cantareira_pumping

O colapso no abastecimento foi anunciado por todos os relatórios públicos desde 2004. E querem saber? Isso nem dependia de chuvas abaixo da média, bastava índices pluviométricos normais para que o sistema entrasse em colapso. A crise hídrica já estava desenhada.

Segundo informações de 2009 divulgadas pela Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Governo do Estado no relatório de Situação dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo – Ano Base 2009 (http://goo.gl/TcaaMZ, 2011, p. 65), a demanda total na Bacia do Alto Tietê (que equivale a Região Metropolitana de São Paulo) era de 64,02m3/seg. Já a disponibilidade era de 31m3/seg (*). Havia, portanto, em 2009 um déficit de 33,02m3/seg. De onde poderia vir essa água? Do tal Sistema Cantareira, abastecido por outra bacia hidrográfica, a Bacia Piracicaba-Capivari-Judiaí (PCJ). Adicionados os 33m3/seg outorgados para o Sistema Cantareira (**), chegamos em 64m3/seg. O Plano Estadual de Recursos Hídricos (http://goo.gl/OUfNvw, p. 94, 2007), aponta outras transposições vindas de rios com vertentes oceânicas, somando mais 1,3m3/seg. (***)

Em 2009, tínhamos um cenário limite do sistema: demanda de 64,02m3/seg e disponibilidade em 65,3m3/seg. A conclusão do relatório da Secretaria (2011, 68) é, então, assustadora: “O balanço entre demanda e disponibilidade indica que a situação permanece crítica”. Mas, a partir daí, a condição do abastecimento da Metrópole de SP piora e começa a entrar em total colapso. O Relatório de Situação dos Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/j0HuA9, 2013, p. 44) mostra um crescimento linear da demanda por causa do crescimento econômico e populacional. De 2009 a 2011 a demanda passa dos nossos 64m3/seg para 66,1m3/seg, chegando, em Janeiro de 2014, segundo informações da própria Sabesp (http://goo.gl/cgKvfV), a 71m3/seg.

Porém, a disponibilidade hídrica não conseguia aumentar na mesma proporção. O último plano elaborado para a Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/I4tmOR, 2009) reavalia a disponibilidade hídrica, através de modelos computacionais, para 68,1 m3/seg e não mais 65,3 m3/seg. Reparem que os relatórios posteriores (2011, 2013) são reticentes em adotar esse novo número e preferem informações mais conservadoras para os cálculos.

Sem muito alarde, o Relatório de Situação dos Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (http://goo.gl/j0HuA9, 2013, p. 73) nota a discrepância de disponibilidade entre os relatórios públicos e, pior, mostra valores inflados pela Sabesp em seus documentos. A disponibilidade hídrica trabalhada pela Sabesp (73,7 m3/seg) não encontra respaldo nos outros relatórios públicos. Com os dados de disponibilidade mais altos, a Sabesp justificaria sua produção e a ausência de investimentos – que se converteriam em lucros maiores.

Mas, e agora? De onde veio essa água desde 2010 ou 2011, quando a vazão disponível é ultrapassada pela demanda? Dos reservatórios que agora chegam em 2015 praticamente secos. Em Janeiro de 2014, havia um déficit (em cenário normal de chuva) de pelo menos 2,9m3/seg, o que dá mais de 250 milhões de litros por dia. Esse déficit consumiu as reservas.

Já estava tudo nos relatórios… A gente que não viu (e quem viu preferiu fechar os olhos): o desabastecimento estava mais que anunciado.

(*) Utiliza-se aqui o índice chamado Q95% que aponta o comportamentos a longo prazo do sistema: “Representa a vazão disponível em 95% do tempo na bacia” e em “5% do ano (…) vazão inferior a este valor”. Este é um dado de cada bacia, baseado na disponibilidade hídrica em relação a bases estatísticas locais. Ele pode ser modificado tanto a partir de reavaliações mais precisas, como por meio da ação humana, sobretudo com novas transposições ou, por exemplo, com o aumento da eficiência no transporte de água. Outro índice, Qmédio, incorpora os reservatórios de água (represas) constituídos ao longo do tempo e passa a ser pouco significativo se a demanda de água ultrapassar a vazão disponível em Q95% (incluindo transposições existentes).

