A Construção do Território Americano – Uma Aula de Paulo Mendes da Rocha

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A disciplina ‘Projeto do Edifício e Dimensão Urbana’, ministrada pelos professores Alexandre Delijaicov, Angelo Bucci e Marcos Acayaba, no segundo semestre de 2006 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) tinha como proposta inicial a interligação bi-oceânica entre os portos de Santos e Antofagasta no Chile. Sugeria-se assim uma reflexão projetiva sobre a construção do território americano e de sua rede de cidades, além de uma aproximação arquitetônica sobre a infra-estrutura continental. Para seu encerramento, no dia 05/12/2006 na sala 807 do edifício da FAU-USP na Cidade Universitária, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, recém ganhador do Prêmio Pritzker, foi convidado para falar sobre a construção do território americano e analisar os projetos dos alunos. Paulo inicia o seu discurso com uma bonita homenagem a Faculdade onde ele foi professor e para colegas com quem trabalhou. O texto que segue é uma transcrição ainda inédita dessa aula:

“Antes de mais nada, eu agradeço imensamente a vocês porque é um privilégio poder vir falar nessa Faculdade. Para mim, é um momento bastante comovente

Esse prédio, onde nós estamos com grande privilégio instalados, já é um discurso sobre a idéia de um ‘vir a ser indispensável’, com uma visão de eternamente ‘vir a ser’, que é uma das virtudes fundamentais da arquitetura, que não faz para determinar, com sentindo determinista do funcionalismo, ou qualquer coisa assim, mas com sentido político de uma política que vise horizontes futuros. Essa é a essência da questão humana: formação da consciência e da linguagem sempre. A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo tem na sua origem, na sua fundação, uma vontade nítida e uma força gravada nas pedras dessa catedral que é esse edifício, que representa tudo isso. Portanto, esse edifício é um paradigma do que, essa disciplina, coordenada pelos meus colegas, soube, nesse momento, mais uma vez, iluminar. Estes horizontes do trabalho desenvolvido, estão na origem do que sempre se imaginou para esta escola.

É muito comum ouvir falar que uma das características do ensino da arquitetura paulista é a sua origem, enquanto escola de arquitetura, na Escola Politécnica. É preciso ressaltar, mais uma vez, que não é assim, como se ‘assim’ não fosse suficiente. A origem dessa escola é a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e a Escola Politécnica. Os paradigmas aqui dentro, na visão prática do mundo, as pessoas, são Flávio Motta e Vilanova Artigas, sem dúvida nenhuma.

O que esta escola sempre pretendeu foi exibir a sua consciência absoluta sobre esta questão: não se faz para ficar sendo definitivamente feito, mas se faz, preciso para não cair, com a idéia de amparar a imprevisibilidade da vida num horizonte desejado, não propriamente premeditado. É a visão dos desejos humanos.

Nós na América temos a condição de exibir como privilégio essa experiência porque o mundo era moderno quando Colombo desembarcou aqui. Os filósofos dizem isso, o mundo moderno se inaugura com as navegações, Galileu e o rompimento dos dogmas na área das religiões. Portanto o moderno é um ser sempre oportuno, não tem nada a ver com estilo. Há momentos de uma modernidade acentuada advindos, no caso do movimento moderno, da revolução soviética que abriu horizontes para a consciência social dos objetivos da arquitetura, satisfação dos desejos humanos, habitação etc. Mas são movimentos dentro da mesma coisa. Nós somos obrigados a ser, vindo a ser, sempre modernos, sempre oportunos.

Essa visão da América faz com que a arquitetura aqui (e isso não é uma novidade nossa) veja como construção, como uma arquitetura, como cidade, como a primeira questão, a reconfiguração do próprio território.

