A desastrosa gestão de recursos hídricos promovida pelas 3 instâncias governamentais em São Paulo, sobretudo o Estado por meio de sua concessionária, leva a cidade a iminência de um desastre social nos próximos anos. Apesar das fortes chuvas de verão, os níveis dos principais reservatórios parecem estagnados, como já vinham alertando especialistas. Previ isso em um texto publicado em 1º de Outubro (https://www.facebook.com/gabriel.kogan2/posts/10152841048147784). Caso não seja ampliada a oferta de água vinda de outras fontes – diferentes das atuais –, os atuais reservatórios custarão muito para recuperar. A demanda superou a oferta e as represas existentes se tornaram, por causa do estresse hídrico imposto pelas políticas públicas voltadas para o lucro, ineficientes. Esse fenômeno político/físico é bem conhecido do nordeste brasileiro, onde as represas secam rapidamente nos períodos nos quais mais precisam deles:

1- Com o reservatório seco, a água da chuva atinge um solo permeável. A água então percola (infiltra) para o lençol freático, sem que haja escoamento superficial (run off). A área de captura da água da chuva não é mais o grande espelho d’água anterior, mas a pequena área remanescente dos volumes mortos.

2- A recarga dos reservatórios pode ser feita pelo próprio fluxo dos rios. As chuvas recarregam o lençol freático e assim aumentam os fluxos de água das nascentes. O problema aqui é que esse não é um processo linear e nem imediato. Isso depende de muitos fatores inclusive o desmatamento das regiões de cabeceira que impacta a capacidade de recuperação das nascentes.

3- O verão traz a chuva, mas também o calor e com ele a evaporação. Ou seja, boa parte da água que cai dos céus volta para a atmosfera rapidamente. Isso é natural, mas o baixo nível dos reservatórios acelera esse processo: o volume baixo significa diminuição da inércia de evaporação. Um volume de água maior tem uma taxa de evaporação muito menor em relação ao todo. A superfície exposta ao ar aumenta em proporção ao volume total de água quando o volume é baixo.

A recuperação desses reservatórios será difícil e a situação poderá ser dramática até a próxima estiagem. Avisos de especialistas sobre a má gestão não faltaram; vieram desde começo dos anos 2000, e discursos mais alarmantes, há um ou dois anos atrás. Isso teria sido tempo suficiente para grandes investimentos se concretizarem. As medidas tomadas e os planos emergenciais parecem vir tarde demais e ainda são tímidas demais. Para reverter o problema precisaremos de investimentos muito rápidos a valores estratosféricos. E isso se tornará pior a cada dia: o tempo continua passando sem que haja uma mudança verdadeira na gestão das águas aqui.

