Faço aqui uma pequena retrospectiva de dez artigos fundamentais para entendimento da atual questão hídrica em SP.

1- O problema não é de agora: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2903200101.htm
2- A manipulação dos dados: http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,pisa-na-sabesp-imp-,1621074
3- O posicionamento do terceiro setor: https://medium.com/a-conta-da-agua/ensaio-sobre-a-cegueira-hidrica-2759ec839c74
4- Direito a informação e grandes consumidores: http://apublica.org/2015/01/sabesp-se-nega-a-publicar-contratos-de-empresas-que-mais-consomem-agua/
5- Rodízio e redução de pressão são problemas, não soluções: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1577040-sp-deve-mirar-curto-prazo-na-luta-contra-crise-da-agua-diz-pesquisadora.shtml
6- Os conflitos a jusante: https://medium.com/a-conta-da-agua/nao-beba-agua-beba-cerveja-815dfe9eb5eb
7- Os lucros estratosféricos: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1078/noticias/nao-da-nem-para-racionar
8- O descaso político: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/10/1532662-cpi-sobre-falta-de-agua-e-teatrinho-diz-presidente-da-sabesp-a-vereador.shtml
9- Os prejuízos não são iguais para todos: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1582054-possivel-rodizio-em-sp-vira-piada-em-condominio-sem-agua-ha-11-dias.shtml
10- Bastaria, ao menos, fazer o óbvio: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/02/nova-york-venceu-crise-de-agua-sem-gastar-muito-dinheiro.html

Gabriel Kogan, 16.02.2015


saturnino de brito - sp

Projeto de Saturnino de Brito para o Rio Tietê em São Paulo, 1926. Na planta superior, o desenho mostra a então configuração do Rio Tietê. A segunda planta é a proposta de Saturnino, onde a hachura verde escura representa áreas a serem urbanizadas. No desenho inferior, o engenheiro representa diferentes cortes transversais do rio.

Em 1924, o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito foi contratado pelo então prefeito de SP, Firmiano Pinto, para fazer um estudo para o Rio Tietê, um rio meândrico a serpentear pelas várzeas da cidade. Havia duas preocupações concretas – antagônicas, mas correlacionadas: (1) as enchentes que fustigavam os moradores das planícies aluviais e impediam a valorização dos terrenos das margens; e (2) os problemas com abastecimento que viriam a assolar a cidade, em breve, com 1 milhão de habitantes. Além disso, o carro começava a dominar o desenho das cidades e os próprios rios se tornariam suporte para as avenidas já que a topografia dos vales e planícies era propícia para largas autopistas de alta velocidade.

O experiente Saturnino – projetista dos canais de Santos – faz um projeto considerando os usos integrados da água (abastecimento, transporte, saneamento, energia, lazer etc). Mas ele incorpora também demandas ideológicas surgidas poucos anos antes: a criação de Avenidas Marginais ao longo do curso d’água e a necessidade de valorizar os terrenos lindeiros, até então destinados para as populações pobres que conviviam com enchentes anuais. De qualquer forma, ainda que muito longe de ser um herói para os rios de São Paulo, Saturnino é generoso com as águas e propõe uma retificação do Rio Tietê deixando-o com uma secção de 90 a 120 metros (imagem). Nas margens haveria parques com 30 metros de largura e avenidas, de cada lado cada, com 40 metros. Além disso, o engenheiro propõe estações de tratamento de esgoto e lagos para lazer e acumulação de água de enchentes em fozes dos rios, como no Tamanduateí.

O que está no centro do desenho de Saturnino são as águas urbanas. Mas o projeto dele não chega a ser executado, sem antes ser redesenhado em 1929 por outros dois engenheiro, muito ligados a política e interesses industriais: Ulhôa Cintra e Prestes Maia. A dupla transfere o cerne do projeto urbano; saem os rios e entram os carros. O novo desenho estreita o Tietê para 70 metros, retira os grandes lagos, amplia a importância das avenidas marginais, esquece das estações de tratamento e parques lineares. Mais do que isso, o Tietê é inserido dentro de um projeto urbano de grandes avenidas, que se sobrepõe aos mais importantes rios de São Paulo. Esse novo projeto, se comparado com o de Saturnino, é bom para o automóvel e ruim para as águas urbanas. As avenidas carcomeram o espaço (e a importância) dos rios.

