De como escrevemos uma carta que nem por ser insólita deixava de merecer resposta, que não veio, e de como em vista disso os expedicionários decidiram ignorar tão inqualificável conduta e levar a bom tempo termo o que nela se explicava do modo mais engenhoso e detalhado.

 

Paris, 9 de Maio de 1982

Senhor Diretor da

Sociedade das Autopistas

41 bis, avenue Bosquet

75007 PARIS

 

Senhor Diretor,

Há algum tempo, sua Sociedade pediu-me autorização para publicar em uma de suas revistas alguns trechos de meu conto “La autopista del sur”. Naturalmente, atendi a seu pedido com viva satisfação.

Dirijo-me agora ao senhor para solicitar, por minha vez, uma autorização de natureza bem diversa. Juntamente com minha esposa Carol Dunlop, também escritora, estudamos a possibilidade de uma “expedição” um tanto louco e bastante surrealista, que consistiria em percorrer a autopista entre Paris e Marselha a bordo de nossa Kombi, equipada com todo o necessário, fazendo escalas nas 65 paradas da autopista à razão de duas por dia, ou seja, levando pouco mais de um mês para completar o trajeto Paris-Marselha sem sair uma só vez da estrada.

Além da pequena aventura que isto representa, temos a intenção de escrever, paralelamente à viagem, um livro que contaria de forma literária, poética e humorística as etapas, acontecimentos e experiências diversas que sem dúvida nos oferecerá uma viagem rara como essa. O livro deve se chamar Paris-Marselha em pequenas etapas, é óbvio que a autopista será seu principal personagem.

Esse é o plano, que seria executado com o apoio de amigos encarregados de nos reabastecer a cada dez dias (além do que vamos encontrar nos parkings da autopista). Parece-nos que o único problema é que um veículo não pode permanecer por mais de dois dias nessa estrada, e por isso nos dirigimos ao senhor para pedir-lhe a autorização e que, no momento oportuno, nos evitaria dificuldade nos vários pedágios.

Se o senhor considerar que nossa ideia de escrever um livro sobre o assunto não é desagradável para a sua Sociedade, e que não inconveniente em autorizar-nos a “viver” um mês deslocando-nos à razão de duas paradas diárias, agradeceria sua resposta o quanto antes, já que pretendíamos partir por volta do dia 23 deste mês. Fica também combinado que não gostaríamos de modo algum que nosso projeto fosse divulgado pela imprensa pois, sendo conhecidos como escritores, poderíamos ver perturbada nossa solidão de expedicionários. Chegada a hora, nosso livro se encarregaria de contar a história ao público.

Agradecendo antecipadamente sua atenção com respeito a este projeto, peço-lhe que aceite, senhor Diretor, meus sinceros sentimentos, assim como os de minha esposa.

Julio Cortázar

 

Essa carta foi enviada em 9 de Maio de 1982. No dia 23, depois de uma última e infrutífera olhada em nossa caixa de correio, concluímos que duas semanas eram mais do que suficientes para que uma sociedade comercial, por mais infestada que esteja de computadores e secretárias biliosas, respondesse ao nosso modesto pedido. Olhos nos olhos, apertamos as mãos com força e déssemos juntos:

-Co-expedicionário, amanhã às quatro da tarde tomamos nosso rumo!

Com isso queríamos dizer que, saindo da rue Martel, tomaríamos a rue des Petites-Écuries em direção à République, daí a Austerlitz (bom presságio!), e depois de chegar à porte d’Italie entraríamos, com a decisão que nos caracteriza, na autopista do Sul e faríamos nossa primeira parada na altura de Corbeil.

Tudo isso aconteceu de modo tão preciso que nos deixou surpresos, pois somos especialistas em errar o caminho, e nem nos espantaríamos muito se no fim nos víssemos na autopista do Este ou na place des Victories. Mas uma vez no rumo certo, quem poderia nos deter? Ao contário, já poderíamos pegar o primeiro sanduíche e dizer um ao outro que estávamos sós, incrivelmente sós, na primeira etapa de uma aventura da qual o leitor não faz a menor ideia, como nós naquele momento.