Gabriel Kogan, 03/01/2015


A atual crise hídrica pode ser uma oportunidade para revermos as bases urbanísticas de São Paulo. Proponho um exercício: um passo atrás; dois à frente. Bailemos olhando a história para projetarmos o futuro. E isso demanda algo como uma “História social dos rios de São Paulo”, assunto que intersecciona meu mestrado (https://cosmopista.files.wordpress.com/2014/11/thesis_gabrielkogan.pdf). Fica aqui um breve recorte temporal e conceitual em 4 atos: São Paulo dos Campos de Piratininga (1) – Os portugueses viram no sítio as mesmas virtudes que os indígenas conheciam: vistas de morros para segurança, abundância de recursos hídricos e entroncamento estratégico de caminhos. Estavam por lá o Rio Tietê (o Rio Volumoso), o Jurubatuba (nosso Rio Pinheiros ou o Rio das Palmeiras) e o Tamanduateí (Rio do Tamanduá Bandeira). Para obter água não era preciso ir longe, as infinitas nascentes da região provinham água fácil e relativamente segura. Havia, no entanto, um problema: esses grandes três rios da região eram meândricos, corriam em um terreno quase plano das várzeas, as águas não tinham um leito fixo. De tempos em tempos vinha uma enchente sazonal, mudava as curvas do rio e trazia peixes para secarem nas margens. Daí veio o primeiro nome da cidade, “Peixe Seco” ou “Piratininga” em Tupi Guarani. À medida que a cidade colonial crescia, durante o século 19, a área das várzeas, com as suas águas estanques, ficavam menos salubres já que o esgoto ia, invariavelmente, parar lá. Corta. São Paulo Sinfonia da Metrópole (2) – Estamos em 1929 e o prefeito da cidade, Pires do Rio, tem em seu gabinete 3 projetos para os rios urbanos: o “Projeto Serra” tocado pela empresa canadense ‘Light’ que estava a todo vapor transformando os cursos d’água em lucros de geração elétrica; o projeto de Saturnino de Brito que pensava o uso integrado das águas e projetava lagos e parques; e o projeto de dois engenheiros Ulhôa Cintra e Prestes Maia que pensava os rios como simples vetores de transporte privado e rodoviário. Desde 1888, a cidade vivia um boom demográfico, impulsionada pela industrialização. A população de 60.000 pessoas atinge seu primeiro milhão no final da década de 1920. As pessoas pobres são empurradas para as baratas e perigosas várzeas, sujeitas a grandes inundações. A relação com os rios é conflituosa, tanto pelos desastres sazonais quanto pelas águas cada vez mais fétidas do Tietê e seus tributários. Para o poder público a transformação das águas havia de ser um projeto ideológico: secar as várzeas, valorizar os terrenos, arrancar as pessoas pobres e jogar para periferia, vender para empresas como a Cia City a preço de banana e construir bairros jardins, fazer canais artificiais e represas para gerar energia para as indústrias, construir grandes avenidas marginais junto as áreas planas dos rios para promover o carro. Ou, em outras palavras, valorização fundiária, geração de energia e promoção do transporte individual. Os rios passavam a ser vistos como algo ruim, mas muito útil. Corta. São Paulo Meu Amor (3) – As águas urbanas são males a serem extirpados. As enchentes castigam a cidade e uma CPI chefiada por Figueiredo Ferraz é montada na Câmara dos Vereadores em 1963. Vem o golpe e com ele a onipresença de Maluf, para substituir Prestes Maia. Os projetos de 29 foram parcialmente feitos; o que interessava os lucros dos donos do poder foi construído, o que era perfumaria para a qualidade de vida dos habitantes, descartado. O pensamento dominante é o de que os rios são horrorosos, que precisam ser canalizados, tamponados, darem lugar a mais ruas ou irem para um piscinão à 7 palmos abaixo da terra. Vamos matar os rios! (se é que eles já não estão mortos). E quem não concorde com isso que vá para outro lugar. São Paulo, ame-a ou deixa-a. Em que ano estamos? Estou um pouco confuso… 1964 ou 2014? É nesse ambiente de esquizofrenia surreal que tucanos projetam e executam uma reforma da calha do Tietê em puro concreto, que aumentam as marginais em vez de desabilitá-las, que privatizam as empresas que cuidavam dos rios, que sucateiam a empresa de saneamento e abastecimento para depois vendê-las. Os rios se tornam escravos dos carros. A cidade convive com a iminência paradoxal de enchentes devastadoras e secas terríveis. Há um desequilíbrio total na gestão das águas, essas inimigas. Vivemos em crise. Corta. São Paulo Cidade do Futuro (4) – Reinserir as águas na vida cotidiana dos cidadãos é enfrentar a própria história de construção da cidade. Após mais de um século e meio de intensas transformações dos rios (o canal do Tamanduateí foi completado em 1914 e suas primeiras obras são de 1851), São Paulo encontra uma encruzilhada. Para onde ir? Continuar o projeto dominante de tratar as águas pragmaticamente através da engenharia ou tratar os rios como parques, lugares de encontro e imprescindíveis para a cidade. Tudo deve começar com o saneamento. Bastaria aplicar a lei e forçar a empresa encarregada a tratar todo o esgoto. Precisamos ir além, tomar nosso esgoto e fechar o sistema: toda água de abastecimento é tratada e reinserida na tubulação. Há de vir um redesenho das margens e desativação das Marginais (a serem substituídas por sistemas de transporte público de alta capacidade). Infelizmente, redesenhar rios da cidade significa mudar traçado viário. E mudar o traçado das ruas significa mexer na predominância do transporte individual. As ocupações das várzeas também hão ser desapropriadas (pelo simples motivo que nunca deveriam ter ido para lá, espremeram o leito). Tudo isso demanda projeto, planejamento e não pode ser feito de um dia para o outro. É caro? Muito. Mas quanto custa um dia de enchente em São Paulo, sem nenhuma atividade econômica? Qual é o verdadeiro custo econômico desse desabastecimento? E quanto custa viver em uma cidade sem lazer, onde os rios são esgotos a céu aberto? Quanto custa pessoas viverem com pés nos córregos poluídos? Para a saúde pública, para toda a economia da cidade? A cidade do futuro é uma continuação dos projetos ideológicos do passado, com os seus rios subjugados aos carros, a especulação financeira e as empresas privadas que detém o controle da exploração de nossos recursos naturais? Qual futuro? Fim. Gabriel Kogan, 09/11/2014