Com o Plano de Avenidas, Ulhôa Cintra e Prestes Maia estabelecem o grande paradigma de ocupação de São Paulo: valorização do transporte rodoviário individual, valorização imobiliária de várzeas, estreitamento dos rios por grandes avenidas, negligência de sistemas urbanísticos hídricos. Se queremos recuperar os rios de São Paulo precisamos entender a intrínseca relação criada entre avenidas e rios por aqui, em que o primeiro prospera em detrimento ao segundo.

Não é possível realmente começar a resolver a crise hídrica sem redesenhar os rios e as margens, e para isso temos que livrar os espaços hoje tomados pelos carros. No lugar entram parques, pequenas estações de tratamento, canais laterais coletores de esgoto e um leito maior para os próprios rios. Em outras palavras, existe uma relação indissociável entre a crise no transporte e nas águas urbanas. Em outras palavras ainda, não devolveremos a dignidade aos rios se não construirmos transporte público e desativarmos as grandes avenidas. Olhemos para os anos 20.

Gabriel Kogan, 11/02/2015


crise1

A solução do rodízio de água em SP é péssima; trata-se simplesmente da medida mais barata para quem só sabe agir emergencialmente para tampar problemas:

1- Os canos vazios se tornam focos muito sérios de contaminação com a entrada de poluentes do lençol freático pelas fissuras.

2- Não é possível pressurizar um sistema todo em dois dias; parece que algumas pessoas nunca terão água (como já está acontecendo) nesse sistema. Já ficaria surpreso se conseguissem pressurizar a rede do centro de SP nesse tempo.

3- As perdas aumentarão, porque, ao repressurizar o sistema, rompem-se canos antigos. Calcula-se que as perdas aumentarão de 20 a 30% com isso.

4- Sem água os sistemas de esgotos não funcionam bem e há um aumento na concentração de poluentes, piorando ainda mais o problema de saúde publica já agravado pelo colapso.

5- Serviços públicos – caso não contratem caminhões pipa (que tem origem da água muitas vezes duvidosa, diga-se) – terão de fechar as portas. Isso inclui escolas e postos de saúde.

Outras medidas, muito mais eficientes e seguras, nunca entraram em pauta. Seria o caso, por exemplo, da instalação de medidores eletrônicos individuais que regulariam cotas fixas mensais para cada usuário. As principais cidades do mundo têm feito a substituição dos relógios antigos por novos há pelo menos uma década. É óbvio que não se faz isso do dia para a noite: “Estou aqui no meu Estado e fiquei pensando… será que vocês têm 5 milhões de medidores eletrônicos para pronta entrega amanhã?”. Todas essas ações pressupõe um mínimo de planejamento, bem… Isso parece faltar por aqui também.

Gabriel Kogan, 05/02/2015


cantareira_pumping

O colapso no abastecimento foi anunciado por todos os relatórios públicos desde 2004. E querem saber? Isso nem dependia de chuvas abaixo da média, bastava índices pluviométricos normais para que o sistema entrasse em colapso. A crise hídrica já estava desenhada.

Segundo informações de 2009 divulgadas pela Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Governo do Estado no relatório de Situação dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo – Ano Base 2009 (http://goo.gl/TcaaMZ, 2011, p. 65), a demanda total na Bacia do Alto Tietê (que equivale a Região Metropolitana de São Paulo) era de 64,02m3/seg. Já a disponibilidade era de 31m3/seg (*). Havia, portanto, em 2009 um déficit de 33,02m3/seg. De onde poderia vir essa água? Do tal Sistema Cantareira, abastecido por outra bacia hidrográfica, a Bacia Piracicaba-Capivari-Judiaí (PCJ). Adicionados os 33m3/seg outorgados para o Sistema Cantareira (**), chegamos em 64m3/seg. O Plano Estadual de Recursos Hídricos (http://goo.gl/OUfNvw, p. 94, 2007), aponta outras transposições vindas de rios com vertentes oceânicas, somando mais 1,3m3/seg. (***)