(**) Já como o valor estabelecido pelas resoluções não é fixo, por vezes esse valor de doação do Sistema Cantareira aparece em documentos oficiais como 31m3/seg e por vezes como 33m3/seg. Já o Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (2009) fixa esse valor em 29,9 m3/seg, como sendo um patamar seguro. O uso excessivo do Cantareira já é alvo de um processo do MP.

(***) Reparem também que a demanda global apontada nesse mesmo Plano Estadual de Recursos Hídricos (2007) é de 90,23m3/seg que não bate com o valor estipulado pelo relatório da Secretaria depois no relatório (2011). Em 2004, os documentos oficiais (http://goo.gl/3boMWB, 2004, p.17) apontavam um déficit ainda maior: de 400%.

Gabriel Kogan, 04/02/2015

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Boataria

04fev15

Êxodo urbano por causa da crise hídrica? Tanto o custo de deslocamento das pessoas, quanto o valor necessário para arrumar o problema emergencialmente parecem que não justificariam um êxodo urbano. É mais provável que as pessoas consigam viver com muito pouca água e em meio a uma séria crise econômica por causa disso por mais 1 ou 2 anos.

Os reservatórios estão cheios? Os vídeos que mostram represas cheias são bastante sensacionalistas e leigos. Certos reservatórios precisam ser mantidos cheios para operação do sistema, sendo os 5% atuais uma média do todo. Eu já publiquei sobre isso (http://goo.gl/W2mZUT) e a Sabesp esclareceu também esse assunto (http://goo.gl/aVpSup).

O consumo doméstico é de apenas 5%? Considero que esse gráfico não foi bem elaborado (http://goo.gl/G3DS6l). A princípio, foi usada aqui uma média internacional e aplicada as perdas da Sabesp. Isso não faz sentido porque a empresa não fornece água em escala para agricultura urbana por aqui. Nesse gráfico faltam os dados também sobre o consumo de grandes consumidores não-industriais (muito significativos). De qualquer forma, dados confiáveis não estão disponíveis por causa da baixa transparência da Sabesp. É de se esperar que o consumo doméstico seja relativamente baixo frente ao todo, mas provavelmente não apenas 5%.

A água vai acabar? A água não acaba, o que acaba é a reserva de água nas represas, trazendo assim desabastecimento para os consumidores. No entanto, é preciso destacar que, mesmo em período de estiagem, existe captação de água; as fontes que abastecem as represas são perenes. Portanto, há sempre um fluxo mínimo.


crise1

Enquanto nos aproximamos do colapso total no abastecimento em São Paulo, políticos tentam desesperadamente culpar a natureza: “é por causa da falta de chuva”. Nada disso. O problema é político mesmo.

Secas são periódicas e perfeitamente previsíveis a partir de estatísticas das bases de dados históricas. Um sistema robusto (e decente) de abastecimento deve ser concebido para aguentar anos seguidos de chuvas abaixo da média. Pesquisadores sobre clima como o professor Antonio Carlos Zuffo, da Unicamp, apresentam dados convincentes da sazonalidade de secas como essa a cada 35 a 50 anos – e isso não tem nada a ver com aquecimento global. Planejar sistemas para eventos que aconteçam nesses intervalos é mais do que plausível, é obrigatório em uma metrópole como a nossa.

A Sabesp foi parcialmente privatizada nas últimas décadas. Hoje, mais de 49% do capital está nas mãos de poucos, inclusive na Bolsa de Nova York. O governo do Estado tem feito políticas que atendem aos interesses desses acionistas e não da população. Assim, os lucros sugaram a capacidade de novos investimentos. Só em 2013 foram R$ 1,6 bilhão que saíram dos consumidores para remunerar os donos da água da cidade.

Mesmo nos países mais capitalistas do mundo, como a Holanda, as empresas de abastecimento são públicas. Por quê? A água é estratégica demais para ser objeto de especulação financeira. A incompetência e ganância na gestão hídrica nos últimos 20 anos no Estado de São Paulo tem agora dramáticas consequências para a economia da metrópole. Sem água, a economia capenga.

São Paulo negligencia sistematicamente o gerenciamento hídrico. Já estava instalada, muito antes e sem alardes, por exemplo, a crise do saneamento. Os rios são poluídos por uma razão simples: o esgoto não é recolhido e tratado, como inclusive exigiria a legislação. O Estado ignorou a lei e não classificou o rio Tietê. Supérfluo ou caro demais?