linachaminé

Lina Bo Bardi tem hoje, dia 5 de Dezembro de 2014, celebrado seu centenário, mas seu pensamento ainda parece pouco assimilado – inclusive (e sobretudo) por arquitetos –, apesar de o mundo ver hoje uma verdadeira onda de Linamania: exposições, livros, palestras e novos edifícios inspirados na obra da arquiteta ítalo-brasileira; de São Paulo a Munique, de Roma a Buenos Aires.

A tônica das atuais revisões é formal, superficial, e em pouco incorpora sua vivacidade criativa e dimensão política. Aliás, essa própria compreensão formal parece limitada. Lina conseguia criar um desenho, ao mesmo tempo, pesado e elegante, com um forte senso de massa. Os arquitetos contemporâneos são incapazes de sequer emular isso e, quando se propõe a algo similar, o resultado é impreciso, sem o peso e sem a elegância. As exceções são raríssimas.

A leitura internacional da obra de Lina vem impregnada por uma névoa de fetiche sobre algo exótico: uma mulher, a partir dos anos 50, no Brasil. Análises respeitosas precisam se despir desses elementos, porque eles são absolutamente irrelevantes, principalmente quando estamos falando de uma obra tão poderosa. A arquitetura de Lina não é boa porque ela é um homem ou uma mulher, se foi feita agora ou há 50 anos, se é brasileira ou não. Nem é boa por causa de uma hipotética discussão, de fato irrelevante, entre modernismo e pós-modernismo. A força dessa arquitetura está acima dessas palavras-chave de fetichismo universal.

Aqui no Brasil, a leitura dominante da obra de Lina soa ainda menos convincente. Tratam com desdenho a essência política da noção de, como ela mesma definia, “arquitetura feia”: livrar-se de um determinismo espacial estabelecido pela arquitetura, para transferir a construção do espaço para a livre organização política dos Homens.

Sua obra se edifica a partir da radical simplicidade e clareza, tanto de pensamento quanto programática. As instalações de infraestrutura – como hidráulica, elétrica, etc – são simples como podem ser, quase sempre expostas ao olhar de qualquer pessoa, e sem nenhuma parafernália ou milhares de pranchas de projeto. Não existe espaço para o politicamente correto de acessibilidade universal ou sustentabilidade. Da arquitetura fica apenas o essencial, para o corpo e para o espírito, mesmo que isso inclua elementos com estrita função simbólica.

Não por acaso, o aspecto mais negligenciado da arquitetura de Lina, no entanto, é a forte conexão com o canteiro de obras. Sobretudo, a partir do projeto do Sesc Pompéia, Lina começa a fazer uma arquitetura coletiva, em que as soluções eram discutidas, criadas e definidas em conversas na construção, com pedreiros e mestres de obras. Isso possibilitou que, por causa da simplicidade e racionalidade construtiva, suas obras dessem sempre um passo à frente em termos tecnológicos. É um projeto político, um projeto revolucionário: a arquitetura se faz não apenas como produto, mas também como processo. Aliás, os próprios elementos da cultura popular, agora fetichizados até a aniquilação, precisariam entrar dentro dessa mesma dimensão processual.

