Politicamente incorreto

20fev10

Talvez tudo isso pareça um pouco fora de moda… A história que segue foi contada por uma testemunha presente. Acreditemos ou não nela.

Entre meados e finais da década de 1970, quando Lina Bo Bardi desenvolvia o projeto do SESC Fábrica da Pompéia, algumas pessoas, provavelmente da própria instituição, começaram a pedir insistentemente para a arquiteta que desenhasse o centro acessível para deficientes físicos.

Irritada com as rígidas normas que esse tipo de adaptação impõe sobre a arquitetura alterando agressivamente distâncias e conceitos arquitetônicos milenares; talvez conhecendo a América mais do que qualquer americano, talvez sentindo que esse tipo de solução poderia acarretar na destruição da sua arquitetura, Lina esbravejou: “Não comprem essa idéia de fora! Não comprem essas leis. Não comprem essas normas. Elas foram inventadas para outros países, aqui no Brasil as pessoas se abraçam, se beijam, se ajudam.”. Naqueles anos, final da guerra do Vietnã, um sofisticado conjunto de leis começava a ganhar corpo nos Estados Unidos para garantir que os veteranos de guerra pudessem acessar edifícios públicos, edifícios de propriedade daqueles que meteram os próprios soldados nos confins da Ásia.

Lina Bo Bardi dirige a discussão para uma dimensão ética da arquitetura. No Brasil, ao contrário do mundo desenvolvido, “o povo não se importa em ajudar os outros”. Se alguém precise transpor uma barreira, não faltará quem carregue, puxe ou empurre. Na Europa e nos Estados Unidos isso é quase uma vergonha, existe uma distância imposta entre as próprias pessoas, entre desconhecidos e até amigos.

Veja… Não seria eticamente desejável que aqueles que queiram se locomover e porque tem alguma diferença possam fazer isso sem ajuda de outros? Não há dúvida. Mas antes disso, será que quando alguém precisa de ajuda (e todos nós precisamos em todos os momentos nas cidades) não seria dever ético ajudarmos? Isso seria verdadeiro até em um sentido clássico: para Aristóteles, por mais que isso possa soar estranho hoje, a base de organização das cidades é a amizade, a solidariedade. Um conjunto de leis sobre a acessibilidade seria então um conjunto de leis sobre a ética dos cidadãos e sobre isso não se pode legislar diretamente. Se por um lado, o acesso para deficientes em edifícios de uso público pode representar uma grande conquista da individualidade (em uma sociedade com tantas grandes conquistas da individualidade!), ela significa também (sobretudo por analogia) uma perda de um sentido coletivo das cidades.

Mais de 30 anos depois dessa história de Lina na Pompéia, a radicalidade dessas idéias criou distorções absurdas e esquizofrênicas, que soam provocativas com um leve toque de ironia. A acessibilidade, como não poderia ser diferente, se tornou um grande negócio. A prefeitura trabalha incansavelmente para rebaixar calçadas em esquinas em São Paulo, enquanto as calçadas (esburacadas, sob a responsabilidade de cada proprietário, de cada indivíduo, muito convenientemente para o poder público) são inacessíveis para qualquer cidadão sem dificuldades de locomoção. Não se pode chegar até a esquina, mas uma vez na esquina o cadeirante pode transpor o meio fio sozinho.

Ah! E a Ministro Rocha Azevedo tem mais de 8,5% de inclinação.

Post enviado por Gabriel Kogan

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