a distinção entre espaço e lugar

24set08

Dando continuidade à série de referências ao livro do cotidiano de Michel de Certeau e, principalmente, à serie de distinções entre dois termos irmãos, transcrevo a distinção entre lugar e espaços:

“Inicialmente, entre espaço e lugar, coloco uma distinção que delimitará um campo. Um lugar é a ordem (seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência. Aí se acha portanto excluída a possibilidade para as duas coisas, de ocuparem o mesmo lugar. Aí impera a lei dos ‘próprio’: os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num lugar ‘próprio’ e distinto que define. Um lugar é portanto uma configuração instantânea de posições. Implica uma indicação de estabilidade.

Existe espaço sempre que se tomam em conta vetores de direção, quantidades de velocidades e a variação do tempo. O espaço é um cruzamento de móveis. É de certo modo animado pelo conjunto dos movimentos que aí se desdobram. Espaço é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais. O espaço estaria para o lugar como a palavra quando falada, isto é, quando é percebida na ambiguidade de uma efetuação, mudada em um termo que depende de múltiplas convenções, colocada como o ato de um presente (ou de um tempo), e modificado pelas transformações devidas a proximidades sucessivas. Diversamente do lugar, não tem portanto nem a univocidade nem a estabilidade de um ‘próprio’.

Em suma, o espaço é um lugar praticado. Assim a rua geometricamente definida por um urbanismo é transformada em espaço pelos pedestres. Do mesmo modo, a leitura é o espaço produzido pela prática do lugar constituído por um sistema de signos – um escrito.

Merleau-Ponty já distinguia de um espaço ‘geométrico’ (“espacialidade homogênea e isótropa”, análoga do nosso “lugar”) uma outra ‘espacialidade’ que denominava ‘espaço antropológico’. Essa distinção tinha a ver com uma problemática diferente, que visava separar da univocidade “geométrica” a experiência de um “fora” dado sob a forma de espaço e para o qual “o espaço é existencial” e “a experiência é espacial”. Essa experiência é relação com o mundo; no sonho e na percepção, e por assim dizer anterior à sua diferenciação, ela exprime “a mesma estrutura essencial do nosso ser como situado em relação com um meio” – um ser situado por um desejo, indissociável de uma “direção de existência” e plantado no espaço de uma paisagem. Deste ponto de vista, “existem tantos espaços quantas experiências espaciais distintas”. A perspectiva é determinada por uma “fenomenologia” do existir no mundo.

Num exame das práticas do dia-a-dia que articulam essa experiência, a oposição entre ‘lugar’ e ‘espaço’ há de remeter sobretudo, nos relatos, a duas espécies de determinações: uma, por objetos que seriam no fim das contas redutíveis ao estar-aí de um morto, lei de um ‘lugar’ (da pedra ao cadáver, um corpo inerte parece sempre, no Ocidente, fundar um lugar e dele fazer a figura de um túmulo); a outra, por operações que, atribuídas a uma pedra, a uma árvore ou a um ser humano, especificam ‘espaços’ pelas ações de sujeitos históricos (parece que um movimento sempre condiciona a produção de um espaço e o associa a uma história). Entre essas duas determinações, existem passagens, como o assassinato (ou a transformação em passagem) dos heróis transgressores de fronteiras e que culpados de terem atentado contra a eli do lugar, restauram-no por seu túmulo; ou então, ao contrário, o despertar dos objetos inertes (uma mesa, uma floresta, uma personagem do ambiente) que, saindo de sua estabilidade, mudam o lugar onde jaziam na estranheza de seu próprio espaço.

Os relatos efetuam portanto um trabalho que, incessantemente, transforma lugares em espaços ou espaços em lugares. Organizam também os jogos das relações mutáveis que uns mantém com os outros. São inúmeros esses jogos, num leque que se estende desde a implantação de uma ordem móvel quase mineralógica (aí nada se mexe, salvo o próprio discurso que, numa espécie de travelling, percorre o panorama) até a sucetividade acelerada das ações multiplicadoras de espaços (como no romance policial ou em certos contos populares, mas esse frenesi espacializante nem por isso deixa de ser menos circunscrito pelo lugar textual). Seria possível uma tipologia de todos esses relatos, em termos de identificação de lugares e de efetuações de espaços. Mas, para aí encontrar os modos segundo os quais se combinam essas distintas operações, precisa-se ter critérios e categorias de análise – necessidade que reduz aos relatos de viagem os mais elementares.”

***

Vale a pena ler junto a esse trecho a distinção entre paisagem e espaço feita por Milton Santos, verificar até onde vai o paralelismo entre paisagem e lugar e entre as duas definições do espaço. Numa primeira visada, as definições parecem convergentes, o que define uma provocação ao jargão arquitetônico das escolas paulistas, que costuma chamar de espaço o receptáculo físico, que passa a ser um lugar quando habitado por pessoas e dotado de valores históricos, sentimentais e simbólicos. Importante lembrar, ainda, que podemos procurar saber o que significa ‘lugar’ para Milton Santos, e teremos uma outra definição que não coincide nem com ‘paisagem’ nem com ‘espaço’

Mas o que considero mais rico por hora é como, em Milton Santos, a estabilidade dos objetos na paisagem (lugar) resulta de seu isolamento na descrição pela história e como, em Certeau, a passagem ou a articulação entre o lugar (paisagem) e o espaço pode se dar pela narrativa do relato, modalidade especial das práticas dos lugares.

 

Post enviado por Paulo Miyada

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One Response to “a distinção entre espaço e lugar”


  1. 1 o detrás da câmera, aqui ou ali? « cosmopista

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