Para uma visão crítica dessa escola, particularmente enquanto filosofia e engenharia, a América, assim moderna já de inauguração, é uma configuração, lattus senso, do colonialismo. É muito oportuno comentar que comemorou-se no ano passado 300 anos da fundação de São Petrogrado, Stalingrado. As nossas cidades são da mesma época e são um desastre: São Salvador e Recife, por exemplo. Um desastre que é interessante considerar para a arquitetura, na perspectiva de evitar o desastre; trata-se de um desastre fabricado por cima da idéia de sucesso anterior.

Eu vou contar uma história que me impressionou. Ontem havia uma fotografia no jornal Folha de S. Paulo que a figura de um boi estava voando. Um boi voando. Acontece que em Recife existe uma festa popular chamada o Boi Voador e essa festa tem origem numa idéia de que, para efeito político de convencer a população para fazer uma ponte, inclusive extraordinária, movediça para passar as embarcações, Maurício de Nassau, que na ocasião ocupava aquele lugar, enfiou um mastro de um lado e outro do outro, com algumas carretilhas e fez um boi de verdade passar de um lado para o outro, pra dizer, o ‘Boi Voador’. Aquela ponte teria muito interesse inclusive em escoamento de gado e outras coisas do tipo. O Boi Voador é uma engenhosidade, um engodo para seduzir, e hoje é uma festa. Os nossos pobres pernambucanos não entenderam nada, acabaram com aquilo, e as últimas pontes que se fez não tem gabarito para navegação.

Nós estamos condenados, se não abrirmos os olhos, não a não saber fazer, pior que isso, a ver as coisas degenerarem. O nosso passado colonialista, de política colonial, perdura até hoje, daí a oportunidade da revisão crítica. A Espanha não sabe o que fazer com os Marroquinos, a França não sabe o que fazer com os Argelinos, a Holanda com Sumatra, Borneo. Quer dizer, o passado é muito recente do desastre; a África desmantelada inteira.

Nós, muito particularmente temos, uma visão gráfica da escritura desse horror: o tratado de Tordesilhas. É como se, um bando de famintos, tivesse que dividir um pernil e alguém pegasse um machado e dissesse: ‘isso é seu, isso é meu’, em outras palavras, a geografia foi para o brejo.

Eu imagino como desdobramento interessante para o trabalho e para essa visão que temos, a sua divulgação no âmbito da universidade, do estado e do país, para mostrar que a universidade é indispensável como lugar de reflexão, viva permanentemente no diálogo com a sociedade, políticas ou constituição de ministérios. A reflexão que estamos fazendo, antes de mais nada, é a de levantar essa escola.

Há uma defesa política que deveria interessar os senhores, que não é diretamente ligado, mas faz parte do objetivo do trabalho, que é a defesa da Universidade de São Paulo contra essa maligna questão da privatização e de tudo isso que acaba com a excelência. Esse dilema entre privado e público, os senhores devem compreender como sábios porque são estudantes dessa universidade.

Sobre isso, no nosso trabalho, devemos sempre ter em perspectiva que, aquilo que ampara a estrutura material da economia (ferrovias, portos, transposições de bacias, tudo que vocês abordaram), há de ser sempre público. A iniciativa privada pode vender Bombril, pipoca, fazer navios, explorar uma certa linha de navegação, mas nenhuma empresa tem fôlego, e nem é do processo, não prever tão cedo um lucro e poder investir em levantamento de satélites, territórios imensos, relações internacionais entre países.

A América tem que, antes de mais nada, no âmbito desse raciocínio, reconsiderar a divisão entre países que é totalmente artificial. Isso leva a questão humana a um nível mais agudo de excelência, à uma política delicada de dizer que aqui se gere à la boliviana, aqui à la peruana, mas somos um continente.

A visão objetiva, por exemplo, de um porto para a Bolívia no Pacífico, é uma idéia maravilhosa. Mostra a possibilidade de escolha de notas excelentes dessa sinfonia a partir desse discurso.  Divulgar isso na universidade, recompor, a excelência dessa escola no âmbito da universidade, obrigar-nos também a um diálogo permanente com a lingüística, com a geografia, com a história, com as ciências objetivas e as técnicas, metalurgia, mecânica, a engenharia de um modo geral; abre os horizontes de um modo inexoravelmente urgente no nosso meio que está numa rota, de um modo geral, de total degenerescência.

