A naturalização dos problemas urbanos

27set12

Os problemas urbanos de São Paulo são retratados por Governos e entendidos pelo senso comum como problemas naturais. Esses problemas teriam então origens externas, incontroláveis e imprevisíveis. E sobre isso nada se poderia fazer. Normalmente a naturalização dos problemas se alia a soluções tecnocráticas, despolitizadas. A naturalização dos problemas, no entanto, esconde processos históricos e suas reproduções na cidade contemporânea. Esconde também alternativas possíveis.

O trânsito como um problema natural

Difunde-se por aí a ideia de que o trânsito é algo natural de grandes cidades. O crescimento da cidade (o natural crescimento desordenado) levaria ao aumento da população e, assim, ao aumento do número de carros. Restaria apenas a opção pelo crescimento da infraestrutura rodoviária, com a duplicação de avenidas como as Marginais, construção de túneis e pontes estaiadas. Abstrai-se assim que o trânsito é consequência de uma política desastrosa de transportes, que coloca o automóvel como o principal meio de locomoção. Abstrai-se assim uma longa história de lobby e pressões da indústria automotiva para maiores investimentos em infraestrutura rodoviária. Abstrai-se assim a ausência de investimentos maciços em transporte público, como metrô, e em políticas habitacionais que densificariam o tecido urbano. Abstrai-se ainda uma política econômica que reduz impostos para a compra de automóveis, mas que, por sua vez, não fomenta a fabricação de trens e implantação de linhas.

 

As enchentes como um problema natural

As chuvas seriam as grandes culpadas: castiga a cidade e infecta a população. As enchentes seriam consequência de fortes tempestades naturais. Abstrai-se assim a histórica ocupação de várzeas que absorveriam cheias naturais e o loteamento e venda dessas áreas. Abstraem-se absurdas políticas de canalização e tamponamento de córregos que diminuem a capacidade vazão das águas pluviais. Abstrai-se o predomínio do transporte rodoviário sobre os rios, sempre comprimidos entre avenidas quando não colocados sob elas. Abstrai-se a necessidade de desativar grandes avenidas para dar vazão as águas urbanas. Abstrai-se ainda que a água imunda é imunda porque a companhia de saneamento não trata o esgoto. Abstrai-se a ausência de políticas de implantação de uma rede de parques na cidade ou ainda de um ordenamento territorial que minimize, por exemplo, as ilhas de calor da cidade que intensificam as chuvas. Abstrai-se a falta de projetos de recuperação urbanística dos rios e integração de seus usos múltiplos na cidade.

 

O crime como um problema natural

É disseminada a noção de que a criminalidade em São Paulo é um problema natural de uma grande cidade e que, para controla-lo, a única solução seria prender e aumentar efetivo policial. Sobre o crime em si quase nada se poderia fazer. Abstrai-se assim a ridícula qualidade da educação pública e a falta de capacitação das escolas. Abstraem-se os baixos salários de professores. Abstrai-se a quase total ausência de parques públicos e áreas de esporte. Abstrai-se a oferta reduzida de cursos profissionalizantes. Abstrai-se que a violência policial gera reações violentas e produz uma cidade em estado de sítio. Abstrai-se a corrupção carcerária e a falta de medidas eficazes de reintegração social de ex-presidiários. Abstrai-se a condição miserável dos presos no Brasil. Abstrai-se a total (total!) ausência de clínicas públicas de reabilitação de usuários de drogas. Abstrai-se enfim o impacto de políticas urbanas higienistas de valorização de terra que expulsa populações de áreas centrais e criam uma enorme tensão social.

 

Gabriel Kogan, 27/09/2012

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