São Vito e o problema habitacional da cidade contemporânea

26nov10

O artigo a seguir foi publicado editado no Fórum dos Leitores do Jornal Estado de S. Paulo do dia 20 de Setembro de 2010. É um texto que virou carta. Algumas semanas depois, escrevi outro texto sobre o mesmo assunto que foi publicado integralmente na seção Tendências/Debates do Jornal Folha de S. Paulo do dia 11 de Outubro de 2010.

A demolição do São Vito como símbolo do desastre das políticas urbanas

Na última semana a prefeitura iniciou a demolição do Edifício São Vito projetado em 1959 pelo meu avô, Aron Kogan (que morreu 25 anos antes do meu nascimento) em parceria com Waldomiro Zarzur. Muitas vezes o edifício foi lembrado como “um símbolo da degradação do centro de São Paulo”. Sua demolição, no entanto, deveria ser lembrada como um símbolo do desastre político e urbanístico que as últimas gestões da prefeitura empurram a cidade.

A concepção urbanística do São Vito poderia ainda hoje ser tomada como paradigma para São Paulo. O prédio foi pensado como uma habitação hiper-densa no centro, sobretudo para populações migrantes, de baixa renda, que chegavam em busca de uma nova vida. Com generosas janelas e panos de vidro, o São Vito oferecia uma excelente qualidade arquitetônica e, mais importante, a habitação próxima do trabalho. A gestão amadora de um edifício gigantesco como o São Vito é uma tarefa muito difícil e, por causa disso, o tempo foi implacável com a construção. O resultado pode ainda ser visto todos os dias na Avenida do Estado. Administrar um prédio desse tamanho é tão complexo quanto dirigir uma grande empresa.

Os princípios urbanísticos do São Vito se relacionam com os principais problemas da cidade de São Paulo hoje: a baixa densidade e o processo de periferização. A questão habitacional intensifica todos os demais problemas da cidade. O transporte público torna-se extenso e custoso e os equipamentos precisam ser muito numerosos. A melhora da cidade de São Paulo passa pela idéia de adensamento planejado.

A prefeitura de São Paulo inicia a demolição sem saber ao certo o que vai colocar no lugar. Especula-se a construção de um estacionamento. Assim, através de uma idéia anacrônica de estimulo ao transporte privado, a prefeitura aprofunda o problema urbano. Por trás da demolição há outra coisa: ‘revitalização’. Quando se fala em ‘revitalização’ fala-se, necessariamente, em valorização do preço da terra; e quando se fala em valorização do preço da terra, a conseqüência certa disso é a expulsão das camadas mais pobres da população, que serão forçadas a morar em periferias sempre mais distantes.

O que se planeja aqui não é a demolição do São Vito; o São Vito é apenas uma pedra no meio do caminho. Planeja-se uma cidade asséptica, uma cidade limpa, uma cidade dividida, uma cidade para poucos. Planeja-se enfim uma cidade inviável, uma cidade sem futuro possível que derramará seu próprio veneno sobre todos a cada nova chuva, a cada novo congestionamento. Se quiserem demolir o São Vito e apagar a caligrafia urbana de suas janelas, a única resposta possível, em uma cidade humana e democrática, é sua reconstrução.

GABRIEL KOGAN é arquiteto e urbanista neto de Aron Kogan, arquiteto do São Vito

 

Post enviado por Gabriel Kogan

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3 Responses to “São Vito e o problema habitacional da cidade contemporânea”

  1. Excelente texto Gabriel!

  2. 2 Leonardo Musumeci

    Caro Gabriel,

    a mensagem do texto é bem clara e, se me permite, vou estimular o debate por aqui na linha da sua proposta de “olhemos para além do meramente visível!”

    Nesse sentido, acredito que seja necessário, sim, ‘levantar a lebre’ das políticas (‘policiais’ para apoiarmo-nos nos escritos de Ranciere) de gentrificação da cidade – que (complemento, ainda) não devem ser analisadas separadamente, mas em sua totalidade, pois, sob essa ótica, os resultados ganham contornos ainda mais perversos -, mas devemos verificar nas próprias pranchetas o que a reflexão propõe e, mais importante, a serviço de quem está.

    Para continuar no exemplo, acredito que mesmo a Kogan&Zarzur, por trás da forma moderna, tivesse ideais não tão ‘bons, belos, justos e verdadeiros’ assim – não apenas na formulação do projeto do São Vito, mas de outros edifícios na cidade.

    Afinal, quanto às razões que levaram ao declínio da proposta, se, por um lado, temos uma gestão bastante complexa, por outro, não podemos deixar de olhar, por exemplo, para a utilização de mecanismos ‘outros’ para aprovação de tais edifícios, o que leva a crer que o problema da cidade se efetiva não apenas quando da sua realização, mas também de sua proposição.

    Sem este olhar, acho difícil gerar uma meta-reflexão necessária, ou uma crítica contundente que parta dos arquitetos e tenha resultados efetivos na produção da cidade. Precisamos, como você mesmo propõe, investigar a fundo, ir além do visível ou do que querem que vejamos.

    Parabéns pelo site.

    Abs.

  3. 3 gabriel kogan

    Oi Leonardo,

    Espero que isso não soe contraditório com meu próprio texto, mas estou de acordo com seu comentário. E apenas não digo que ‘plenamente’ de acordo por causa de 3 ponderações que me parecem necessárias:

    1- Não acredito que haja qualquer distinção entre ‘realização’ e ‘proposição’ da cidade. De fato, são uma mesma coisa. Isso me lembra uma preocupação grande que tive depois que o texto foi publicado no jornal de que poderia haver um mal entendimento dele de que a cidade é obra do acaso. Muito pelo contrário A cidade e seu caos foram projetados.

    2- Baseado nisso, não consigo concordar totalmente com esse mesmo parágrafo seu, não propriamente no que tange a existência e a contradição dos mencionados “mecanismos ‘outros'”, mas na formulação do ‘real problema’. Essa linha de raciocínio pode nos levar a um certo exagero entre causas e efeitos na política e nos costumes. Esse pensamento, que não deixa de ser verdadeiro, muito dificilmente pode ser explicado em palavras. É como se tudo fosse uma coisa só, mesmo que saibamos que isso pode ser verdade. Uma análise mais pragmática de fatos concretos me pareceu mais elucidativa.

    3- Por fim, em relação a meta-reflexão necessária, e de fato necessária, concordo em parte com sua colocação. É importante considerar que o texto foi escrito para jornais diários, lidos por leitores que em sua maioria acham o São Vito apenas feio, acreditam numa dita democracia e tem um conhecimento leigo (e raras vezes questionado) sobre as possíveis configurações de uma metrópole (como por exemplo a oposição conceitual entre um bairro jardim e uma cidade hiper-densa). Portanto, se por um lado concordo com as suas colocações, e que de fato foram em parte suprimidas no meu texto, destaco que se fiz isso não foi por não considerá-las menores ou por desconhecimento de causa, mas por uma questão puramente didática, que um texto jornalístico requer. Com espaço limitado e a necessidade de diálogo com um público a ser, digamos, esclarecido, essas ponderações que você fez, mesmo que verdadeiras, poderiam inviabilizar (possivelmente) o texto e (certamente) sua publicação.

    De qualquer forma agradeço muito os comentários atentos e acertados, que servem como uma espécie de ‘anexo necessários’ para o artigo.

    Abraços,


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