por gravidade. Para tirar água da Guarapiranga (em um nível baixo), e mandar para Paulista se gasta muita energia elétrica para bombeamento e o custo da água fica caro para a Sabesp. Voltamos para o problema principal: maximização de lucros a todo custo. Assim, o esgotamento completo da “Cantareira” não significa fim da água, mas que o custo da água será maior e que as outras represas entrarão em uma situação de estresse. O Governo e a Sabesp podem empurrar com a barriga essa situação por anos (como já fazem), sem que haja realmente um cataclismo geral. Mas isso tratará de esgotar totalmente recursos e criar situações ainda mais sérias de abastecimento no futuro. O corte provavelmente continuará afetando populações de baixo para cima. Ou seja, os pequenos consumidores domésticos em regiões periféricas serão os primeiros a ter cortes prolongados. Por último, serão os grandes consumidores, como as indústrias; que geram nosso glorioso “desenvolvimento” e são muitas delas financiadoras de campanhas.

2- “Mas o que a Sabesp e o governo poderiam ter feito para evitar essa situação?”. Muita coisa; cito três: (a) aumentar o sistema de captação, algo necessário porque a cidade teve crescimento populacional e econômico, precisando consumir mais água; (b) melhorar a manutenção do sistema para diminuir os vazamentos gigantescos nos canos; (c) tratar (de verdade, não superficialmente) água do esgoto e reaproveitar como acontece por exemplo em Singapura, onde toda água consumida é reinserida no sistema. O aumento da captação não é algo a ser feito do dia para a noite; é necessário transpor rios, construir represas, estações de tratamento, e poços. Demanda concreto, discussões, investimentos, planejamento. Planejamento, aliás, parece estar faltando.

3- “Alguns estabelecimentos e edifícios tem poços artesianos próprios; isso é bom?”. Não me parece e pode vir a ser muito problemático. São três as questões. (a) Existe uma chance gigantesca da água do lençol freático (mesmo que profundo), estar contaminada dentro da cidade. Quem garante que não se está regando o alecrim com água cheia de chumbo? Qualquer uso dessa água que não seja apenas para o vaso sanitário é perigoso. (b) Toda água subterrânea está, de alguma forma, conectada, até mesmo em bacias hidrográficas diferentes. O slogan “não usamos água da Sabesp” é simplista. No fundo é a mesma água, que está sendo abstraída do lençol freático antes de sair na nascente. Bacias hidrográficas recebem pressões umas das outras dessas águas subterrâneas. (c) Há uma transferência de uma responsabilidade pública para o cidadão. Quem está autorizando e controlando essa água? Quem garante que essa extração não é excessiva ou danosa para a saúde? Se cada um bombear sua própria água do poço sem plano, aí sim a água vai acabar rapidamente.

4- “O uso do volume morto é aceitável?”. Faço uma analogia: se vocês estiverem perdidos em uma selva, vocês preferirão tomar água de uma poça quase seca ou de um rio de corredeira? Só em caso de emergência optarão pela poça, provavelmente. O volume morto é uma água parada, que acumulou poluentes ao longo das décadas porque a captação da Sabesp (os canos que sugam a água) estão a cima desse volume, deixando a parte inferior estanque. Agora resolveram extrair essa água. Mas não está vindo junto toda a poluição decantada no fundo, incluindo poluentes de difícil detecção?

5- “É possível garantir que a água do poço ou do volume morto é boa?”. Infelizmente, preciso dizer que isso é muito difícil. Tentei fazer testes laboratoriais da água que consumo. Quis testar de verdade, não apenas exames básicos supostamente já feitos pela Sabesp. Queria análises de metais pesados e hormônios. Os laboratórios (alguns públicos) se recusaram a fazer, talvez por ano eleitoral. Consegui um lugar para verificar os metais pesados, mas a margem de erro era no limite dos valores máximos recomendados para consumo em padrões internacionais (como a União Européia). Portanto, mesmo obtendo resultados considerados OK, é difícil dizer que a água seja totalmente segura para beber porque apenas os limites máximos das regras internacionais seriam suficientes para tirar os marcadores do zero. Nenhum indicador de metais pesados apresentou problemas, mas não consegui achar sequer um lugar no Brasil que fizesse o teste para hormônios e medicamentos. Conclui que o resultado era satisfatório, porém ainda um tanto inconclusivo.