Lugares como Singapura fecharam o sistema de esgoto e abastecimento. Assim, toda a água consumida é recolhida pela rede pública, tratada com alta tecnologia e devolvida para a torneira. Saneamento e abastecimento são, portanto, dois lados da mesma moeda.

Já o governo federal fingiu que o colapso da maior cidade do país não era um problema relevante. A ANA (Agência Nacional de Águas), fazendo vistas grossas, se uniu a incompetência e descaso do governador. Nada foi feito, nem mesmo mudanças institucionais para pressionar outras instâncias.

Há exatamente um ano, eu publicava na seção Tendências e Debates, da Folha, um texto chamando a atenção para a seriedade da crise. Um ano! Eu fico imaginando quanto tempo o governador e os diretores da Sabesp tiveram para saber da possibilidade concreta do desastre. Muito mais do que eu, com certeza.

Em um ano, seriam possíveis investimentos que, se não revertessem, amenizassem muito o desabastecimento: cavar poços públicos e até construir (em regime de urgência) estações de tratamento para usar a água dos braços poluídos das represas. Em um ano, as gigantescas perdas do sistema podiam ter sido reduzidas com investimentos massivos.

Nada foi feito. As eleições estavam aí. O mais conveniente era não chamar a atenção para o problema. A mídia colaborou, se calando convenientemente até o dia seguinte do primeiro turno. Todos foram reeleitos; isso que importava.

O impacto econômico da crise hídrica para a cidade provavelmente superará o capital que teria sido necessário para fazer sistemas de abastecimento e saneamento de alta tecnologia e robustos, para despoluir e reurbanizar todos os rios, para devolver às águas à cidade – não mais como problemas urbanos, mas como virtudes, organizando lugares de encontros, espaços públicos.

Agora, as convulsões sociais, talvez tardias, são inevitáveis. E nelas não faltarão policiais armados, balas de borracha, spray de pimenta e, certamente, os novíssimos canhões d”água para combater esses “vândalos” – desta vez, também sedentos. Afinal, a ordem precisa imperar frente ao caos, não é mesmo?

Gabriel Kogan, publicado originalmente em http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2015/02/01/colapso-do-abastecimento-de-agua-nao-e-culpa-da-natureza.htm


obras

Precisamos ver as crises como oportunidades: a crise hídrica é uma chance para transformamos a essência dos nossos rios urbanos e dos padrões dos serviços públicos relacionados; para projetarmos rios como espaços públicos banhados por águas limpas.

Estou falando da oportunidade de criarmos políticas públicas sérias para águas urbanas; para colocarmos o planejamento a longo prazo das cidades na frente dos lucros imediatos de meia dúzia de empresa; de redesenharmos todos os córregos e rios com novos parques lineares; de construirmos canais laterais para drenar separadamente águas de esgoto e de chuva; de coletarmos todo o esgoto e tratarmos com estações nas fozes de cada rio e córrego; de criarmos patamares tão elevados de tratamento de esgoto que possamos reutilizar na rede de abastecimento; de desativarmos as avenidas marginais de todos os rios e córregos para alargamos os leitos e criarmos projetos paisagísticos para os terreno adjacentes; de termos portanto um transporte público descente; de desapropriarmos área de planícies aluviais.

Tudo isso é muito caro? Sim, mas caro será o prejuízo causado pela crise econômica na cidade em função do desabastecimento. Se começarmos no Brasil a internalizar todos os custos nas análises de políticas públicas, veremos que é muito mais barato fazer de outra forma. Caro é ter pessoas com os pés em córregos poluídos todos os dias; é caro para a vida delas, mas é caro também – para aqueles que só veem números – para os investimentos necessários depois em saúde pública. Caro é não fazer: o prejuízo econômico da crise hídrica, nada mais é que o capital que não foi investido no passado em um sistema fluvial, agora elevado a enésima potência.

Precisamos, antes de tudo, desconstruir a ideia de que não há projetos e que tudo isso é utópico. Para ficar em um mesmo exemplo, vejam os projetos orientados por Alexandre Delijaicov na FAUUSP (http://lattes.cnpq.br/6680777049179678); quase todos feitos em São Paulo e perfeitamente exequíveis para os rios da cidade. Ou mesmo o projeto do Hidroanel Metropolitano, coordenado pelo mesmo professor (http://www.metropolefluvial.fau.usp.br/).