O espaço da geografia do planeta, como objeto de especulação, como você vender um pedaço de planeta, é uma tolice. A Europa inteira, está indignada e providenciando defender-se com leis, contra a idéia de explorar os litorais encantadores. Em jornal lê-se isso e também conversando com autoridades mais esclarecidas. Eu já ouvi conversas incríveis e irônicas com uma certa graça a esse respeito.

O jornal Financial Times publicou, para fazer propaganda, uma matéria dizendo a melhor segunda casa da Europa. Há, portanto, a imagem de uma segunda casa. Os ricaços do mundo compram uma casinha na praia encantadora de não-sei-o-quê. Os lugares mais lindos do mundo estraçalhados com essa especulação de vender lotes e fazer casinha. Todos os países estão se defendendo. Alguns países já promulgaram leis impedindo qualquer construção na costa e em 10 km pra dentro do continente. Esta balela está, inclusive de senso comum, sendo, no mundo, comentada e enfrentada como questão de defesa inexorável de uma visão clara do que representa, para a nossa sobrevivência, para o futuro da humanidade, a excelência na maneira de tocar o território para as instalações humanas.

O espaço é amplo de toda essa questão. Deve-se levar em conta sempre o interesse do estabelecimento da paz e das relações internacionais e fazer com que a arquitetura, de fato, se sustente, como deveria ser, no âmbito de uma forma peculiar de conhecimento. Vocês abordaram um tema, desenvolvido em vários tomos, que interessa, por exemplo,  ao Itamaraty, interessa a formação do próximo ministério de um país inteligente, digamos que fosse o nosso. Quem são os homens capazes de levar tudo isso adiante de modo consistente?

O trabalho tem esse fôlego. Ele não é para ser visto e obtido nota, é uma contribuição ao conhecimento universitário e sustenta essa idéia da arquitetura como uma forma peculiar de conhecimento, uma vez que, nenhum de nós pode ser especialista em economia, em lingüística, em geografia. Há de se imaginar uma abordagem histórica do gênero humano peculiar, de conhecimento enquanto arquiteto, desde o neolítico, desde que as duas primeiras pedras foram postas ali.

Por falar em pedras, é preciso não esquecer também que nem sempre as pedras são os maiores obstáculos. Com alguma máquina você tira daqui e põe ali. O maior obstáculo são idéias e dogmas bípedes, aquilo que vem no estafermo falante e se torna um trambolho político e atrapalha, ás vezes, países inteiros.

O tema da navegação, aflora muito nesses trabalhos que enfrentam a geografia num país como o nosso, que tem uma bacia hidrográfica extraordinária, para não falar no óbvio das costas. O interior é sempre o grande paradigma de ‘ocupar’, ‘descobrir’, ‘penetrar’; é a mesma história das bandeiras.

Você faz, com uma visão de arquiteto, aparecer virtudes que já estavam lá, sejam as da mecânica dos fluidos, da navegação, da flutuação. O projeto que imagina o canalzinho navegável, o túnel navegável, com uma abertura, a luz do sol, a céu aberto, lá pelas tantas, onde há uma cidade, é stupefacente, como dizem os italianos, é pra qualquer veneziano dizer ‘ah! valeu a pena todo o nosso trabalho histórico’, os canais etc.

O mundo inteiro está debruçado nessas idéias. O que será de Veneza senão na famosa laguna veneta, lá pra diante, qualquer coisa como a Tokyo do Kenzo Tange? Construir dentro das águas?

Portanto, a FAU existe; é necessário que exista para exibir com ações exemplares o que as nossas escolas precisam. Na arquitetura, de um modo geral, há uma proliferação de escolas sem paradigmas, sem horizontes. Pela Universidade de São Paulo, se fosse por mim, eu morreria por essa causa. Seria um desastre que isso fosse levado de roldão nessa loucura que está por aí de privatizar. O ensino em tese, para um homem digno, é impossível imaginar que seja pago. Ninguém pode pagar para aprender, ao contrário, nós faremos de tudo para ensinar os que vem vindo, é um paradigma da condição humana.