Corolário extraído do Livro das Maravilhas de Marco Polo, o qual mostrará ao leitor que em outras épocas os expedicionários não só recebiam resposta às suas cartas como também eram objeto de um tratamento que nossos lamentáveis tempos e raquíticos já não são capazes de oferecer.

“E quando o Grande Khan encarregou os dois irmãos e seu barão da mensagem que enviava ao Apóstolo, lhes fez entregar uma placa de ouro gravada com o selo real e assinada segundo o costume de seu Estado, na qual se dizia que os três mensageiros eram emissários do Grande Khan e que, em todas as praças fortes de que pudessem se aproximar, os governadores sujeitos a sua lei deveriam lhes dar, sob pena de cair em desgraça, o alojamento necessário, as naus e os cavalos e os homens para escolta-los de um país a outro, e todas as outras coisas que pudessem desejar para a viagem, assim como se fosse para Ele mesmo caso viesse a passar por ali.”

 

Uma citação que os exploradores interpretam como um bom conselho na hora de iniciar seu diário de viagem.

 

“Pierre, nosso guia alpino, que se curou de sua penosa mareação e recomeçou a escrever suas memórias, vem me pedir que lhe empreste ‘a que afasta as palavras’. Demoro a compreender que se trata de uma borracha” Jean Charcot, Autor du Pôle Sud.”

Julio Cortázar in Os Autonautas da Cosmopista, 1983.

 


arquivo

O texto a seguir não parecerá surpreendente os pesquisadores que, eventualmente, precisaram recorrer a fontes históricas primárias em seus trabalhos sobre São Paulo. Quem nunca ouviu dizer que as instituições não tem qualquer interesse em manter um acervo histórico em suas dependências? O custo é gigantesco e o retorno insignificante. Que uma empresa privada não queira ter esse ônus, isso é compreensível; agora o Poder Público? O Poder Público tem obrigação de zelar por seu arquivo, manter sua história. A história de São Paulo está se perdendo, se perdendo dentro de mapotecas de ferros e arquivos empoeirados. A situação dos acervos é alarmante. Muito mal conservados e em processo de total deterioração.

A Biblioteca Mario de Andrade, por exemplo, detém uma coleção inestimável de livros e documentos em suas dependências. Apesar de uma recente reforma, o acervo está em situação problemática. As consultas são feitas através de antigas fichas dispostas em arquivos de ferro. Isso mesmo, 2013 e praticamente nada do catálogo de pesquisa foi digitalizado. A consulta é rudimentar, visto que nem mesmo as fichas impressas estão unificadas. Existem diversas repartições e tudo está espalhado em um edifício labiríntico. Os funcionários muito competentes e sempre prestativos tentam desesperadamente localizar os itens. Mapas e documentos ficam em mapotecas inadequadas, aquelas gavetas com vários papéis justapostos, e não em mapotecas especiais para esse tipo de coisa. Aliás, o uso de mapotecas de gaveta é uma prática muito difundida pelos arquivos de São Paulo. Parte do acervo é inacessível, mas a sala de livros raros aberta ao público, ao menos é refrigerada. Isso não significa que as várias outras salas de documentos raros também sejam. Espero que sim. O tombamento nas velhas fichinhas é incompleto e deficiente e poucos trabalhos historiográficos são feitos dentro da instituição para identificar com precisão as peças. Apenas alguns poucos livros raros, manuscritos e fotografias foram recentemente digitalizados. Esse trabalho, no entanto, foi descontinuado.