6- “Podemos explorar águas subterrâneas livremente então?”. Isso faltou explicar no meu primeiro texto. O ideal é que só seja retirado do lençol freático a mesma quantidade de água em que a região consegue naturalmente recarregar no subsolo. Ou seja, a água total que se infiltra no solo. A estimativa desse volume envolve um processo complicado de análise, mas que é praticado em muitos lugares do mundo.

7- “O aquífero Guarani seria uma alternativa?”. O que eu tentei no último post foi desmistificar inclusive a existência do aquífero Guarani, como é entendido hoje pelo senso comum. A permanência desse conceito antiquado de um único reservatório subterrâneo é até motivo de chacota de pesquisadores internacionais. Um aquífero Guarani não existe, o que temos são várias camadas de água em diferentes níveis. Os mapas atuais do aquífero mostram afloramentos mais superficiais (estes que estão no meio do Estado de São Paulo, por exemplo). Nada impede, porém, que camadas profundas, mais próximas da cidade, sejam extraídas. Defendo o uso de água subterrânea especialmente para situações emergenciais, tanto que a abstração não supere a recarga natural do sistema.

8- “Então seria melhor ter uma empresa privada?” Cara… Você não entendeu nada do que eu falei. Primeiro porque a Sabesp já é, na prática, privada. Todas as decisões tomadas nos últimos anos não visam prestar um bom serviço (vejam o último post), e sim entregar dividendos para os acionistas na Bolsa de Nova Iorque e São Paulo. Segundo, por ser um serviço tão fundamental, é necessário que seja parte de políticas públicas seríssimas de longo prazo. Não acredito que o atual Governo tenha quaisquer condições de criar essas políticas, como já não teve nas últimas décadas. Esse é um problema político, da gestão hoje.

Gabriel Kogan, 04/10/2014

Original em https://www.facebook.com/gabriel.kogan2/posts/10152848167682784


seca

Gostaria de desmistificar alguns pontos sobre a crise hídrica em SP, assunto que tangencia minhas pesquisas acadêmicas.

1- “Não choveu e por isso está faltando água”. Essa conclusão é cientificamente problemática. Existem períodos chuvosos e de estiagem, descritos estatisticamente. É natural que isso ocorra. A base de dados de São Paulo possibilita análises precisas desde o século XIX e projeções anteriores a partir de cálculos matemáticos. Um sistema de abastecimento eficiente precisa ser projetado seguindo essas previsões (ex: estiagens que ocorram a cada cem anos).

2- “É por causa do aquecimento global”. Existem poucos estudos verdadeiramente confiáveis em São Paulo. De qualquer forma, o problema aqui parece ser de escala de grandeza. A não ser que estejamos realmente vivendo uma catástrofe global repentina (que não parece ser o caso esse ano), a mudança nos padrões de chuva não atingem porcentagens tão grandes capazes de secar vários reservatórios de um ano para o outro. Mais estudadas são as mudanças climáticas locais por causa de ocupação urbana desordenada. Isso é concreto e pode trazer mudanças radicais. Aqui o problema é outro: as represas do sistema Cantareira estão longe demais do núcleo urbano adensado de SP para sentir efeitos como de ilha de calor. A escala do território é muito maior.

3- “Não choveu nas Represas”. Isso é uma simplificação grosseira. O volume do reservatório depende de vários fluxos, incluindo a chuva sobre o espelho d’água das represas. A chuva em regiões de cabeceira, por exemplo, pode recarregar o lençol freático e assim aumentar o volume de água dos rios. O processo é muito mais complexo.

4- “As próximas chuvas farão que o sistema volte ao normal”. Isso já é mais difícil de prever, mas tudo indica que a recuperação pode levar décadas. Como sabemos, quando o fundo do lago fica exposto (e seco), ele se torna permeável. Assim a água que voltar atingir esses lugares percola (infiltra) para o lençol freático, antes de criar uma camada impermeável. Se eu fosse usar minha intuição e conhecimento, diria que São Paulo tem duas opções a curto-médio prazo: (a) usar fontes alternativas de abastecimento antes que possa voltar a contar com as represas; (b) ter uma redução drástica em sua economia para que haja diminuição de consumo (há relação direta entre movimento econômico e consumo de água).

5- “Não existe outras fontes de abastecimento que não as represas atuais”. Essa afirmação é duplamente mentirosa. Primeiro porque sempre se pode construir represas em lugares mais e mais distantes (sobretudo em um país com esse recurso abundante como o Brasil) e transportar a água por bombeamento. O problema parece ser de ordem econômica já como o custo da água bombeada de longe sairia muito caro. Outra mentira é que não podemos usar água subterrânea. Não consigo entender o impedimento técnico disso. O Estado de São Paulo tem ampla reserva de água subterrânea (como o chamado aquífero Guarani), de onde é possível tirar água, sobretudo em momentos de crise. Novamente, o problema é custo de trazer essa água de longe que afetaria os lucros da Sabesp.