Além disso, o princípio de intervenção no espaço construído, utilizando as potencialidades históricas existentes, foi outro princípio severamente ignorado na arquitetura brasileira dos últimos 30 anos. Em oposição aqui temos uma exacerbação do desenho e da monumentalidade da arquitetura (ou ao menos o desejo disso).

Estamos diante, em Lina, de um projeto arquitetônico e político amplo, no qual as atividades contemporâneas localizadas e ultrafocadas – como “acupunturas urbanas”, “arquitetura sustentável” ou “arquiativismo” – não tem e nem podem almejar ter qualquer relação. São projetos antagônicos em essência, sobretudo se olharmos para a abrangência e potência da obra de Lina, que se ergue quase como ‘uma teoria’.

A maior prova de que a arquitetura dela não foi ainda bem compreendida socialmente é o péssimo estado de conservação dos edifícios de Lina Bo Bardi no Brasil, como se isso não fosse, em absoluto, relevante para a arquitetura: seus projetos urbanos na Bahia parecem ruínas, o MASP teve seu espaço totalmente desfigurado e o Teatro Oficina é encurralado por novos e gigantescos edifícios. De fato, praticamente todas as suas obras enfrentam graves problemas. Lina, cem anos; talvez demoraremos mais cem para respeitar e compreender sua arquitetura.

Gabriel Kogan, 05/12/2014


seca

A origem da crise hídrica na cidade de São Paulo é econômica e política, não é natural. Os acionistas na Bolsa de Nova Iorque não estão preocupados se as pessoas estão sem água na torneira por aqui. Nesse ano de caos, os lucros projetados da SABESP são de R$1.8 bilhões e pelo menos metade vai para mãos privadas. Valor que deixa de ser aplicado na cidade nos sistemas de abastecimento e saneamento. O Estado não fez sua parte para garantir planejamento e investimentos seguros a longo prazo.

Nas últimas décadas, apesar do crescimento populacional e econômico, a produção de água não aumentou na mesma proporção. Cresceu na metrópole apenas 4,3% entre 2006 e 2013, passando de 66,2 para 69,1m3/s. Os esforços para diminuir as altíssimas perdas do sistema, como de vazamentos e desvios, atualmente próximo dos vergonhosos 30%, foram ineficientes.

A falta de chuva permanece como desculpa para políticos e diretores da empresa. Um sistema de abastecimento com planejamento sério deve prever períodos sazonais de secas. Não é exagero trabalhar com possibilidade de estiagens – sem ocorrência de qualquer transtorno – que, estatisticamente, aconteçam a cada 100 anos. Sem falar que uma rede tão grande e fundamental, precisa contar com plano A, B e C, e não depender, quase exclusivamente, de uma única fonte (no caso, o Sistema Cantareira).

Mais fácil é responsabilizar o aquecimento global: estudos sérios, no entanto, mostram mudanças nos padrões de chuva em uma escala de grandeza que, de forma alguma, poderiam secar reservatórios de um ano para o outro. Além disso, o mundo inteiro está já, desde 1992, usando modelos de aquecimento para considerar eventualidades, por exemplo, em regimes de chuva. Isso faz parte da previsão estatística.

Mais de 50% do capital da Sabesp está nas mãos do Governo do Estado, porém, ela é gerenciada, estranhamente, como uma empresa privada. Lucros, lucros e mais lucros que fizeram, por exemplo, o sistema Cantareira secar pelo simples motivo que a água produzida lá tem um preço unitário mais barato por não ter grandes custos em bombeamento e tratamento. O colapso nesse sistema, por razões econômicas e políticas, está anunciado desde 2001. Fazendo investimentos, 13 anos teriam sido tempo suficientes para não contar com a sorte da chuva em certos locais.

Outros reservatórios existentes têm preços mais elevados de produção e, apesar do sistema integrado, não interessam tanto financeiramente para a empresa. Novos lugares para captação não conseguiriam também competir com o valor da água vindo da Cantareira. Mas a água mais cara é aquela que não temos.

O que fazer? A CPI na Câmara dos do Município – responsável pelas concessões de abastecimento segundo a lei brasileira – não demonstra seriedade em encarar o assunto, como assumiu o vereador Andrea Matarazzo em áudio vazado durante sessão: “Isso daqui [a CPI sobre a falta d’água] não tem a menor consequência. Não tem”; “É teatrinho”, completou a presidente da SABESP.