A Mario de Andrade parece um arquivo luxuoso se comparado com o Arquivo Histórico de São Paulo. Esse é o mais importante depositário de documentos antigos da Prefeitura de São Paulo. Ficam, nesse edifício, documentos de grande valor histórico até 1924, relacionados com a cidade. O prédio está em processo de restauro, o que pode justificar alguns problemas. A questão, no entanto, é mais estrutural, de gestão. A falta de investimento é latente. Se na Mário de Andrade as fichinhas parecem muito toscas para a velocidade da pesquisa contemporânea, no Acervo Municipal não há catalogação. Existe, para ser justo, uma ou duas dezenas de fichários escolares que mostram o conteúdo de algumas pastas por tema. Esse catálogo não segue qualquer convecção internacional arquivista, e as tabelas mostram informações que alguém, em algum momento, julgou necessárias; sem nenhuma ciência. O prédio não tem condições ambientais para receber o acervo, o material não foi higienizado e a manipulação é feita por luvas de plástico de péssima qualidade, inadequadas para tocar documentos desse tipo. De qualquer forma, a falta de investimento em catalogação inviabiliza qualquer pesquisa. O que é um acervo deste sem catálogo? Para quê serve? A história da Prefeitura permanece inacessível e se apaga no antigo casarão próximo da Avenida Tiradentes. Ainda mais sério parece o fato de que a reforma no edifício começou sem um inventário intensivo do conteúdo do acervo, dando margem para roubos e perda de documentos durante o processo. Novamente, os funcionários são extremamente competentes, apesar de faltar especialistas em análise histórica. A única paleógrafa do arquivo se aposentou e ninguém é plenamente capaz de ler os manuscritos antigos.

Se já estamos ladeira a baixo, vamos descer um pouco mais. A Fundação de Energia e Saneamento. Uma OS (Ah! Essas OSs, a quê elas vieram?). Com a privatização de empresas de energia e saneamento no Estado de São Paulo, os acervos históricos não tinham para onde ir. Afinal as empresas não queriam aqueles trambolhos, caros, feios, antigos e sujos. Foi criada uma empresa para isso, que ‘herdou’ toda a documentação. Mesmo sem ter condições para isso, a Fundação de Energia e Saneamento foi criada para zelar pelo patrimônio histórico das antigas estatais. Os documentos, projetos, mapas e livros são apenas uma parte dos bens dessa instituição. Uma parte praticamente abandonada, aliás. A situação é crítica para o mais importante acervo de obras públicas de São Paulo. Por ali está (ou assim espera-se), por exemplo, o acervo da Light-Eletropaulo. Ou seja, os projetos das grandes obras de rios e transporte de São Paulo até a década de 1940. A Fundação está precariamente e provisoriamente locada em um agradável edifício industrial no Cambuci. Aliás (viu DPH?), esse complexo industrial, de grande valor arquitetônico, foi vendido pela AES e em breve a Fundação será despejada, sem lugar definido (e o provérbio alemão é sábio: duas mudanças equivalem a um incêndio). O atual edifício é bonito, mas totalmente inadequado para receber o acervo. O entorno inunda, o prédio tem goteira sobre os documentos e livros e o pior: a catalogação de projetos, documentos e fotos foi desfeita de alguns anos para cá. Sim… A Fundação herdou o arquivo parcialmente organizado das empresas. A Eletropaulo, por exemplo, tinha tudo bem catalogado, em planilhas e fichas. Mas essas catalogações não obedeciam às convenções internacionais, o que tornava muito difícil unificá-las.  O que a instituição fez? Desfez a organização, mas, ao em vez de reorganizar a medida que modificava a antiga ordem, acabou a indexação sem fazer outra. O que temos hoje? Um monte de mapotecas e tubos jogados, onde ninguém (ninguém!) sabe o quê tem dentro e nem onde está. São arquivos e mais arquivos de onde brotam peças importantíssimas da história de São Paulo. Tudo está jogado nesses lugares, imundo, apodrecendo; documentos rasgando. Com sorte não existem bactérias da gripe espanhola por lá. A única qualidade é que a sala de armazenamento tem ar condicionado, mas espero que eles (que ironia) não desliguem de noite para economizar. É evidente que a fundação não tem capacidade (seja lá técnica ou financeira ou política) de guardar esse acervo. Tudo piorou nos últimos anos.

Para não dizer que não há nada de bom nos acervos históricos, o Estado fez algo muito bem feito. Construiu uma nova sede, bem equipada, para receber os documentos. Unificando tudo. A visita a essa acervo não é propriamente agradável, como vi em alguns arquivos na França, em que o edifício do arquivo histórico é uma atração cultural da cidade; mas a consulta e armazenamento são mais do que adequadas. O prédio é como uma grande caixa forte de documentos, sem janelas, o que faz da experiência algo um pouco mórbido, enquanto pessoas consultam fichas criminais da Polícia Militar ao seu lado. De qualquer forma, merece respeito a iniciativa do Governo: fazer um lugar adequado para receber sua história e seus documentos. Além disso, a burocracia do lugar é bem reduzida se comparado aos outros acervos da cidade. É permitido bater fotos, por exemplo, das coisas que estão sendo consultadas.

