Microsoft X Helvetica

16nov10


Diz a lenda da computação que a Microsoft incluiu no Windows a fonte Arial porque não queria pagar os direitos autorais da fonte Helvetica. Ao invés de embutir um produto de boa qualidade e custo relativamente alto dentro de seu sistema operacional, a empresa de Bill Gates se aventurou em uma fonte que havia sido desenvolvida anos antes pela IBM pelos mesmos motivos econômicos. A Arial é uma espécie de cópia mal feita da Helvetica, em que, nem a precisão dos espaçamentos nem o desenho cuidadoso das fontes, foram levados em conta.

O resultado desastroso atingido pelos designers da Arial todos conhecem e está até hoje presente nos sistemas operacionais da Microsoft. A decisão, a princípio secundária, e meramente econômica da Microsoft teve grande impacto na história da tipografia. A fonte padrão adotada pelo mundo depois da invenção do computador foi então uma fonte considerada de baixa qualidade. Os documentos diagramados em programas Microsoft, ou seja, praticamente todos, primariam então pela baixa qualidade tipográfica e, portanto, baixa qualidade visual.

Nada é considerado tão difícil de ser desenhado quanto uma família de fontes. Trata-se de um projeto extremamente cuidadoso e delicado, em que sutilezas de cada curva, de cada espaçamento, de cada traço, influenciam o leitor conscientemente e inconscientemente. O desenho de uma fonte é o supra-sumo da comunicação visual e até hoje utilizamos fontes desenhadas há alguns séculos. É comum, inclusive, dizer que fontes antigas tendem a ser melhores, porque o projeto gráfico de uma fonte, por sua extrema complexidade, só pode ser um projeto coletivo, em que novos e sutis aperfeiçoamentos são alcançados ao longo das décadas.

O trabalho meticuloso de designers do século XX como Adrian Frutiger e do Max Miedinger, designer da Helvetica, possibilitaram que fontes relativamente recentes fossem rapidamente difundidas por causa de suas excelentes qualidades. Nota-se, porém, que a própria Helvetica é baseada na Akzidenz Grotesk de 1898. Em outras palavras, a história da tipografia não é feita de grandes saltos, mas sim de adaptações e aprimoramentos de fontes anteriores. De fato, uma construção coletiva.

Curiosamente, a Arial é um aprimoramento mal feito da Helvetica. Princípios milenares de tipografia foram desrespeitados e a fonte não estabelece uma coesão e nem uma legibilidade minimamente satisfatória. Isso não impediu que se tornasse talvez uma das fontes mais difundidas da história, uma vez imposta dentro dos pacotes Microsoft. O mesmo aconteceu com outra fonte, a Times New Roman, uma fonte indiscutivelmente de excelente qualidade (criada na década de 1930), foi incluída nos sistemas operacionais em uma versão piorada que foi descrita por designers como Robert Bringhurst como “um artefato de engenharia digital magnificamente complexo, capaz de compor má tipografia em cinco escritas e em mais de cem línguas diferentes” (in Elementos do Estilo Tipográfico, Cosac Naify).

Em um famoso discurso para formandos de uma universidade norte-americana, Steve Jobs confessa que a história de sua vida e, portanto, da Apple, começou a mudar quando ele se inscreveu em um curso, ainda como estudante, de tipografia. Steve Jobs incorporaria esse conhecimento tipográfico em todos os futuros produtos da Apple, todos impecáveis do ponto de vista da comunicação visual. Ao contrário do que acontece no Windows, no OS, você não encontra um texto fora da caixa, uma palavra com kerning errado e, sim, ele inclui uma versão razoável da Helvetica. O famoso problema “estético” do Windows tem origem histórica e apenas refletem uma filosofia da Microsoft.

Essa histórica ganhou um capítulo novo em 2010. A Microsoft lançou uma nova versão de seu programa mais bem sucedido da atualidade, o Office 2010. Não se sabe ainda exatamente por que, essa nova versão do Office é totalmente incompatível com as principais versões da fonte Helvetica e ainda com algumas outras fontes de alta qualidade. Talvez seja um erro de programação, aquilo que se chama de bug, não é possível arriscar. Um erro suspeito. Ao tentar abrir um documento com Helvetica ou um e-mail que contenha a fonte (lembrando que a Helvetica é uma fonte padrão de Mac), o Outlook ou o Word, executam uma falha fatal e encerram imediatamente o programa. Até agora, antes que esse suposto “bug” fosse corrigido (isso, se será corrigido em algum momento), não só o Office não inclui uma fonte de boa qualidade como a Helvetica como impede que ela seja visualizada se instalada separadamente. O programa da Microsoft foi lançado com um erro terrivelmente grave.

Na internet alguns fóruns começaram a relatar o problema e identificar a incompatibilidade entre Helvetica e Microsoft. A solução apresentada foi simples: desinstale a Helvetica. A reação natural foi imediata. As empresas, sobretudo de design, arquitetura, publicidade (ou qualquer outra que mexem com criação), estavam substituindo o pacote Office por outro pacote do mercado. Fica a pergunta se os compradores do pacote Office 2010 serão ressarcidos. Trata-se de um duelo de gigantes que a Microsoft desencadeou. Apesar de o Office ser um software “padrão de mercado”, muito difundido; a fonte Helvetica, nos últimos 50 anos se tornou mais do que uma fonte, uma espécie de símbolo do design moderno.

PS: Para aqueles que acham que o espaçamento da Arial é igual ao da Helvetica, essa é uma breve demonstração de que isso não é verdade (ver imagem ampliada). A Arial aparece em preto e a Helvetica em vermelho. Os lugares onde há sombreamento vermelho mostram onde há diferença. São detalhes pequenos, mas que no desenho de uma fonte podem ser decisivos. Nota-se que as maiores discrepâncias acontecem em lugares perigosos, depois de pontos e de letras maiúsculas. Muito provavelmente, mesmo em um texto longo, não haverá quebra de linha em pontos diferentes, porém a legibilidade pode sim ser completamente outra.

Post escrito e enviado por Gabriel Kogan

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