Saul Steinberg no Brasil por Flávio Motta, 1952

27ago13
steinberg e lina
Steinberg e Lina Bo Bardi

Saul Steinberg no Brasil

Steinberg veio pessoalmente ao Brasil para inaugurar sua exposição no Museu de Arte. Havia uma certa curiosidade em conhecer o homem dos desenhos já conhecidos. Entretanto, há quem julgue dispensável a presença do artista desde que a arte se apresente. É o próprio Steinberg que foge às entrevistas alegando ser “um fósforo”. “Naturalmente – diz ele – a minha figura não interessa. Pode levar diante da câmara um fósforo que é a mesma coisa”. Mas Steinberg não tem razão . A sua figura, a sua pessoa interessa. Ele é parecido com os próprios desenhos. Os seus óculos de lentes grossas, escondem-lhe os olhos e ele se converte naqueles seus personagens de olhos vazios, que não tem nada. Caminha com a mão no bolso da calça e os ombros levantados, metido no meio da sala de exposição, a espreitar o público ele se converte num pássaro. A gente vai pensando assim, naturalmente contaminado pela maneira de pensar do próprio Steinberg. Foi ele que nos ensinou a transformar homens em animais, porque foi ele que fez dos garçons da praça São Marco de Veneza, passarinhos e dos pombos, seres humanos. Steinberg fala pouco. Aprender muita coisa na Itália, inclusive aquilo que não usou, como a arquitetura. Mas não aprendeu a falar ou a gesticular. Apenas a sua mão direita, como se tivesse entre os dedos um lápis, é que realiza as únicas tentativas de gestos. Digamos tentativa, porque quando passa a gesticular é porque tem um lápis na mão. Então desenha. O gesto corre, solto, surpreendente. A gente fica sem saber para onde conduzirá a linha. E ficamos a rir da surpresa dos seus gestos, dos absurdos que contém. Ai convertemos em criança brincando de pega-pega. Steinberg se diverte e vai assim, a gesto solto, sem acabar mais, mantendo em constante alegria, nós e o mundo. Consagramos nesse momento aquilo que chamaremos a “hegemonia da ociosidade”. Que delícia a liberdade dessas linhas, as invenções desse homem, a irresponsabilidade, – higiênica irresponsabilidade, – dos seus personagens que não levam a sério os heróis, as heroínas e os salvadores da nossa civilização. Tudo e todos são iguais. Tudo e todos tornam-se infantis. Podia ser, até, o mundo de Steinberg, uma espécie de democracia, gerada em Milão e frutificada em New York. Gerada em Milão, porque ali ele estudou. Porque viveu os conflitos entre a industrialização e as grandes tradições da antiguidade. Aprendeu apreciar os resíduos de um mundo eminentemente artesanal, com um sentimento que é um sentimento novo e que se chama sentimento crítico ou satírico. É um sentimento milanês, com um pouco daquela atmosfera das páginas retrospectivas, dedicada ao “fin de siécle” que estão se tornando sistemáticas nas revistas tipo “Oggi”, “L’Europeo”, “Candido”. Assim, tentam destruir os últimos resíduos da graça “fin de siécle” ou da epopeia dennunziana. Arrasado o mal-gosto, substituído pelo pavor do decorativo, do pessoal, do temperamental, do romântico, o homem, no caso um milanês, termina seus dias aderindo, francamente, ao técnico, ao impessoal, ao “racional”, ao industrial, ao anti-romântico. Chega então em New York: produção em massa, ação pela ação, dinamismo, higiene, linguagem internacional, senso prático, objetividade; vitória do anti-sentimental; vitória do anti-romântico; vitória contra os grandes resíduos da cultural ocidental; vitória do espírito milanês. Por isso que Milão, dizem muito bem os napolitanos, não é a Itália. É o São Paulo da Itália. E São Paulo, não é Brasil. É na verdade, o Milão do Brasil. Somos, no fundo, todos irmãos. E lutamos, segundo esse espírito, por aquilo que até poderíamos chamar de democracia. Steinberg é feliz nesse mundo das linhas soltas. Trabalha sem encomenda. Vive livre, livre como um pássaro, porque encontrou o seu mundo. Nós, naturalmente, nos identificamos com esse sentimento de liberdade e passamos momentos de felicidade. Mas, depois voltamos para o nosso mundo.”

Flavio Motta, 1952, Revista Habitat, N. 9.

Post de Gabriel Kogan, 27/08/2013

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