Por fim, um último assunto. O uso de documentos históricos de acervos, mesmo para finalidades acadêmicas, está quase sempre sujeita a cobrança de taxas pelas instituições, mesmo as públicas. Qual é o sentido disso? Cobrar pelos documentos públicos históricos? A quem isso interessa? Essa norma favorece apenas a burocracia e atrapalha a pesquisa. Uma pesquisa histórica pode custar milhares de reais só em direitos de imagens pagos para os cofres públicos. Acredito, no entanto, que na escala do município, por exemplo, a arrecadação total dessas taxas é insignificante. Aliás, há um decreto municipal, expedido dia 21 de Dezembro de 2012 (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/upload/decreto_53657_1359457802.pdf) pela antiga gestão, requerendo essa cobrança de todos os usuários. Já se passaram três meses da nova gestão e esse decreto não foi revogado para as instituições culturais da Prefeitura. Considero que seria de grande importância revê-lo. E se o incentivo a pesquisa não é um argumento forte o suficiente, questiono a constitucionalidade desse decreto: a lei federal de acesso a Informação (LEI Nº 12.527, DE 18 DE NOVEMBRO DE 2011) prevê que (Art. 12) “o serviço de busca e fornecimento da informação é gratuito, salvo nas hipóteses de reprodução de documentos pelo órgão ou entidade pública consultada, situação em que poderá ser cobrado exclusivamente o valor necessário ao ressarcimento do custo dos serviços e dos materiais utilizados.”. Ou seja, cobrar pelo xerox é legal, mas não pelo direito de imagem do documento. Como se não bastasse o estado trágico dos acervos municipais, o decreto piora ainda mais a condição de pesquisa nos acervos históricos. A situação é lamentável.

Post escrito e enviado por Gabriel Kogan


mapa 1916

“As residências burguesas ou médias, que, até fins do século passado [século XIX], nesta insignificante cidade que mais não era então São Paulo, se confundiam com o centro comercial, destacavam-se quando o crescimento da atividade urbana já não comportava mais residências em pleno centro. É lá por 1880 que se formam os primeiros bairros propriamente residenciais; e vamos notar que, ao contrário dos bairros operários, que se estabelecem nos terrenos mais ingratos das baixadas do Tietê e do Tamanduateí, as residências burguesas se fixam nas alturas do maciço. Localizam-se, a princípio, contíguos ao centro, para o lado do Tietê, isto é, na direção norte; e daí vão acompanhando o bordo inferior do maciço, pouco acima da linha em que começa a baixada do rio. É aí que se instala o bairro de Santa Ifigênia, com suas residências aristocráticas de fins do século passado, que se prolongam depois pelos Campos Elísios. Para o outro lado da cidade, isto é, nos pontos mais levados desta vertente do maciço, parecem primeiro as chácaras, cujos parques e jardins vão sendo loteados e substituídos aos poucos por verdadeiros bairros urbanos compactos. É o caso da Consolação; depois, seguindo a antiga estrada do Vergueiro, a Liberdade; e já no alto do espigão mestre do maciço, a Vila Mariana.

Em princípios do século atual [século XX], os bairros residenciais lançam-se decididamente pelo flanco do maciço, subindo-lhe as encostas à procura de terrenos mais altos e saudáveis; é a vez de Higienópolis, que será o bairro da aristocracia paulista das fortunas saídas do café. E subindo sempre, as residências alcançam o alto espigão, onde se instala, acompanhando-o fielmente, a Avenida Paulista. Já então a progressão cafeeira se interrompera, as novas fortunas saem da indústria do comércio, quase todo em mãos de estrangeiros, imigrantes enriquecidos nesta Canaã americana: A Avenida Paulista será o bairro residencial dos milionários desta nova fase da economia paulista, estrangeiros ou de recente origem estrangeira quase todos. E a arquitetura do bairro o dirá bem claramente.