Parafraseando Slavoj Zizek: para os políticos no poder, agora desesperados, a situação “é catastrófica, mas não grave”, porque poderá ser empurrada com a barriga com ações emergenciais e ao custo de fortes restrições à população; para aqueles que pensam que existe algo além a ser feito, a situação “é grave, mas não catastrófica” porque, com a coragem de enfrentarmos o problema, a possibilidade de fazermos diferente se anuncia mais do que necessária, se anuncia inevitável.

Gabriel Kogan, 31/01/2015


volume morto

Segue minha carta aberta a Jerson Kelman, diretor da SABESP, pedindo esclarecimentos sobre questões de saúde pública relacionadas ao abastecimento em São Paulo em tempos de crise:

“Prezado Jerson Kelman,

Não nos conhecemos pessoalmente, mas estamos em lados opostos: você como diretor da SABESP e eu como crítico da empresa.
Assim como imagino que você concorde com a maioria os meus comentários, especialmente meu inconformismo em sua empresa ter 49,7% de capital privado sugando lucros e interferindo na gestão hídrica de toda uma metrópole; eu admito considerar você o melhor profissional para ocupar o cargo de direção da empresa, pelo seu grande conhecimento técnico e institucional do setor. Seu profissionalismo deve envergonhar seus trágicos antecessores que criaram uma situação dramática a levar a cidade inteira para o bueiro. O problema em suas mãos é incomensurável e eu não gostaria de estar na sua posição.
No entanto, gostaria de pedir aqui esclarecimentos sobre questões de saúde pública para a população. Peço-te que deixe de lado a demagogia que caracterizaram as gestões anteriores e tão bem define também nosso atual governador e as demais instâncias governamentais. A pergunta é, basicamente, uma só e espero dados científicos, comprovações irrefutáveis, sem bravatas políticas: a água abastecida pela Sabesp ainda pode ser considerada potável?

1- A qualidade dos “volumes mortos” tem sido sistematicamente testada, incluindo poluentes quase invisíveis como os materiais inorgânicos solúveis, como hormônios e medicamentos? Estamos diante de águas mais suscetíveis a essas interferências, correto?
2- A qualidade da água no destino final (consumidor) está garantida mesmo com as perigosas reduções de pressão da rede que permitem entrada de poluentes do lençol freático no sistema? Esses testes são feitos em vários pontos por quarteirão, em todos os quarteirões da cidade? Você sabe que a pressão da água no lençol freático, assim como a condição da rede e a qualidade da água subterrânea podem variar muito. A qualidade da água é igual em toda a cidade?
3- Estão ocorrendo cortes totais. Como a qualidade da água está sendo mantida sem infiltração do lençol freático nesse caso? Se a pressurização está sendo feita com ar, como garantir que isso não gire medidores de consumo, mesmo sem água?
4- A Sabesp considera a oscilação nas caixas d’água por causa dos frequentes desabastecimentos um fator relevante para aumento de contaminação?
5- Os braços poluídos da represa Billings estão sendo usados para abastecimento? Como a qualidade de água pode ser garantida nesses casos, já que a extração nessas áreas sempre foi, historicamente, considerada perigosa? Houve melhorias nas estações de tratamento para isso?
6- Por que a Sabesp continua baseando seu tratamento em cloro, já que essa técnica já foi proibida na maioria dos países desenvolvidos, inclusive União Europeia? Existe a possibilidade no aumento da incidência de câncer na população por causa de uso massivo de cloro?

Por fim, gostaria de saber se, frente a esses riscos (ou a confluência deles), não seria prudente e responsável recomendar à população que não beba a água da torneira, mesmo com o uso de filtros domésticos. É uma questão de saúde pública, não é possível se privar da responsabilidade em responder essas questões de forma precisa.

Atenciosamente,
Gabriel Kogan”


seca vermelho

A água vai acabar? O que fazer? Os planos apresentados pelo Governo do Estado parecem insuficientes para conter a crise e garantir que a cidade não sofra um dos maiores desastres sociais, econômicos e ambientais da história humana. Os níveis dos reservatórios não param de cair. A péssima gestão de recursos levou a um estado de colapso no sistema e reverter isso custará muito caro.

