A crise prevista

04fev15

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O colapso no abastecimento foi anunciado por todos os relatórios públicos desde 2004. E querem saber? Isso nem dependia de chuvas abaixo da média, bastava índices pluviométricos normais para que o sistema entrasse em colapso. A crise hídrica já estava desenhada.

Segundo informações de 2009 divulgadas pela Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Governo do Estado no relatório de Situação dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo – Ano Base 2009 (http://goo.gl/TcaaMZ, 2011, p. 65), a demanda total na Bacia do Alto Tietê (que equivale a Região Metropolitana de São Paulo) era de 64,02m3/seg. Já a disponibilidade era de 31m3/seg (*). Havia, portanto, em 2009 um déficit de 33,02m3/seg. De onde poderia vir essa água? Do tal Sistema Cantareira, abastecido por outra bacia hidrográfica, a Bacia Piracicaba-Capivari-Judiaí (PCJ). Adicionados os 33m3/seg outorgados para o Sistema Cantareira (**), chegamos em 64m3/seg. O Plano Estadual de Recursos Hídricos (http://goo.gl/OUfNvw, p. 94, 2007), aponta outras transposições vindas de rios com vertentes oceânicas, somando mais 1,3m3/seg. (***)

Em 2009, tínhamos um cenário limite do sistema: demanda de 64,02m3/seg e disponibilidade em 65,3m3/seg. A conclusão do relatório da Secretaria (2011, 68) é, então, assustadora: “O balanço entre demanda e disponibilidade indica que a situação permanece crítica”. Mas, a partir daí, a condição do abastecimento da Metrópole de SP piora e começa a entrar em total colapso. O Relatório de Situação dos Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/j0HuA9, 2013, p. 44) mostra um crescimento linear da demanda por causa do crescimento econômico e populacional. De 2009 a 2011 a demanda passa dos nossos 64m3/seg para 66,1m3/seg, chegando, em Janeiro de 2014, segundo informações da própria Sabesp (http://goo.gl/cgKvfV), a 71m3/seg.

Porém, a disponibilidade hídrica não conseguia aumentar na mesma proporção. O último plano elaborado para a Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/I4tmOR, 2009) reavalia a disponibilidade hídrica, através de modelos computacionais, para 68,1 m3/seg e não mais 65,3 m3/seg. Reparem que os relatórios posteriores (2011, 2013) são reticentes em adotar esse novo número e preferem informações mais conservadoras para os cálculos.

Sem muito alarde, o Relatório de Situação dos Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/j0HuA9, 2013, p. 73) nota a discrepância de disponibilidade entre os relatórios públicos e, pior, mostra valores inflados pela Sabesp em seus documentos. A disponibilidade hídrica trabalhada pela Sabesp (73,7 m3/seg) não encontra respaldo nos outros relatórios públicos. Com os dados de disponibilidade mais altos, a Sabesp justificaria sua produção e a ausência de investimentos – que se converteriam em lucros maiores.

Mas, e agora? De onde veio essa água desde 2010 ou 2011, quando a vazão disponível é ultrapassada pela demanda? Dos reservatórios que agora chegam em 2015 praticamente secos. Em Janeiro de 2014, havia um déficit (em cenário normal de chuva) de pelo menos 2,9m3/seg, o que dá mais de 250 milhões de litros por dia. Esse déficit consumiu as reservas.

Já estava tudo nos relatórios… A gente que não viu (e quem viu preferiu fechar os olhos): o desabastecimento estava mais que anunciado.

(*) Utiliza-se aqui o índice chamado Q95% que aponta o comportamentos a longo prazo do sistema: “Representa a vazão disponível em 95% do tempo na bacia” e em “5% do ano (…) vazão inferior a este valor”. Este é um dado de cada bacia, baseado na disponibilidade hídrica em relação a bases estatísticas locais. Ele pode ser modificado tanto a partir de reavaliações mais precisas, como por meio da ação humana, sobretudo com novas transposições ou, por exemplo, com o aumento da eficiência no transporte de água. Outro índice, Qmédio, incorpora os reservatórios de água (represas) constituídos ao longo do tempo e passa a ser pouco significativo se a demanda de água ultrapassar a vazão disponível em Q95% (incluindo transposições existentes).

(**) Já como o valor estabelecido pelas resoluções não é fixo, por vezes esse valor de doação do Sistema Cantareira aparece em documentos oficiais como 31m3/seg e por vezes como 33m3/seg. Já o Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (2009) fixa esse valor em 29,9 m3/seg, como sendo um patamar seguro. O uso excessivo do Cantareira já é alvo de um processo do MP.

(***) Reparem também que a demanda global apontada nesse mesmo Plano Estadual de Recursos Hídricos (2007) é de 90,23m3/seg que não bate com o valor estipulado pelo relatório da Secretaria depois no relatório (2011). Em 2004, os documentos oficiais (http://goo.gl/3boMWB, 2004, p.17) apontavam um déficit ainda maior: de 400%.

Gabriel Kogan, 04/02/2015

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