Da Avenida Paulista, pelas escarpas abruptas que demandam a várzea do Pinheiros, descem novos bairros. E a própria várzea começa a ser ocupada; já não , como foi o caso de suas irmãs do Tietê e do Tamanduateí, por populações operárias, mas pela mesma burguesia de Higienópolis e da Avenida Paulista. Inaugura-se tal ocupação por esta obra-prima de urbanismo que é o Jardim América, iniciado em 1910. A designação ficará, e os bairros da várzea do Pinheiros serão todos “jardins”: Jardim Paulista, Jardim Europa. Jardins no nome e no aspecto: vegetação profusa, amplos espaços livres, construções isoladas em meio de grandes parques. Será este o recanto mais pitoresco de São Paulo; o seu caráter se afasta completamente dos modelos urbanísticos que herdamos do passado, e traz um cunho acentuadamente anglo-saxão que lhe imprimiu a empresa daquela origem que lançou este tipo de urbanismo depois largamente imitado.”

In Caio Prado Jr., A ciade de São Paulo: Geografia e história. Editora Brasiliense, 1983, p. 68-70

 

Post enviado por Gabriel Kogan


Imagem

“A Terra Livre, O Amigo do Povo, La Battaglia, A Lanterna foram os jornais [anarquistas]  de duração mais longa publicados no período, em São Paulo. À frente da maioria deles, estariam alguns quadros estrangeiros já formados nas concepções libertárias, que chegaram ao Brasil entre fins do século XIX e princípios deste século. La Battaglia foi fundada por Orestes Ristori, italiano proveniente do Uruguai. Lembrando como grande propagandista e orador, Ristori sofreu duas deportações do Brasil, a última em 1936. Juntou-se à Brigada Internacional durante a guerra civil na Espanha, sendo morto na Itália, como refém dos nazistas em 1944. Em princípios de 1912, assumiu a direção do jornal Luigi (Gigi) Damiani, uma figura de traços psicológicos diversos de Ristori – “homem de poucas palavras e de sorriso irônico” – mas com formação semelhante. Chegado ao Brasil em 1899, proveniente da Itália onde já fora perseguido como anarquista, passou seis anos no Paraná. Aí trabalhou como pintor de paredes e fundou um jornal, procurando influir sobre os trabalhadores locais. Colaborou com frequência em La Battaglia, antes de assumir sua direção, no Amigo do Povo, e foi expulso do Brasil em 1919, na vaga de deportações daquele ano, tornando-se bastante conhecido nos círculos anarquistas europeus por sua atividade na Itália, ligado a Malatesta. À frente do Amigo do Povo, participando da direção da Terra Livre, da revista Aurora, surgia a figura tímida, avessa às aparições públicas, de Gregório Nazianzeno de Vasconcelos – Neno Vasco. Foi ele talvez o mais lúcido expositor das idéias anarquistas do período, combinando a capacidade de perceber as alternativas centrais da estratégia libertária coma análise das condições da sociedade brasileira, além de ter sido um eficiente organizador. Nascido em Portugal, filho de um comerciante rico, chegou ao país em 1900 ou 1901, após obter o grau de bacharel em Direito por Coimbra. Sua permanência no Brasil estendeu-se até abril de 1911, quando retornou a Portugal, aí morrendo em setembro de 1920. Ao lado de Neno Vasco, na direção da Lanterna, na atividade sindical, o brasileiro que acabou por simbolizar todo o movimento anarquista. Embora nascido no interior de São Paulo (Mogi Mirim, 1881), Edgar Leuenroth, formara suas concepções entre a redação dos jornais e o bairro operário do Brás, onde viveu grande parte de sua vida. Tipógrafo aos 14 anos, a seguir jornalista, teve uma breve inclinação pelo socialismo, no contato com o socialista baiano Estêvão Estrela. Por volta de 1903, iniciou sua longa militância sindical, no Centro Tipográfico de São Paulo, e aderiu ao anarquismo.”