Desde o começo da crise tenho me esquivado de apresentar soluções. Primeiro porque qualquer discussão sobre o assunto deve ser pública; segundo porque eu não disponho de dados claros os suficientes para respostas científicas. Arrisco um esboço de medidas que me parecem necessárias, eficientes e plausíveis. Mas entendo que elas precisariam ser tomadas em bloco, uma sem a outra não funciona, e muito estudadas. O custo disso? Bilhões e bilhões (possivelmente mais que o montante investido na Copa e Olimpíadas). Algo será necessário a ser feito algo além das lentas transposições já prometidas e interligações de sistemas. Coloco essas sugestões, sobretudo, como discussão de pautas para reinvindicações populares. Nada será feito sem lutas.

-Estatização da Sabesp e adequação da tarifa (1)
-Exploração de água subterrânea em poços públicos de baixo desempenho (2)
-Exploração de água subterrânea em poços públicos de alto desempenho (3)
-Investimento em detecção de perdas (4)
-Criação de um órgão público municipal (5)
-Criação de uma agência federal para áreas metropolitanas (6)
-Projeto de reflorestamento de mananciais (7)
-Investimentos em saneamento, reurbanização e despoluição de rios (8)
-Projetos pilotos de fechamento do ciclo de abastecimento-esgoto (9)
-Instalação de relógios eletrônicos individuais e restrição de cota per capita (10)
-Construção de uma estação de tratamento para a Represa Billings (11)

(1) Estatização da Sabesp. Isso é o mais fundamental para que o problema possa ser corrigido sem interesses particulares em jogo e para que a crise não volte a ocorrer no futuro. Por que os lugares mais capitalistas do mundo como a Holanda têm seus serviços gerenciados por empresas públicas? Simplesmente porque o setor de água é estratégico demais para ser tratado como mercadoria ou como jogo de ações. A maior parte do capital privado da Sabesp deve ser transferida para os municípios servidos ou Estado. Uma porcentagem pequena pode permanecer negociada em mercados, algo que não passe, por exemplo, de 10%. Com a Sabesp estatizada, eu recomendo que a tarifa da água atinja patamares sustentáveis. Água é bastante barata em meio urbano para gerar inflação geral. A água mais cara é aquela que não temos. Portanto, a arrecadação do Estado com água deve cobrir as despesas de operação e investimentos, com exceção desse período inicial de readequação que demandará capitais gigantescos de várias fontes.

(2) Exploração de água subterrânea em poços públicos de baixo desempenho próximos da metrópole. Em regime de urgência, para que o sistema consiga esboçar recuperação, a Sabesp deve perfurar poços de exploração de água subterrânea em fazendas específicas, a serem desapropriadas segundo mapa de recursos hídricos e alocação de água. É sabido que a eficiência de eventuais poços próximos da cidade não será alta, mas essa água pode contribuir significativamente para o abastecimento, sobretudo se o número de poços for grande. As águas desses poços precisam receber tratamento similar a as provenientes de reservas superficiais (represas). A exploração deve também ser sustentável, sem que seja abstraída mais água que a capacidade de recuperação do lençol.

(3) Exploração de água subterrânea em poços públicos de alto desempenho. Parece adequado trazer água do centro do Estado de São Paulo, dos lençóis aflorados do chamado aquífero Guaraní. Para isso será necessário investimento em grandes aquedutos e subestações de energia elétrica para bombeamento do líquido. Será uma água cara, mas que pode vir em grande quantidade e, se for feito estudo adequado, de forma ambientalmente correta.

(4) Contratação de milhares de equipes treinadas para detecção de perdas. Técnicos munidos de equipamentos ultrassônicos de detecção de vazamento devem percorrer 24hs todas as ruas da capital. Vazamentos devem ser arrumados em poucas horas. Além disso, desvios ilegais precisam ser cortados; quem não paga, não usa racionalmente. Para compensar, tarifas sociais são indicadas. É necessário um investimento massivo nas detecção de perdas, não são meia dúzia de equipes que resolverão o problema na escala de SP.