Abastecimento e saneamento são coisas muito sérias. Interferem em toda a economia da cidade, e são direitos universais segundo a ONU. Não é possível que todo o sistema de água de São Paulo – cidade instalada em um lugar riquíssimo em recursos hídricos, diga-se –, fique na falta de planejamento – deixada sempre impune – de gestores e nas mãos do lucro de meia dúzia. Vejo quatro opções, que amenizariam o problema atual, mas, mais importante, poderiam evitar que isso se repita no futuro:

1- Estatização do capital privado da SABESP; medida esta a ser tomada pelo Governo do Estado, que ainda não se mostrou verdadeiramente preocupado com o problema. Os atuais lucros iriam para investimentos locais. Planos de longo prazos precisam ser aprovados formalmente e com responsabilidades (criminais, inclusive) para os gestores públicos.

2- Cassação das concessões da SABESP. Seria necessário organizar uma nova empresa metropolitana de águas com apoio do Estado, mas que deveria ter capital público controlado pelas prefeituras, modelo muito comum no exterior como nos Países Baixos, onde a questão da água é considerada estratégica.

3- Quebra do monopólio do abastecimento, com várias empresas públicas competidoras. A Prefeitura de SP organizaria, por exemplo, uma empresa independente, para exploração de água vinda de fora do município. Essa água é enxertada no sistema de distribuição atual. Outras prefeituras da região metropolitana poderiam fazer o mesmo e oferecer para toda população. O consumidor opta por qual água, virtualmente, consumirá. O problema disso é que esse sistema funciona melhor com liberdade tarifária. Nesse modelo, é preciso garantir que o preço para o pequeno consumidor não influencie seu gasto de vida.

4- Revisão radical dos contratos com a prefeitura para que, especialmente em momentos de crise, entre os lucros dos acionistas e a manutenção sustentável do abastecimento, prevaleça o bem público sobre os interesses privados. O Estado precisaria ter valores mínimos de investimentos anuais (obviamente maiores do que os atuais, insuficientes e ineficientes).

Nenhuma dessas alternativas será tomada sem luta, sem forte pressão popular. As pessoas terão que ir para as ruas, reivindicar por sua segurança hídrica, como já acontece atualmente em Itu. Para os acionistas em Nova Iorque, a situação vai muito bem, obrigado; água na torneira e dinheiro no banco.

Mais importante: a crise pode ser um momento de oportunidade para revermos nossos princípios sobre o uso da água por aqui, e fazer uma transição para um gerenciamento hídrico sustentável, que trate todo o esgoto, que valorize os rios urbanos, As águas precisam ser reincorporadas na vida cotidiana e não como problemas (esgoto, enchente, falta d’água…), mas como virtudes dessa cidade que cresceu e se desenvolveu por causa dos rios.

Gabriel Kogan, 21/10/2014


A situação da crise hídrica em São Paulo é seríssima, não apenas porque ameaça todas as bases econômicas da cidade, mas porque mostra a falência do pacto federativo no Brasil.

A complexidade legal/institucional no setor das águas é surreal: a agência reguladora é federal; os conselhos e a gestão das águas são estaduais; as outorgas são municipais. Não entendeu? Nem eu, que estudo isso há mais de 10 anos.

Na prática, nenhuma instância tem poder efetivo sobre as demais, apenas por meio de pressão política. Além disso, tudo é feito para conspirar contra. A política nacional (Lei Nº 9.433), por exemplo, é de 1997; a lei estadual de SP (Lei nº 9.034 é de) é de 1994. Mas pode isso, Arnaldo? Uma lei estadual mais antiga que a nacional?

