Pedregulho

18out08


Funcionário da prefeitura do Rio de Janeiro, Affonso Eduardo Reidy, arquiteto do aterro do Flamengo, é uma das principais referências modernas brasileiras de uma arquitetura pública. Alguns quilômetros do parque beira-mar, em uma pequena encosta no bairro de São Cristovão, Reidy projetou um conjunto habitacional, o Conjunto Habitacional Pedregulho (1947). Antes de tudo, o ‘Pedregulho’, como é chamado, é um paradigma de como o Estado pode construir o território.

O projeto não se restringe a lâminas habitacionais; é um conjunto de equipamentos e habitação, constituindo uma espécie de unidade de vizinhança. A casa, verticalizada no edifício-viaduto, estabelece uma relação próxima com os edifícios públicos, localizados em uma cota mais baixa no pequeno morro. Na concepção original, algo como “um programa da cidade” é re-elaborado para o Conjunto: propõe-se assim a escola pública (jardim de infância, maternal, berçário, escola primária), o mercado, a lavanderia, um posto de saúde, além de alguns equipamentos de lazer como quadras esportivas, ginásios e piscinas.

Implantado em um lugar de grande declive, o edifício principal de habitação com 260 metros de comprimento e 272 apartamentos, acompanha a curva de nível, e sua forma em curva é derivada da topografia do terreno. A entrada desse prédio se dá por uma rua coberta, em uma andar intermediário que constitui um lugar de estar e lazer para os moradores. Dessa rua acessam-se as escadas para as unidades, embaixo e a cima dela. O tripé conceitual arquitetônico-urbanístico da ‘rua’ (infra-estrutura), da ‘escola’ (equipamento) e da ‘casa’ (habitação) é materializado no programa do Pedregulho.

Muito diferente do pensamento político que se consolidou nas décadas seguintes, a habitação não é tratada por Reidy como um problema em si; não é tratado como algo que pode ser destacado de toda a vida urbana. Conjuntos Habitacionais como a COHAB de Itaquera em São Paulo acabaram por consolidar uma política pública precária, recorrente até hoje: a habitação poderia ser suprida com a construção de unidades em locais geralmente muito distantes do centro e desprovidas de quaisquer equipamentos públicos e infra-estruturas. O Pedregulho manteve-se, em um imaginário arquitetônico moderno, como uma contraposição possível de uma produção de cidade.

No recente documentário sobre Reidy, Lembranças do Futuro (2006), de Ana Maria Magalhães, uma moradora do Pedregulho desfere um comentário incisivo sobre o destino que o conjunto teve ao longo de sua existência: aparentemente, tudo que estava ao alcance do poder público foi feito para que aquela experiência isolada em São Cristovão se destruísse e se arruinasse ao longo dos anos, tornando-se uma visão depressiva do futuro do passado. Pareceria assim, para desatentos cidadãos que “aquilo havia dado errado e não seria um modelo a ser seguido”. Em um Conjunto Habitacional irmão ao Pedregulho também de Reidy na Gávea, o Conjunto Residencial Marquês de São Vicente, um túnel que chega até a Barra, foi desviado para o meio edifício; rompendo a arquitetura, e explicitando a depredação também sofrida pelo conjunto modelo do Pedregulho, que hoje se encontra em mal estado de conservação e muito modificado em relação ao projeto original. A escola do Pedregulho foi restaurada e continua funcionando. Os demais equipamentos públicos, porém, foram desativados.

Ao visitar o Brasil, em 1953, o arquiteto suíço Max Bill, foi implacável ao criticar a arquitetura brasileira, acusando-a de incorrer “no erro de aplicar uma doutrina inadequada ao seu país”. Max Bill se disse chocado com o que havia testemunhado no edifício da Galeria Califórnia de Oscar Niemeyer, em São Paulo, em que viu “a arquitetura moderna decaindo às profundezas, turbulento e desperdício anti-social, sem respeito tanto com o comerciante quanto com o público”. O arquiteto suíço, no entanto, abre sua palestra proferida na FAU-USP em 9 de Junho daquele ano, fazendo uma contundente ressalva e, ao mesmo tempo, uma bonita homenagem: “Pretendo falar francamente, sem no entanto recair na crítica destrutiva, nem questionar os remarcáveis sucessos da arquitetura brasileira; em especial, o famoso conjunto Pedregulho no Rio de Janeiro”.

 

Para chegar ao Pedregulho com transporte público pegue o ônibus Jacaré 474 (que passa na Avenida Nossa Senhora de Copacabana). Peça para o cobrador avisar quando for o ponto do CADEG (um mercadão municipal. Da cobertura do CADEG pode-se ver o Pedregulho). Siga pela Rua Capitão Felix, passando na frente do mercado, e vire a direita na Rua Ferreira de Araújo. O Conjunto fica próximo do estádio São Januário do Vasco da Gama, e do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas (um interessante projeto de Sérgio Bernardes que teve sua gigantesca cobertura tensionada arrancada por uma tempestade. Hoje o centro funciona sem a cobertura). Turistas pouco acostumados com a região devem ter atenção e respeitar o lugar. Segundo me foi dito, no domingo há um intenso e interessante uso popular do espaço, com funk e cerveja.

Todas as excelentes fotos desse post são de Pedro Vannucchi (http://www.pedrovannucchi.com)

 

 

 

Post enviado por Gabriel Kogan

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6 Responses to “Pedregulho”

  1. 1 ricardo herculano bulhoes de mattos

    preciso copia documentario produzido por ana maria magalhaes,sobre conjunto pedregulho para uso junto ao conselho estadual das cidades de roraima e conselhos municipais no estado de roraima

  2. 2 claudia alkmim

    tambem gostaria de ver o documentario de ana maria magalhaes…alguem mande um site de compra ou busca que possa encontra-lo.
    obrigada
    claudia alkmim

  3. 3 Gabriel Kogan

    oi claudia,

    você pode encontrar o documentário de ana maria magalhães na biblioteca da faculdade de arquitetura e urbanismo da usp, na área de audio-visuais. há uma cópia do filme lá.

  4. 5 RICARDO CORRÊA

    A construção é uma obra-prima. Lamentável que esteja em uma região da Cidade Maravilhosa que é esquecida e desprezada pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Atualmente temos um prefeito (EDUARDO PAES) que só tem olhos para a região da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. Saudades do ex prefeito CÉSAR MAIA.

  5. 6 Ines Damaceno

    Senhores.
    Solicito uma cópia do documentário de Ana Maaria Magalhães, o Pedregulho faz parte da minha história de vida, mas que infelizmente foi perdida por ocasião de tantas mudanças na minha vida, minha memória dos fatos é vazia, mas meu interesse em colar esses pedaços é grande. Quem sabe este documentário me recoloque de volta ao meu tempo de infancia.
    Hoje componho os Conselhos municipal, estadual e nacional das cidades e lido com as questões relacionadas do desenvolvimento urbano. Este pedaço do Rio mexe comigo
    Maria Inês damaceno da Silva


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