In Boris Fausto, Trabalho Urbano e Conflito Social. Editora Difel, 1977, p. 92 & 93

O periódico ‘A Lanterna: Folha Anti-Clerical de Combate’ pode ser lido online na hemeroteca da Biblioteca Nacional

 

Post enviado por Gabriel Kogan


Por algum motivo que desconheço, um texto de 2009 sobre a Holanda se tornou bastante popular nas redes sociais recentemente (http://blog.daniduc.net/2009/09/14/da-relacao-direta-entre-ter-de-limpar-seu-banheiro-voce-mesmo-e-poder-abrir-sem-medo-um-mac-book-no-onibus/). O texto traça um paralelo entre a igualdade social na Holanda e os altos níveis de segurança pública, criticando concepções morais enraizadas na sociedade brasileira.

Sobre as críticas desse texto do comportamento preconceituoso e desigual das elites brasileiras, há pouco o que seja questionável. O texto, no entanto, é uma visão romântica dos Países Baixos, totalmente descontextualizada da história e dos problemas contemporâneos da região, e uma comparação imprecisa com o Brasil.

Antes de mais nada, se a Holanda é mais segura do que qualquer outro país na Europa, inclusive países considerados mais ricos, isso se deve, sobretudo, às políticas de tolerância à drogas e a redução do tráfico, com desarticulação de uma significativa parte do crime organizado (para mais informações vale a pena ver dois documentários brasileiros: o excelente “Cortina de Fumaça”, http://www.youtube.com/watch?v=svSglyz2Tb8, e “Quebrando o Tabu”, http://www.youtube.com/watch?v=tKxk61ycAvs)

Em relação à igualdade social na Holanda, não vejo muita. Existe, de fato, uma crescente desigualdade, sobretudo em relação a estrangeiros e descendentes de estrangeiros. Muito fácil é olhar para metade da sociedade. Os estrangeiros não são incorporados plenamente às estruturas econômicas do país, mesmo que venham a se tornar maioria num futuro próximo. A religião com maior população hoje nos Países Baixos é do Islã. A situação se tornou muito tensa após o assassinato do cineasta Theo van Gogh, que produziu de um filme supostamente ofensivo à religião (tire suas próprias conclusões: http://www.youtube.com/watch?v=UrxP1y0NOaM). Antes disso, o sociólogo e político Pim Fortuyn, crítico do islamismo, foi também assassinado. Tudo isso criou e ergueu aos céus o partido ultraconservador PVV (hoje terceira maior potência política e fundamental para o equilíbrio de poder), que se opõe abertamente à presença de populações imigrantes no país. A tensão é crescente e insustentável. Se queremos discutir a igualdade e a liberdade na sociedade holandesa e brasileira, precisamos olhar para todos os grupos sociais, e não só alguns.

Em relação à comparação Brasil-Holanda, não se pode destacar de uma análise histórica crítica. Isso obviamente não justifica qualquer desvio (ou deformação) de comportamento social. Diga-se antes que o Brasil não é a Holanda, sobretudo por contingentes históricos nada desprezíveis. Não cabe aqui recuperar a história colonial desses países, nem mesmo a inserção e desenvolvimento capitalista dos povos. Há uma acumulação de riquezas e desenvolvimento muito distinto, em que um justifica, na ordem global, a existência e as contradições do outro.

Aliás, o porto de Roterdã é suficiente para manter o nível de consumo médio do país, se fosse esse a única fonte de renda. E que esse mesmo porto depende quase exclusivamente de trabalho de estrangeiros, sobretudo os estivadores. Por sinal, não acho uma boa ideia abrir um Macbook em um ônibus em Roterdã não, mas isso não vem ao caso. Qualquer comparação econômica-social que descontextualize historicamente as nações é extremamente perigosa, para não dizer romântica e ingênua.