Em 2008-10 o Estado fez um Plano para a Bacia do Alto Tietê (onde, infelizmente, estamos). O plano “enquadrou” (classificou) os rios (http://goo.gl/8YwfV2). O Rio Tietê foi considerado, em algumas partes, de classe 3 – que devem apresentar condições de “não verificação de efeito tóxico agudo a organismos” ou “substâncias que comuniquem gosto ou odor” e que sirva para “abastecimento para consumo humano”, “à irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras” e “à pesca amadora” (http://goo.gl/bB0WjC). Yupiii! À pesca amadora, à pesca amadora, à pesca amadora, à pesca amadora…

Isso parece um delírio distante? Sim, se considerarmos a onipresença da SABESP e seu fiel escudeiro, o Governo do Estado. Mas, péra, por que o Rio Tietê é poluído? Simples: porque o esgoto na cidade não é tratado. A partir do momento que o rio é “enquadrado”, são estabelecidas obrigações para esse tratamento, para a SABESP e governo.

O que nosso querido governador (aprovado por 57,3% da população) fez para evitar enormes gastos em coisas inúteis como saneamento ou meio ambiente e garantir os importantes lucros dos acionistas da SABESP na Bolsa de Nova Iorque? Não submeteu o plano (pago com dinheiro público) para o Conselho de águas do Estado. Ou seja, para efeito geral, é como se o plano e o enquadramento dos rios não existissem. Vejam se vocês acham alguma ata disso das reuniões do conselho: http://goo.gl/GUXV7l.

E então qual medida a ANA (Agência Naciona de Águas) pode tomar? Nenhuma. E os municípios? Na prática, nenhuma. E fica tudo como está. Uma falência total e absoluta dos modelos estabelecidos pelo pacto federativo da constituição de 89 e um caos de abastecimento e saneamento na cidade. Legal, né?

Assim, não existe obrigação da SABESP em tratar todo o esgoto da cidade (como acontece em qualquer metrópole descente, e sem essa de falar em subdesenvolvimento porque a SABESP se gaba de ser a maior empresa de saneamento do mundo, com lucro projetado, nesse ano infeliz de 2014, em R$1,8 bilhão).

Agora, vocês acham que isso não tem nada a ver com crise hídrica? Recomendo a leitura de um paper sobre a transformação no sistema de águas em Singapura (http://goo.gl/CvTYEC). Fecharam o sistema por lá: 100% do esgoto é tratado e reinserido na tubulação para ser consumido. A cidade-estado que não conta com rios, não precisa assim importar água de outros países. A dessalinização complementa o sistema. E estamos falando de uma rede grande, para 5 milhões de pessoas, hein? Não me surpreenderia que todo essa tecnologia custe menos que um ano de lucro da SABESP. Não mesmo…

Gabriel Kogan, 19/10/2014

Original em https://www.facebook.com/gabriel.kogan2/posts/10152888195847784


Os acionistas da SABESP fazem a festa enquanto a população vê suas torneiras secarem. O lucro líquido acumulado de 2014 (só nos 1º e 2º trimestres, vejam relatórios) é de nada menos que R$798,6 milhões. Esse é o montante que deixou de ser investido no aumento do sistema de captação de água, na diminuição dos vazamentos da rede, no tratamento do esgoto que polui a bacia do Rio Tietê…

A crise não tem nada a ver com a falta de chuva (isso é previsível por meio de modelos estatísticos simples), mas com a ganância dos acionistas da empresa e o descaso conveniente do Governo de São Paulo. Esses acionistas não são penalizados? Só a população? Precisamos começar a debater publicamente a cassação das outorgas da SABESP ou a estatização completa de toda a empresa. Não vejo outras soluções. Infelizmente, já como a situação é radical, as providências também precisam ser. Abastecimento e saneamento são coisas muito sérias e estratégicas para ficarem como reféns de lucros estratosféricos de meia dúzia.

Os relatórios da SABESP:
T1-2014 http://www.sabesp.com.br/…/91A98C139…/$File/ITR_1tri2014.pdf
T2-2014
http://www.sabesp.com.br/…/7E7CA9C831…/$File/ITR2tri2014.pdf

Gabriel Kogan, 07/10/2014

Original em https://www.facebook.com/gabriel.kogan2/posts/10152857682492784


Algumas questões pertinentes sobre o último texto (https://cosmopista.com/2014/10/14/10-mitos-sobre-a-crise-hidrica/) chegaram até mim. Tento responder:

