Gilberto Freyre – Homens, Terras e Águas na Formação Agrária do Brasil

07mar08

“Em Gabriel Soares de Sousa – no seu Tratado descritivo do Brasil em 1587 – encontram-se informações valiosas sobre as relações entre homens e edifícios rurais e rios nos primeiros trechos de território brasileiro ocupados por engenhos de açúcar ou fazendas de criação. Principalmente por engenhos de açúcar. Do engenho de Jerônimo de Albuquerque – o primeiro que se levantou em Pernambuco depois da chegada de Duarte Coelho – diz-nos o cronista que de sua ribeira desciam náos com assucares (Ed. da Rev. do Inst. E Geog. Br., tomo XIV, p. 22); do rio Ipojuca descreve que “neste rio entram e saem caravelões do serviço dos engenhos” (p. 24); refere-se a uma enseada economicamente estratégica do mesmo trecho norte, como de início ocupada por “uma povoação com grandes casas de sua vivenda e uma igreja de Nossa Senhora, mui ornada, toda de abóboda” (p. 37); e referindo-se à barra de S. Vicente diz que: “entrando por este rio acima está a terra toda povoada de uma banda e da outra de fazendas mui frescas” (p. 85).

Mas é na segunda parte do seu trabalho – na que se refere com minúcias à sub-área bahiana do açúcar – que o cronista é mais abundante nas suas informações sôbre o assunto. Das margens do Pirajá destaca três engenhos movidos à água de ribeira (p. 122), das margens do Matoim, entre outros, o engenho de Sebastião da Ponte “que moe com sua ribeira que chamam Cotigipe” e o de Sebastião de Faria, movido por uma ribeira chamada Aratú: engenho com grandes edifícios de casa de purgar e de vivenda, e uma igreja de S. Jerônimo, todo de pedra e cal (p. 125); das margens do Paraguassú, salienta o “notável e bem assentado engenho de João de Brito de Almeida, que está senhoreando esta bahia com a vista, o qual engenho é de pedra e cal, e tem grandes edifícios de casas, e muito formosa igreja de S. João, de pedra e cal” (p. 133); das margens do Jaguaribe, não só destaca o engenho de Fernão Cabral de Ataíde como “obra mui formosa e ornada de nobres edifícios de casas de vivendas… e de uma igreja de S. Bento” como escreve que “deste engenho para baixo vivem alguns moradores que têm suas roças e canaviais ao longo do rio que o aformoseam muito” (p. 136). Não só tais roças, canaviais, edifícios agrários aformoseavam os rios: eram aformosados pelos rios. Mais do que isto: eram enobrecidos pelos rios. Juntava-se à vantagem econômica o elemento estético-ecológico de valorização da propriedade agrária e da residência rural pela vizinhança imediata do rio.”

Gilberto Freyre in “Homens, Terras e Águas na Formação Agrária do Brasil: Sugestão para um Estudo de Interrelações”. Boletim do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS), recife, v. 3, p. 3-12, 1957.

 

Post enviado por Gabriel Kogan

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