Não esqueçamos que a partir dessas águas, desses mares, dessa mecânica de topografia, geomorfologia planetária, já estamos pensando em aulas como essa sobre laboratórios na estratosfera. O Homem considera seriamente expandir a vida humana ao universo. Haja projetos então, ainda mais comoventes. Vocês não percam esse horizonte jamais: sem emoção o homem não consegue produzir nem uma matraca.

O que se pode dizer também, assim entre nós, é que o primeiro sentimento que surge é uma inveja de não estar mais aqui, seja como aluno, seja como professor. Mas eu tenho a impressão que o tempo de cada um leva a isso, há um momento para cada coisa. Eu estou passando por imprevistas aventuras na minha vida, muito interessantes também e, como se diz, vocês contaram agora, eu conto depois a minha.

Em todo caso, defendam a Universidade de São Paulo, defendam a estrutura dessa FAU para que o Brasil possa continuar tendo uma justa influência. Por que não? Não no sentido de assumir posições de mando, mas sim de assumir responsabilidades na América Latina e particularmente no Brasil, que é muito vasto e haja escolas de arquitetura por ai desamparadas. Que a FAU continue um paradigma. É o que eu quero, não é o que eu espero. Sobre isso, podem contar comigo, se eu puder alguma coisa.

Com certeza, com tudo isso, pode-se se incentivar intercâmbios. As universidades, de um modo geral, sempre tiveram um intercâmbio muito grande com o mundo inteiro. A questão é que discurso fazer. Em qualquer nível de conhecimento hoje, não há laboratório, não há pesquisa específica, que não esteja ligada com  3 ou, 4 outras pontas do mundo. Sem o quê não se faz nada. É preciso justamente arrumar o discurso oportuno, afinar o discurso para não perder a oportunidade do que já há. A pior coisa que o Homem pode imaginar que possa lhe acontecer é ter perdido uma oportunidade. Aquilo que você podia ter feito e não fez naquele tempo, pode-se recuperar sempre, mas a graça é você responder na hora que a coisa está ali, do evento.

A nossa vida é um evento inclusive, do ponto de vista da vida individual, muito curto. Nós temos que contar mesmo com a continuidade. É como se diz: Não estamos aqui para morrer mas estamos para continuar. Portanto são os outros que vão fazer e tem-se que dizer logo, não para que os outros entrem na seringa do seu saber, mas que aquilo seja estimulante para um saber que se saberá. Isso tudo é um problema de assumir a responsabilidade, que é original dessa escola, que ela assumiu originalmente.

Por outro lado, se nós tivermos convencidos que estamos elaborando uma grande novidade, pode ficar certo que é um erro de saída. Esse horizonte de transformação e esse saber específico da arquitetura, do urbanismo e da engenharia, já mora entre nós, como a história do boi voador. Nós temos jogado-o fora.

Mais uma vez todas as frentes de mar foram feitas assim. A famosa história do aeroporto Santos-Dumont. A história do porto de São Sebastião, sonhado há tanto tempo e que nunca foi feito: um recinto natural com 3 km de bacia de navegação com calado natural de 30 ou 40 metros, bacia de revolução protegidos por uma ilha extraordinária e pelo continente. Não existe no mundo nada tão predisposto. Não é justo então que lá seja uma pequena cidade histórica mambembe, caindo aos pedaços, para turista. O encanto da Ilha Bela não tem nada que ver com turista e, se tivesse, era na base de um túnel, como aqueles do Rio de Janeiro que furam as rochas, e eis que se revelam várias Copacabanas a mar aberto do outro lado. O lado de cá é estaleiro, oficinas, porque é um porto. Não existe porto de um lado só num canal de 3 km. Isso é uma tolice que nós sabemos, como quem diz, em uma linguagem nossa, ‘é arrumar a casa, com as coisas que já estão ali’. A graça é, dizer antes que se faça, porque a cidade existe. Senão, vai se fazer, provavelmente, bobagem.