1- “No atual cenário, a água pode mesmo acabar?” Devemos complementar a pergunta: Quando? Para quem? O sistema de represas de São Paulo está todo interligado, ou seja, é possível bombear água de um lugar para o outro, inclusive para o reservatório da Sabesp na esquina da Cerro Corá com a Heitor Penteado, um dos pontos mais alto do sítio urbano. A “Cantareira” é importante para garantir pressão para o sistema, já como as represas dessa região estão mais altas que a Paulista e assim a água desce por gravidade. Para tirar água da Guarapiranga (em um nível baixo), e mandar para Paulista se gasta muita energia elétrica para bombeamento e o custo da água fica caro para a Sabesp. Voltamos para o problema principal: maximização de lucros a todo custo. Assim, o esgotamento completo da “Cantareira” não significa fim da água, mas que o custo da água será maior e que as outras represas entrarão em uma situação de estresse. O Governo e a Sabesp podem empurrar com a barriga essa situação por anos (como já fazem), sem que haja realmente um cataclismo geral. Mas isso tratará de esgotar totalmente recursos e criar situações ainda mais sérias de abastecimento no futuro. O corte provavelmente continuará afetando populações de baixo para cima. Ou seja, os pequenos consumidores domésticos em regiões periféricas serão os primeiros a ter cortes prolongados. Por último, serão os grandes consumidores, como as indústrias; que geram nosso glorioso “desenvolvimento” e são muitas delas financiadoras de campanhas.

2- “Mas o que a Sabesp e o governo poderiam ter feito para evitar essa situação?”. Muita coisa; cito três: (a) aumentar o sistema de captação, algo necessário porque a cidade teve crescimento populacional e econômico, precisando consumir mais água; (b) melhorar a manutenção do sistema para diminuir os vazamentos gigantescos nos canos; (c) tratar (de verdade, não superficialmente) água do esgoto e reaproveitar como acontece por exemplo em Singapura, onde toda água consumida é reinserida no sistema. O aumento da captação não é algo a ser feito do dia para a noite; é necessário transpor rios, construir represas, estações de tratamento, e poços. Demanda concreto, discussões, investimentos, planejamento. Planejamento, aliás, parece estar faltando.

3- “Alguns estabelecimentos e edifícios tem poços artesianos próprios; isso é bom?”. Não me parece e pode vir a ser muito problemático. São três as questões. (a) Existe uma chance gigantesca da água do lençol freático (mesmo que profundo), estar contaminada dentro da cidade. Quem garante que não se está regando o alecrim com água cheia de chumbo? Qualquer uso dessa água que não seja apenas para o vaso sanitário é perigoso. (b) Toda água subterrânea está, de alguma forma, conectada, até mesmo em bacias hidrográficas diferentes. O slogan “não usamos água da Sabesp” é simplista. No fundo é a mesma água, que está sendo abstraída do lençol freático antes de sair na nascente. Bacias hidrográficas recebem pressões umas das outras dessas águas subterrâneas. (c) Há uma transferência de uma responsabilidade pública para o cidadão. Quem está autorizando e controlando essa água? Quem garante que essa extração não é excessiva ou danosa para a saúde? Se cada um bombear sua própria água do poço sem plano, aí sim a água vai acabar rapidamente.

4- “O uso do volume morto é aceitável?”. Faço uma analogia: se vocês estiverem perdidos em uma selva, vocês preferirão tomar água de uma poça quase seca ou de um rio de corredeira? Só em caso de emergência optarão pela poça, provavelmente. O volume morto é uma água parada, que acumulou poluentes ao longo das décadas porque a captação da Sabesp (os canos que sugam a água) estão a cima desse volume, deixando a parte inferior estanque. Agora resolveram extrair essa água. Mas não está vindo junto toda a poluição decantada no fundo, incluindo poluentes de difícil detecção?