(5) Criação de um órgão público municipal. A prefeitura precisa ser reinserida no debate a partir de um escritório público de assuntos hídricos, que inexiste até hoje. A função dessa instituição será fiscalização dos órgãos estaduais e projeto para novos empreendimentos públicos urbanísticos no setor das águas, como a perspectiva de uma transição do atual sistema para um gerenciamento sustentável de recursos.

(6) Criação de uma agência federal para áreas metropolitanas. Há uma ambiguidade na legislação se é a responsabilidade de abastecimentos em áreas metropolitanas é do município ou do Estado. Jurisprudência no STF indicou que é do Estado, ao contrário de áreas não-metropolitanas. Nesse caso, a instância federal precisa ter um órgão específico de fiscalização e, até, de investimentos complementares nessas regiões. A instância Estadual não pode simplesmente fiscalizar ela mesma; nem nós podemos fechar os olhos para o problema institucional no setor, com leis demasiadamente complexas.

(7) Programa de reflorestamento de mananciais. As áreas de cabeceiras precisam ser urgentemente recuperadas ambientalmente. Por incrível que pareça, situações análogas mostram que a recuperação hídrica em áreas reflorestadas pode ser surpreendentemente rápida. Não estamos falando, de qualquer forma, de meia dúzia de árvores, mas centenas de milhares de hectares, um projeto massivo.

(8) Investimentos em saneamento, reurbanização e despoluição de rios. Essa é a medida mais importante a ser adotada. A crise de abastecimento já é, na verdade, uma crise antiga e invisível: a de saneamento. O problema em São Paulo não é a falta de água, mas falta de água limpa. Nas últimas décadas, o poder público negligenciou totalmente esses investimentos, porque “saneamento só dá prejuízo” e não traz votos. A última estação de tratamento de esgoto concluída em São Paulo foi em 1998! 1998! Os córregos precisam ser todos redesenhados, se possíveis destamponados e acompanhados de novos parques lineares adjacentes, para reinserir as águas na vida urbana. Cada rio precisa ter um feixe de pelo menos 5 canais paralelos (quatro subterrâneos: um de águas pluviais e outro de esgoto, de cada lado; e um superficial: o canal central). Cada um desses tipos de canais tem suas águas encaminhadas para estações de tratamento específicas. O ideal é que essas estações fiquem nas fozes dos córregos/rios. Estamos falando de um investimento estratosférico, para corrigir erros históricos e tentar salvar o sistema hídrico de SP. Aliás, a lei brasileira já exige que as águas urbanas sejam totalmente tratadas, fato ignorado pelo Governo do Estado por meio da Sabesp. O município também é corresponsável por isso. Pode parecer inacreditável, mas a atual gestão suspendeu um projeto modelo: o Renova São Paulo, que propunha a reurbanização de córregos na cidade, acompanhado de investimentos em habitação.

(9) Projetos pilotos de fechamento do ciclo de abastecimento-esgoto. Cidades como Singapura (com seus 5 milhões de pessoas) conseguiram fechar o ciclo de água. Ou seja, tudo que é consumido, vira esgoto e depois é tratado com padrões tão sofisticados que podem ser reinseridos no sistema como água potável novamente. Assim, praticamente não é necessário fazer captação de novos recursos; tudo é reutilizado. Acredito que esse é o futuro para qualquer cidade. Para isso é necessário uma rede nova de esgotamento e abastecimento, totalmente lacrada e de alta tecnologia. Em São Paulo isso pode começar a ser feito em certos bairro, como projetos pilotos para que no futuro atingir toda a cidade.

(10) Instalação de relógios eletrônicos individuais e restrição de quantidades per capita por mês. A economia de água que isso propicia pode ser gigantesca: o consumidor paga pelo que consome, mesmo em um prédio com a caixa d’água coletiva. Além disso, a concessionária pode programar o medidor para liberar apenas certa quantia por mês para cada usuário. No caso de torres, é necessário uma instalação mais complexa, com sensores nos barriletes. Essa medida é de alta eficiência e considerada extremamente cara.

(11) Construção de uma estação de tratamento de água para a Represa Billings. Parte da maior reserva de águas de São Paulo não pode ser usada por causa dos índices de poluição. Existem hoje usinas de tratamento de altíssimo desempenho, capazes de remover quase qualquer poluente. A construção de uma dessas plantas industriais de alta tecnologia viabilizaria o uso da Represa Billings. Aliás, não consigo entender, a não ser por questões eleitorais, porque isso não começou a ser feito.