6- “O aquífero Guaraní é um reservatório subterrâneo”. A ideia de que o aquífero é um bolsão d’água, como um vazio preenchido pelo líquido, é ridiculamente equivocada. Não existe bolsão, em nenhum lugar no mundo. O aquífero é simplesmente água subterrânea diluída no solo. O aquífero Guaraní, nem é mesmo um só, mas descontínuo. Como uma camada profunda do lençol freático. Em todo caso, países como a Holanda acham o uso dessas águas tão bom que parte da produção superficial (reservatórios etc) é reinserida no solo e retirada novamente (!). Isso porque as propriedades químicas do líquido são, potencialmente, excelentes.

7- “Precisamos economizar água”. Outra simplificação. Os grandes consumidores (indústrias ou grandes estabelecimentos, por exemplo) e a perda de água por falta de manutenção do sistema representam os maiores gastos. Infelizmente os números oficiais parecem camuflados. A seguinte conta nunca fecha: consumo total = esgoto total + perda + água gasta em irrigação. Estima-se que as perdas estejam entre 30% e 40%. Ou seja, essa quantidade vaza na tubulação antes de atingir os consumidores. Água tratada e perdida. Para usar novamente o exemplo Holandês (que estudei), lá essas perdas são virtualmente 0%. Os índices elevados não são normais e são resultados de décadas de maximização de lucros da Sabesp ao custo de uma manutenção precária da rede.

8- “Não há racionamento”. O governo está fazendo a mídia e a população de boba. Em lugares pobres o racionamento já acontece há meses, dia sim, dia não (ou mesmo todo dia). É interessante notar que, historicamente, as populações pobres são as que sempre sentem mais esses efeitos (cito, por exemplo, as constantes interrupções no fornecimento de água no começo do século XX nos bairros operários das várzeas, como o Pari). A história se repete.

9- “É necessário implantar o racionamento”. Essa afirmação é bem perigosa porque coloca vidas em risco. Já como praticamente todas as construções na cidade têm grandes caixas d’água, o racionamento apenas ataca o problema das perdas da rede (vazamentos). É tudo que a Sabesp quer: em momentos de crise fazer racionamento e reduzir as perdas; sem diminuição de consumo, sem aumentar o controle de vazamentos. O custo disso? A saúde pública. A mesma trinca por onde a água vaza, se não houver pressão dentro do cano, se transformará em um ponto de entrada de poluentes do lençol freático nojento da cidade. Estaremos bebendo, sem saber água poluída, porque a poluição entrou pela rede urbana. Por isso que agências de saúde internacionais exigem pressão mínima dentro dos canos de abastecimento.

10- “Precisamos confiar na Sabesp nesse momento”. A Sabesp é gerida para maximizar lucros dos acionistas. Não está preocupada, em essência, em entregar um serviço de qualidade (exemplos são vários: a negligência no saneamento que polui o Rio Tietê, o uso de tecnologia obsoleta de tratamento de água com doses cavalares de cloro e, além, da crise no abastecimento decorrente dos pequenos investimentos no aumento do sistema de captação). A Sabesp é apenas herdeira de um sistema que já teve várias outras concessionárias: Cantareira Águas e Esgotos, RAE, SAEC etc. A empresa tem hoje uma concessão de abastecimento e saneamento. Acredito que é o momento de discutir a cassação dessa outorga, uma vez que as obrigações não foram cumpridas. Além, é claro, de uma nova administração no Governo do Estado, ao menos preocupada em entregar serviços público e não lucros para meia dúzia apenas.

Enfim, se eu pudesse resumir minhas conclusões: a crise no abastecimento não é natural, mas sim resultado de uma gestão voltada para a maximização de lucros da concessionária e de um Governo incompetente. Simples assim, ou talvez, infelizmente, nem tanto.

Gabriel Kogan


mira

A exposição de Mira Schendel na Pinacoteca não faz jus à obra da suíço-brasileira. A arte é intocável, é como um santo em um altar, uma rainha cercada por seus guarda-costas. Ai de quem resolva perfurar barreiras. Alarmes soarão e tiros serão disparados.