Em 2009, tínhamos um cenário limite do sistema: demanda de 64,02m3/seg e disponibilidade em 65,3m3/seg. A conclusão do relatório da Secretaria (2011, 68) é, então, assustadora: “O balanço entre demanda e disponibilidade indica que a situação permanece crítica”. Mas, a partir daí, a condição do abastecimento da Metrópole de SP piora e começa a entrar em total colapso. O Relatório de Situação dos Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/j0HuA9, 2013, p. 44) mostra um crescimento linear da demanda por causa do crescimento econômico e populacional. De 2009 a 2011 a demanda passa dos nossos 64m3/seg para 66,1m3/seg, chegando, em Janeiro de 2014, segundo informações da própria Sabesp (http://goo.gl/cgKvfV), a 71m3/seg.

Porém, a disponibilidade hídrica não conseguia aumentar na mesma proporção. O último plano elaborado para a Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/I4tmOR, 2009) reavalia a disponibilidade hídrica, através de modelos computacionais, para 68,1 m3/seg e não mais 65,3 m3/seg. Reparem que os relatórios posteriores (2011, 2013) são reticentes em adotar esse novo número e preferem informações mais conservadoras para os cálculos.

Sem muito alarde, o Relatório de Situação dos Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/j0HuA9, 2013, p. 73) nota a discrepância de disponibilidade entre os relatórios públicos e, pior, mostra valores inflados pela Sabesp em seus documentos. A disponibilidade hídrica trabalhada pela Sabesp (73,7 m3/seg) não encontra respaldo nos outros relatórios públicos. Com os dados de disponibilidade mais altos, a Sabesp justificaria sua produção e a ausência de investimentos – que se converteriam em lucros maiores.

Mas, e agora? De onde veio essa água desde 2010 ou 2011, quando a vazão disponível é ultrapassada pela demanda? Dos reservatórios que agora chegam em 2015 praticamente secos. Em Janeiro de 2014, havia um déficit (em cenário normal de chuva) de pelo menos 2,9m3/seg, o que dá mais de 250 milhões de litros por dia. Esse déficit consumiu as reservas.

Já estava tudo nos relatórios… A gente que não viu (e quem viu preferiu fechar os olhos): o desabastecimento estava mais que anunciado.

(*) Utiliza-se aqui o índice chamado Q95% que aponta o comportamentos a longo prazo do sistema: “Representa a vazão disponível em 95% do tempo na bacia” e em “5% do ano (…) vazão inferior a este valor”. Este é um dado de cada bacia, baseado na disponibilidade hídrica em relação a bases estatísticas locais. Ele pode ser modificado tanto a partir de reavaliações mais precisas, como por meio da ação humana, sobretudo com novas transposições ou, por exemplo, com o aumento da eficiência no transporte de água. Outro índice, Qmédio, incorpora os reservatórios de água (represas) constituídos ao longo do tempo e passa a ser pouco significativo se a demanda de água ultrapassar a vazão disponível em Q95% (incluindo transposições existentes).

(**) Já como o valor estabelecido pelas resoluções não é fixo, por vezes esse valor de doação do Sistema Cantareira aparece em documentos oficiais como 31m3/seg e por vezes como 33m3/seg. Já o Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (2009) fixa esse valor em 29,9 m3/seg, como sendo um patamar seguro. O uso excessivo do Cantareira já é alvo de um processo do MP.

(***) Reparem também que a demanda global apontada nesse mesmo Plano Estadual de Recursos Hídricos (2007) é de 90,23m3/seg que não bate com o valor estipulado pelo relatório da Secretaria depois no relatório (2011). Em 2004, os documentos oficiais (http://goo.gl/3boMWB, 2004, p.17) apontavam um déficit ainda maior: de 400%.

Gabriel Kogan, 04/02/2015


Boataria

04fev15

Êxodo urbano por causa da crise hídrica? Tanto o custo de deslocamento das pessoas, quanto o valor necessário para arrumar o problema emergencialmente parecem que não justificariam um êxodo urbano. É mais provável que as pessoas consigam viver com muito pouca água e em meio a uma séria crise econômica por causa disso por mais 1 ou 2 anos.