Por fim, sou totalmente contrário a qualquer projeto de descentralização de redes de abastecimento, sejam cisternas ou poços artesianos, como política pública. Primeiro, porque já existe um sistema público instalado – e pagamos bem caro por isso no passado; segundo, porque não há como garantir a qualidade dessa água vinda de milhares de fontes diferentes e testar em laboratórios isso rotineiramente é algo incabível em termos de custo-benefício. Terceiro, porque, especialmente no caso dos poços, a exploração pode parecer uma solução mágica no presente, mas é desastrosa no futuro, gerando um desequilíbrio de todo o sistema hídrico com cada um tirando a água da forma que lhe parecer melhor. A única exceção que penso ser desejável a esse respeito é a instalação de sistemas de reaproveitamento de água pluvial em vasos sanitários (apenas para vasos) para novas construções (a adequação em antigas é extremamente custosa e difícil). Torneiras de jardim são perigosas porque podem ser manipuladas de forma inadequada por alguns usuários desavisados, como crianças.

Além disso, sou também contrário à redução de pressão da rede ou rodízio de regiões. Isso pode criar uma solução muito problemática para a saúde pública porque aumentam as chances de contaminação na rede vinda do lençol freático, dada os altos níveis de vazamentos: o mesmo buraco por onde a água vaza, torna-se porta de entrada de agentes nocivos se a pressão é baixa. A ideia de construção de uma usina dessalinizadora em Santos é tão absurda que não merece nem ser comentada.

Essas são medidas de curto, médio e longo prazo; mas todas, caso sejam feitos investimentos brutais, podem dar resultado em pouco tempo (talvez meses). Mas algo precisa ser feito e com o atual Governo do Estado nenhuma mudança sairá sem muita luta popular.

Gabriel Kogan é arquiteto e jornalista, formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; seu mestrado, em Gerenciamento Hídrico no UNESCO-IHE (Holanda), focou as origens históricas das enchentes em São Paulo.


1- LUCROS DESPROPORCIONAIS: A capacidade de investimento da SABESP foi corroída por lucros estratosféricos e uma gestão voltada para satisfazer acionistas, que capitalizaram a concessionária no passado em ofertas públicas de ações. A empresa é parcialmente pública, porém regida por interesses privados.

2- GESTÃO SEM FISCALIZAÇÃO: Os órgãos responsáveis, tanto pelo serviço quanto pela fiscalização, estão todos nas mãos da instância estadual. Ninguém, portanto, multa ninguém ou obriga mudanças radicais de gestão. A ausência de alternância de poder estadual agravou o problema.

3- ESGOTO SEM TRATAMENTO: O saneamento foi negligenciado pelo Estado e o judiciário fez vistas grossas disso. O problema então não é simplesmente de falta d’água, mas falta d’água limpa. Os rios, lençóis freáticos e represas estão poluídos, e a coleta de esgoto é precária, o que dificulta o reaproveitamento do recurso após eventual tratamento.

4- INTERESSES ELEITOREIROS: Interesses políticos-eleitorais se sobrepuseram a campanhas de esclarecimento ou a possibilidade de novos investimentos para contornar, em regime de urgência, uma situação anunciada como dramática há, pelo menos, dois anos.

5- DESTRUIÇÃO AMBIENTAL: O desflorestamento nas regiões de cabeceira sem nenhum controle público afeta o regime hídrico e reduz a capacidade de recuperação cíclica de nascentes.

6- PRODUÇÃO ESTAGNADA DE ÁGUA . A falta de investimentos sistemáticos ou emergenciais permitiu que o consumo superasse a oferta sem que nada fosse feito. Os reservatórios existentes entrarem em estado de estresse. Novas fontes de água, como a subterrânea, não foram exploradas.

7- TECNOLOGIA ULTRAPASSADA. O descaso de investimentos acarretou em péssima manutenção de rede (hoje com grandes perdas) e no uso de uma tecnologia obsoleta para abastecimento e saneamento. O tratamento a base de cloro, por exemplo, está proibido na Europa e Singapura trata todo o esgoto e reinsere na tubulação de água potável para fechar o sistema, sem desperdiçar uma gota sequer.

Gabriel Kogan, 12/01/2015



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