“Não pode soprar”, foi o que ouvi do segurança, ao respirar próximo da obra ‘Ondas Paradas de Probabilidade’, feita simplesmente de fios de nylon suspensos no forro. Isso é lamentável e Mira deve se revirar no caixão. Os curadores pesquisaram o pensamento da artista e a intenção desse projeto?

Vejam o que a artista fala sobre a primeira exibição dessa mesma obra na Bienal em 1969: “O modelo será montado no próprio local. No tocante ao dinheiro, custará menos de 10 francos suíços. E também não me importo se o destruírem. Depende da possibilidade de ver-se nele algo ou nada se perceber. De modo que se alguém deixar intactos esses finos fios de náilon, cortá-los com raiva ou arrancá-los, no fundo (plano de fundo!), isso não teria a menor importância.”

Agora a instalação virou simples imagem contemplativa. Todo o conteúdo político, sensorial e libertário foi substituído por um objeto estético inerte. Vamos dizer que isso não é grande novidade. Quantas vezes já vimos obras de Lygia Clark ou Helio Oiticica, por exemplo, também pensadas para originalmente como sensoriais e interativas, acompanhadas de plaquinhas como palavras de ordem: “Não toque, não pise, não pense”.

Na mesma mostra atual de Mira na Pinacoteca, a sala mais impressionante tem quadros meticulosamente trabalhados, feitos em finos papeis e montados entre duas chapas transparentes. Os trabalhos ficam flutuando no espaço, mas – inexplicavelmente – não se pode caminhar entre eles. Por que?

“Foi uma decisão da curadoria mesmo, em Londres podia andar no meio, mas não podia tirar foto”, explicou com naturalidade o monitor do espaço. Seria bom se os museus se preocupassem um pouco com outras coisas senão montar esquemas de segurança intransponíveis para obras de arte. “Não toque!”, tem muito valor, é sagrado, é inatingível. É fetiche. É arte.

Gabriel Kogan, 04/10/2014


Que a arte se tornou um commodity especulativo, não é novidade. Que a arte é hoje uma arma da valorização imobiliária, também não. A exposição ‘Made by… Feito por Brasileiros’ no Hospital Matarazzo arrecadou R$3,2 milhões em dinheiro público para catapultar um novo empreendimento imobiliário a ser edificado no lugar em breve (como foi bem descrito por Fabio Cypriano em seu artigo, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/184652-mostra-parece-so-disfarcar-projeto-imobiliario.shtml). Raras vezes os assuntos ‘arte’ e ‘mercado imobiliário’ foram aproximados de forma tão gritante e cínica.

Resta-nos discutir a ingenuidade dos artistas (esfomeados) que se submetem a projetos desse tipo, sem (pasmem!) muitos deles terem recebido qualquer coisa para isso. Em busca de prestígio, concederam as obras para que o empreendedor imobiliário pudesse se alavancar financeiramente. Escapa-me o que pensaram eles. Talvez quisessem o afago do empresário que os chamou de ‘novos bandeirantes’, esses assassinos-heróis desbravadores do país e que agora abrem as portas para o capital dizimar o que ainda nos resta das cidades.

É comum dirigirmos a críticas aos curadores. Mas vamos devolver a arte aos artistas e cobrar deles a responsabilidade por seus trabalhos, esperando que a importância exagerada conferida hoje a curadoria possa ser enfim eclipsada. Chama a atenção a falta de compreensão dos artistas não só da situação política em questão; mas da possibilidade de ocupação do hospital abandonado. Disponibilizado os espaços para a produção dos chamados ‘site specific’, a gigante maioria dos artistas usou as salas como lugares convencionais de exibição, com obras soltas no meio do ambiente ou com projeções de vídeos, como num museu. Nesses casos, a interface com o local não se estabelece nem como relação espacial criativa, nem como sentido em relação ao contexto histórico. Os artistas não parecem ter entendido as possibilidades abertas pelo uso do espaço em questão. A arte vai muito mal, obrigado.

Há de ser dito que temos por lá pelos menos uma dúzia de boas obras, além de 5 instalações excepcionais: de Iran do Espírito Santo, Cinthia Marcelle, Artur Lescher, Daniel Senise (um trabalho emocionante…) e (único estrangeiro dessa lista) Per Barclay. Mas não consigo abrir muitas concessões, nem aqui. Como artistas tão bons, que são capazes de fazer obras tão poderosas, se deixaram participar desse evento?

“A arte é mais”, bradou certa vez um dos artistas representados na mostra em uma palestra. Devemos nos perguntar antes: “Mais para quem, oras?”.

Gabriel Kogan, 20.09.2014




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 88 outros seguidores