Os reservatórios estão cheios? Os vídeos que mostram represas cheias são bastante sensacionalistas e leigos. Certos reservatórios precisam ser mantidos cheios para operação do sistema, sendo os 5% atuais uma média do todo. Eu já publiquei sobre isso (http://goo.gl/W2mZUT) e a Sabesp esclareceu também esse assunto (http://goo.gl/aVpSup).

O consumo doméstico é de apenas 5%? Considero que esse gráfico não foi bem elaborado (http://goo.gl/G3DS6l). A princípio, foi usada aqui uma média internacional e aplicada as perdas da Sabesp. Isso não faz sentido porque a empresa não fornece água em escala para agricultura urbana por aqui. Nesse gráfico faltam os dados também sobre o consumo de grandes consumidores não-industriais (muito significativos). De qualquer forma, dados confiáveis não estão disponíveis por causa da baixa transparência da Sabesp. É de se esperar que o consumo doméstico seja relativamente baixo frente ao todo, mas provavelmente não apenas 5%.

A água vai acabar? A água não acaba, o que acaba é a reserva de água nas represas, trazendo assim desabastecimento para os consumidores. No entanto, é preciso destacar que, mesmo em período de estiagem, existe captação de água; as fontes que abastecem as represas são perenes. Portanto, há sempre um fluxo mínimo.


crise1

Enquanto nos aproximamos do colapso total no abastecimento em São Paulo, políticos tentam desesperadamente culpar a natureza: “é por causa da falta de chuva”. Nada disso. O problema é político mesmo.

Secas são periódicas e perfeitamente previsíveis a partir de estatísticas das bases de dados históricas. Um sistema robusto (e decente) de abastecimento deve ser concebido para aguentar anos seguidos de chuvas abaixo da média. Pesquisadores sobre clima como o professor Antonio Carlos Zuffo, da Unicamp, apresentam dados convincentes da sazonalidade de secas como essa a cada 35 a 50 anos – e isso não tem nada a ver com aquecimento global. Planejar sistemas para eventos que aconteçam nesses intervalos é mais do que plausível, é obrigatório em uma metrópole como a nossa.

A Sabesp foi parcialmente privatizada nas últimas décadas. Hoje, mais de 49% do capital está nas mãos de poucos, inclusive na Bolsa de Nova York. O governo do Estado tem feito políticas que atendem aos interesses desses acionistas e não da população. Assim, os lucros sugaram a capacidade de novos investimentos. Só em 2013 foram R$ 1,6 bilhão que saíram dos consumidores para remunerar os donos da água da cidade.

Mesmo nos países mais capitalistas do mundo, como a Holanda, as empresas de abastecimento são públicas. Por quê? A água é estratégica demais para ser objeto de especulação financeira. A incompetência e ganância na gestão hídrica nos últimos 20 anos no Estado de São Paulo tem agora dramáticas consequências para a economia da metrópole. Sem água, a economia capenga.

São Paulo negligencia sistematicamente o gerenciamento hídrico. Já estava instalada, muito antes e sem alardes, por exemplo, a crise do saneamento. Os rios são poluídos por uma razão simples: o esgoto não é recolhido e tratado, como inclusive exigiria a legislação. O Estado ignorou a lei e não classificou o rio Tietê. Supérfluo ou caro demais?

Lugares como Singapura fecharam o sistema de esgoto e abastecimento. Assim, toda a água consumida é recolhida pela rede pública, tratada com alta tecnologia e devolvida para a torneira. Saneamento e abastecimento são, portanto, dois lados da mesma moeda.

Já o governo federal fingiu que o colapso da maior cidade do país não era um problema relevante. A ANA (Agência Nacional de Águas), fazendo vistas grossas, se uniu a incompetência e descaso do governador. Nada foi feito, nem mesmo mudanças institucionais para pressionar outras instâncias.

Há exatamente um ano, eu publicava na seção Tendências e Debates, da Folha, um texto chamando a atenção para a seriedade da crise. Um ano! Eu fico imaginando quanto tempo o governador e os diretores da Sabesp tiveram para saber da possibilidade concreta do desastre. Muito mais do que eu, com certeza.