Tudo isso é um saber peculiar da nossa escola que deve emanar para a universidade para alimentá-la. Isso é também uma idéia muito interessante: a faculdade de arquitetura, sendo assim multidisciplinar, não está na universidade para usufruir do saber dos outros; ela é o estímulo, por excelência, de todas as outras áreas do conhecimento. Aquela que sonha a cidade como uma possibilidade dessa consciência, que nunca acerta, mas continua num caminho que parece o mais justo. Tudo isso é de uma beleza incomensurável num país como o nosso, num continente como o nosso.

Se não for hoje será amanhã, o mundo deverá ver a América com olhos muito indagativos porque nós temos uma experiência muito peculiar dos tempos do Homem moderno. Eu não vejo, no andamento que está ai, muita esperança para a Europa. Ou melhor, devemos ver com toda esperança, mas a Europa, no momento, para mim, é um desastre. O modo que tropeça, que vai e que não vai. Ela não consegue enfrentar a questão, por exemplo, do passado colonial de um modo que não necessite de uma Olimpíada para transformar uma cidade. Nós não podemos viver de carnaval em cima de carnaval. Não podemos porque é desinteressante ao extremo para pessoas como vocês que vêem outras maravilhas para aparecer que não são simplesmente quinquilharias.

A idéia de modelo, que sempre aparou o Homem, um por exemplo estimulante, é a chave fundamental do estímulo para uma personalidade de arquiteto. Não se pode fazer algo para que se veja a toa. Deve-se resolver problemas de um modo nunca visto antes e então, ao invés de tratar simplesmente da necessidade, passe a revelar, com aquilo feito, como coisa material, construída, os mais sublimes, acrisolados, desejos do Homem, no plano mesmo do indizível. No plano do erotismo da vida. Esta é a questão fundamental da arquitetura.

Nesse sentido, não adianta saber fazer um hospital. Tola a escola que diz ‘eu tenho meu hospital, vamos fazer uma sala de cirurgia’. O tema é um hospital em Veneza. Eis o hospital do Le Corbusier. Lá é difícil, peculiar, e, no entanto, hospital. O tema não é um museu, é um museu em Caracas, naquele penhasco que Niemeyer faz uma pirâmide invertida, como quem recupera toda história, como quem diz para aqueles do Faraó, ‘se vocês pudessem ver, olha, e agora?’. Essa solidariedade humana no plano do encanto, da literatura, do dito, de uma maneira nunca dita antes (mas aquilo que é necessário dizer), é essa a questão fundamental da nossa vida, uma vez que destinamos ela a ser arquiteto.

A idéia também não é fazer uma escola que tenha que ser imitada inexoravelmente, é só um exemplo estimulante. O sadio, é imaginar que lá na Venezuela, lá no Peru, outro vai responder com qualquer coisa ainda que nós nem tínhamos pensado e diz-se ‘ai que maravilha!’. Não é que nós sabemos melhor, nós estamos levantando as justas questões, ou as questões num justo universo da dignidade humana. É esse o valor do exercício.

Depois do golpe militar, ou seja, depois de 64, quando o Artigas teve que abandonar todo mundo porque era um homem do partido comunista; no quinto ano da FAU ainda na rua Maranhão, foi dado como tema do TGI (Trabalho de Graduação Inicial), o porto de São Sebastião e, no outro ano, a barragem de Urubupungá.