Gabriel Kogan, 09/01/2013


cindy

“Um mecanismo que até mesmo define a existência humana: “Menos é Mais”. Toda forma de “mais” – transcendência, até o divino –  é arraigada em “menos”. Para ter a experiência do divino, você precisa ter a experiência – como todo bom cristão te dirá – da objeção, a finitude da sua mortalidade. Então, apenas a experiência do “menos” abre o espaço para o “mais”. Claro que as relações aqui se tornam muito complexas. O quê já foi dito precisamente pelos últimos palestrantes: bons exemplos de como arquitetos não querem apagar os traços de imperfeição no produto, como o concreto deve permanecer com traços da produção, ondulado, com falhas visíveis. Verdade. Mas aqui, as coisas tornam-se complexas porque o problema é que, se você imagina a produção moderna industrializada, é muito mais fácil construir uma superfície perfeita, sem marcas. Eu penso que esse paradoxo é muito interessante, todo arquiteto sabe: custa muito mais fazer um prédio que parece imperfeito. Você tem que pagar muito mais para introduzir sinais de imperfeição. Estamos de volta novamente para o erotismo. Eu me lembro, anos atrás quando ambas ainda eram modelos, que houve uma grande pesquisa: qual supermodel os homens preferem, Claudia Schiffer ou Cindy Crawford? Cindy Crawford ganhou. E quando perguntavam por que, a grande maioria dava a mesma resposta. Vocês se lembram de que a Cindy Crawford tem aquela marca de nascença? A ideia era que Claudia Schiffer era muito perfeita. Isso criava ansiedade, você precisa de um sinal de imperfeição.”

Slavoj Zizek in ‘Architecture and pleasure from the aesthetics of the common beauty icons’. Palestra proferida na University of Ljubljana, Slovenia, no dia 10 de Junho de 2010.

Traduzido por Gabriel Kogan, 21/12/2012


leite moça

Não gosto muito de doce. Desses doces bem doces. Não gosto muito de leite condensado, nem brigadeiro. Mas adoro tapioca e minha tapioca favorita é, infelizmente, a de coco com um pouquinho de leite condensado. Só como leite condensado com tapioca. Isso me lembra dos anos que estudava arquitetura e ia quase toda semana comer tapioca na faculdade vizinha com meus amigos.

Comprei outro dia no supermercado uma goma de tapioca e uma lata de leite condensado para fazer tudo em casa. Eu nunca tinha comprado uma lata de leite condensado, apenas uns bastõezinhos que desapareceram dos supermercados. Se alguma vez abri uma lata de leite condensado, isso faz muito tempo. Sim, eu já tinha visto a nova lata de leite condensado, do Leite Moça Nestlé. Mas eu nunca tinha manipulado uma.

A nova lata (depois descobri que ela foi lançada em 2005, há mais de 7 anos) é uma das piores peças de design que eu já vi na vida. A “nova” latinha tem uma cintura, uma cintura da moça, provavelmente alguma piada machista sem graça do desenvolvedor do produto afinal o símbolo mais forte de uma moça é sua cintura. Tudo isso daria para perdoar. Mas design que não funciona não dá.

A latinha da Nestlé dificulta o que já é uma das atividades mais difíceis e arriscadas da cozinha: o abridor de lata não adere à fina borda e a cinturinha da moça dificulta que ela seja rotacionada com segurança. A lata é perigosa e muito. É praticamente impossível abrir ela até o fim (retirar a tampa totalmente) com um abridor convencional, desses que 99% da população brasileira. Não abre.

Quantos cortes esse design fantástico da latinha já induziu? Isso sem falar que todas as latas na Europa e mais metade do mundo vem com um dispositivo para abertura (sem o uso do abridor) o que ameniza muito o risco de acidentes. Ou seja, o custo adicional que esse puxador metálico teria no Leite Moça, é externalizado para o sistema de saúde, em pessoas que são atendidas com corte (e podem ocorrer cortes bem profundos…) nos hospitais.

Disseram-me que a lata é “revolucionária”, porque economiza alumínio. Pior ainda. Fizeram um design que não funciona com uma bela justificativa econômica (que justifica tudo). Se economiza alumínio não se pode criticar, nem mesmo se arrancar meu dedo fora. Aliás, o produto ficou mais barato com a lata “nova”? Aposto que não. E aposto que a produção é mais cara que a lata banal.

Como se tudo isso não bastasse, a cinturinha dificulta que a latinha seja raspada até o fim por dentro, aumentando o desperdício. Encontrei num blog da internet um artigo falando que a Nestlé tinha decidido mudar a lata para se “diferenciar” dos concorrentes, que usam a lata antiga, bem melhor que a “nova”. Acabaram, isso sim, por produzir uma excelente peça de péssimo design.

 Gabriel Kogan, 15/12/12




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 29 other followers