Em um ano, seriam possíveis investimentos que, se não revertessem, amenizassem muito o desabastecimento: cavar poços públicos e até construir (em regime de urgência) estações de tratamento para usar a água dos braços poluídos das represas. Em um ano, as gigantescas perdas do sistema podiam ter sido reduzidas com investimentos massivos.

Nada foi feito. As eleições estavam aí. O mais conveniente era não chamar a atenção para o problema. A mídia colaborou, se calando convenientemente até o dia seguinte do primeiro turno. Todos foram reeleitos; isso que importava.

O impacto econômico da crise hídrica para a cidade provavelmente superará o capital que teria sido necessário para fazer sistemas de abastecimento e saneamento de alta tecnologia e robustos, para despoluir e reurbanizar todos os rios, para devolver às águas à cidade – não mais como problemas urbanos, mas como virtudes, organizando lugares de encontros, espaços públicos.

Agora, as convulsões sociais, talvez tardias, são inevitáveis. E nelas não faltarão policiais armados, balas de borracha, spray de pimenta e, certamente, os novíssimos canhões d”água para combater esses “vândalos” – desta vez, também sedentos. Afinal, a ordem precisa imperar frente ao caos, não é mesmo?

Gabriel Kogan, publicado originalmente em http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2015/02/01/colapso-do-abastecimento-de-agua-nao-e-culpa-da-natureza.htm


obras

Precisamos ver as crises como oportunidades: a crise hídrica é uma chance para transformamos a essência dos nossos rios urbanos e dos padrões dos serviços públicos relacionados; para projetarmos rios como espaços públicos banhados por águas limpas.

Estou falando da oportunidade de criarmos políticas públicas sérias para águas urbanas; para colocarmos o planejamento a longo prazo das cidades na frente dos lucros imediatos de meia dúzia de empresa; de redesenharmos todos os córregos e rios com novos parques lineares; de construirmos canais laterais para drenar separadamente águas de esgoto e de chuva; de coletarmos todo o esgoto e tratarmos com estações nas fozes de cada rio e córrego; de criarmos patamares tão elevados de tratamento de esgoto que possamos reutilizar na rede de abastecimento; de desativarmos as avenidas marginais de todos os rios e córregos para alargamos os leitos e criarmos projetos paisagísticos para os terreno adjacentes; de termos portanto um transporte público descente; de desapropriarmos área de planícies aluviais.

Tudo isso é muito caro? Sim, mas caro será o prejuízo causado pela crise econômica na cidade em função do desabastecimento. Se começarmos no Brasil a internalizar todos os custos nas análises de políticas públicas, veremos que é muito mais barato fazer de outra forma. Caro é ter pessoas com os pés em córregos poluídos todos os dias; é caro para a vida delas, mas é caro também – para aqueles que só veem números – para os investimentos necessários depois em saúde pública. Caro é não fazer: o prejuízo econômico da crise hídrica, nada mais é que o capital que não foi investido no passado em um sistema fluvial, agora elevado a enésima potência.

Precisamos, antes de tudo, desconstruir a ideia de que não há projetos e que tudo isso é utópico. Para ficar em um mesmo exemplo, vejam os projetos orientados por Alexandre Delijaicov na FAUUSP (http://lattes.cnpq.br/6680777049179678); quase todos feitos em São Paulo e perfeitamente exequíveis para os rios da cidade. Ou mesmo o projeto do Hidroanel Metropolitano, coordenado pelo mesmo professor (http://www.metropolefluvial.fau.usp.br/).

Parafraseando Slavoj Zizek: para os políticos no poder, agora desesperados, a situação “é catastrófica, mas não grave”, porque poderá ser empurrada com a barriga com ações emergenciais e ao custo de fortes restrições à população; para aqueles que pensam que existe algo além a ser feito, a situação “é grave, mas não catastrófica” porque, com a coragem de enfrentarmos o problema, a possibilidade de fazermos diferente se anuncia mais do que necessária, se anuncia inevitável.

Gabriel Kogan, 31/01/2015




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 175 outros seguidores