Eu não me esqueço que o atual presidente do IAB, Arnaldo Martino, fez uma barragem maravilhosa. A eclusa para os navios que ele fez, os engenheiros não fazem usualmente. Ele fez a montante, naufragada na laguna. Você não vê, mas tem um balizamento, o navio entra ali, abre-se a comporta, o navio desaparece, afunda e sai lá em baixo. No outro ano, para toda a área de São Sebastião e, principalmente, para aquela cidade, pensou-se um grande porto e não um bibelô de fim de semana. A graça é que aquela igrejinha fique no meio daquilo tudo e, ai sim, com uma monumentalidade imprevista, pudesse dizer-se ‘milagre pela primeira vez a igreja fez’: oitenta toneladas passando penduradas num guindaste e entrando num navio que vai para a Antuérpia. Esse era um projeto do Jorge Caron, eu me lembro. Eram trabalhos excepcionalmente belos, assim como estes.

Na prática, para não pensarmos que estamos sonhando, as coisas são assim. Soube, e eu fiquei muito impressionado, que em Piracicaba, em poucos meses, vai ficar pronto a recomposição do ramal ferroviário, ligando a cidade diretamente com o porto de Santos. Toda a agro-produção daquela região estava apodrecendo no mato. É uma questão seríssima do ponto de vista político. Há de se fazer ver o desastre que está sendo produzido metodicamente. Não existe fenômeno. Vocês deveriam, na minha opinião, vaiar restos de anacronismos, como professor que fala em fenômeno urbano. No âmbito da política da cidade, não há fenômeno. É tudo feito premeditadamente com certas políticas. São desastres provocados por erros. Sem moral, erro e acerto. Como um cálculo de uma estrutura que caiu: erraram a quantificação do momento fletor, de forma muito objetiva. É política. Uma escola de arquitetura, se é viva, ela queira ou não, é política.

As escolas deveriam ter duas notas, numa visão de brincadeira, uma nota de cada aluno porque tem que passar de ano e depois uma nota para o quinto ano da FAU dado pela escola inteira. A escola é assim. E com isso pode-se recompor esse edifício que é uma das coisas, objetivamente, do cotidiano, da vida doméstica. É ruim para esta escola não ser compreendida por nós ela mesma. Aqui deve desaparecer, até o último vestígio, os pequenos galpões e soluções tolas de idiossincrasias individuais de quem diz ‘eu preciso disso, uma divisória’. Vamos fazer com que o Artigas perdesse o fôlego se entrasse aqui hoje e pudesse dizer ‘ai! que maravilha! É outra escola mas não tocaram em nada’. Essa é a maravilha de executar mais uma vez a mesma sinfonia. São coisas assim que enchem a alma, permitem viver bem, enquanto dormimos inclusive.

Vamos recompor também pacientemente o desastre que parecia inexorável, e que de fato durou muito, de fundar uma cidade universitária. Isso foi uma burrada da inteligência paulista. A universidade estava dentro da cidade. Todo mundo sabia onde era a escola politécnica. Até hoje a Escola de Medicina e a Faculdade de Direito estão lá. A nossa FAU era na Rua Maranhão. É esse imobilismo dos interesses imobiliários que provoca isso. Se o prédio de trás da Maranhão fosse desapropriado, ou antes que o construíssem, aquilo tudo podia ser a FAU, e assim também a Politécnica e etc. Independente de um Betatron, qualquer coisa do tipo, que deve estar onde está, afastado.

A vida do estudante, a vida na universidade, não prescinde do âmbito da cidade, não prescinde da conversa no bar, onde estão os jornalistas, artistas, mambembes, degenerados, filósofos. Estudante não é para comer em lanchonete. Isso é uma diminuição programada. Tanto programada que essa sociedade infame chamou de cidade. São tão tolos que ainda disseram que era cidade. No meio do mato, para estudante brincar de skate nas rampas e bermuda. A universidade é essencialmente urbana. A maioria das cidades históricas do mundo foram fundadas em torno de uma universidade. Todos sabem disso.

Agora o metrô chegou aqui. Vamos abrir esse espaço para a cidade de um modo efetivo, material: pontes, ligações, trens. Como uma escola pode ser pública, grátis, se você precisa de um automóvel para vir a escola? É uma visão maligna e elitista, para manter privilégios, às vezes sem essa consciência. Não quer dizer que se reúnem premeditadamente. Isso vem de uma inconsciência daqueles que pensam e pensam mau. Nós temos que replicar e evitar a figura, que está até na literatura, do conformista. Nada está bom. Podia ser melhor. E algumas coisas estão horríveis, porque não tinham que ser assim.

Outro erro, por exemplo, foi dizer ‘Então, onde será essa cidade, essa universidade? Ela vai daqui até a beira do rio’, como se fosse antes do teodolito. Se já tivessem começado-a uma parte de um lado e outra parte do outro lado do rio, com várias pontes, com o trem servindo, já poderia ter sido mais fácil intrigar-se com essa cidade. Agora é mais difícil mas ainda é possível porque tudo está chegando aqui por perto.

Há uma carga imensa que nós gostaríamos de assumir sempre enquanto indivíduos na construção da nossa vida que é justamente a formação dessa consciência e esse trabalho de dizer as coisas já desde o começo. Isso cabe principalmente aos jovens.

Jovem não foi feito para se divertir. A melhor idade para o combate, para a luta, é dos 16 aos 25, aos 30. Os senhores não são jovens, são homens e mulheres; isso precisa saber também considerar. É uma questão da nossa época que infantilizou tudo, inclusive o ensino primário, que essa universidade podia pensar um pouco em influir. Não se pode começar a ensinar hoje um menino o mesmo bê-á-bá. Você tem que começar ensinando já mecânica quântica porque a matemática foi feita para tornar isso claro. Não foi feita para fazer dificuldades, para ver quem acerta, quem erra, com X em quadradinho. O Homem contemporâneo tem que ser contemporâneo desde pequeno. Portanto a nossa responsabilidade é muito grande. Eu estou dizendo isso para dizer ‘não temam’, é duríssimo: a pior parte da vossa vida é essa, jovem. A mais fácil é a minha. Vocês já imaginaram como a minha vida é fácil atualmente? Imagino que vocês vão ver que é. Pode não ser que no plano das angústias, das responsabilidades, das fraquezas, da timidez, sabe-se lá. Quem de vocês pode saber o quanto eu me sinto a vontade? Qualquer um de nós, depois que chegou na maturidade, recebe encargos, mas isso é fácil. É duro agora, felizmente. É por isso que vocês são sadios. A juventude foi feita para isso, para carregar pedras. Escravo você não compra velho, examina-se os dentes e vê-se se é forte. Deve ser jovem e forte. Eu quero dizer que todos nós esperamos tudo de vocês. Ninguém está aqui para servir lanchinho e agradar alguém só porque é jovem, ao contrário, nós contamos com vocês. É melhor dizer isso, porque escondido é sacanagem, com o perdão da expressão. Ninguém pode contar com os velhos filósofos, com os velhos engenheiros, com os velhos arquitetos. Pode-se dar uma olhada neles, mas só se conta com vocês.

Todas essas questões levantadas pelo trabalho são a história dessa escola: enfrentar a arquitetura com esses horizontes. A vida cada um vai saber como resolver a sua. Faz-se o que aparecer para fazer. Isso é uma outra questão, ou melhor, faz parte da mesma questão; faz parte da angústia, faz parte do sofrimento, da contrariedade, do luto da existência de um Homem que pensa, que não vê nunca plenamente satisfeito seus desejos e horizontes.”

A edição e transcrição desse texto não foi uma empreitada simples. Mesmo assim, durante 6 anos ele permaneceu inédito, aguardando algum tipo de publicação, que é feita agora no Cosmopista. Ficam aqui os sinceros agradecimentos ao professor Angelo Bucci e a Thaísa Burani que ajudaram muito nesse processo.

Post enviado por Gabriel Kogan
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2 Responses to “A Construção do Território Americano – Uma Aula de Paulo Mendes da Rocha”

  1. Não consigo conceber a dificuldade que foi ter esse texto. Poderia fazer um link dele no meu blog?

  2. 2 gabriel kogan

    Legal. Pode colocar um link para ele sim!


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