5- “É possível garantir que a água do poço ou do volume morto é boa?”. Infelizmente, preciso dizer que isso é muito difícil. Tentei fazer testes laboratoriais da água que consumo. Quis testar de verdade, não apenas exames básicos supostamente já feitos pela Sabesp. Queria análises de metais pesados e hormônios. Os laboratórios (alguns públicos) se recusaram a fazer, talvez por ano eleitoral. Consegui um lugar para verificar os metais pesados, mas a margem de erro era no limite dos valores máximos recomendados para consumo em padrões internacionais (como a União Européia). Portanto, mesmo obtendo resultados considerados OK, é difícil dizer que a água seja totalmente segura para beber porque apenas os limites máximos das regras internacionais seriam suficientes para tirar os marcadores do zero. Nenhum indicador de metais pesados apresentou problemas, mas não consegui achar sequer um lugar no Brasil que fizesse o teste para hormônios e medicamentos. Conclui que o resultado era satisfatório, porém ainda um tanto inconclusivo.

6- “Podemos explorar águas subterrâneas livremente então?”. Isso faltou explicar no meu primeiro texto. O ideal é que só seja retirado do lençol freático a mesma quantidade de água em que a região consegue naturalmente recarregar no subsolo. Ou seja, a água total que se infiltra no solo. A estimativa desse volume envolve um processo complicado de análise, mas que é praticado em muitos lugares do mundo.

7- “O aquífero Guarani seria uma alternativa?”. O que eu tentei no último post foi desmistificar inclusive a existência do aquífero Guarani, como é entendido hoje pelo senso comum. A permanência desse conceito antiquado de um único reservatório subterrâneo é até motivo de chacota de pesquisadores internacionais. Um aquífero Guarani não existe, o que temos são várias camadas de água em diferentes níveis. Os mapas atuais do aquífero mostram afloramentos mais superficiais (estes que estão no meio do Estado de São Paulo, por exemplo). Nada impede, porém, que camadas profundas, mais próximas da cidade, sejam extraídas. Defendo o uso de água subterrânea especialmente para situações emergenciais, tanto que a abstração não supere a recarga natural do sistema.

8- “Então seria melhor ter uma empresa privada?” Cara… Você não entendeu nada do que eu falei. Primeiro porque a Sabesp já é, na prática, privada. Todas as decisões tomadas nos últimos anos não visam prestar um bom serviço (vejam o último post), e sim entregar dividendos para os acionistas na Bolsa de Nova Iorque e São Paulo. Segundo, por ser um serviço tão fundamental, é necessário que seja parte de políticas públicas seríssimas de longo prazo. Não acredito que o atual Governo tenha quaisquer condições de criar essas políticas, como já não teve nas últimas décadas. Esse é um problema político, da gestão hoje.

Gabriel Kogan, 04/10/2014

Original em https://www.facebook.com/gabriel.kogan2/posts/10152848167682784


seca

Gostaria de desmistificar alguns pontos sobre a crise hídrica em SP, assunto que tangencia minhas pesquisas acadêmicas.

1- “Não choveu e por isso está faltando água”. Essa conclusão é cientificamente problemática. Existem períodos chuvosos e de estiagem, descritos estatisticamente. É natural que isso ocorra. A base de dados de São Paulo possibilita análises precisas desde o século XIX e projeções anteriores a partir de cálculos matemáticos. Um sistema de abastecimento eficiente precisa ser projetado seguindo essas previsões (ex: estiagens que ocorram a cada cem anos).

2- “É por causa do aquecimento global”. Existem poucos estudos verdadeiramente confiáveis em São Paulo. De qualquer forma, o problema aqui parece ser de escala de grandeza. A não ser que estejamos realmente vivendo uma catástrofe global repentina (que não parece ser o caso esse ano), a mudança nos padrões de chuva não atingem porcentagens tão grandes capazes de secar vários reservatórios de um ano para o outro. Mais estudadas são as mudanças climáticas locais por causa de ocupação urbana desordenada. Isso é concreto e pode trazer mudanças radicais. Aqui o problema é outro: as represas do sistema Cantareira estão longe demais do núcleo urbano adensado de SP para sentir efeitos como de ilha de calor. A escala do território é muito maior.

3- “Não choveu nas Represas”. Isso é uma simplificação grosseira. O volume do reservatório depende de vários fluxos, incluindo a chuva sobre o espelho d’água das represas. A chuva em regiões de cabeceira, por exemplo, pode recarregar o lençol freático e assim aumentar o volume de água dos rios. O processo é muito mais complexo.

4- “As próximas chuvas farão que o sistema volte ao normal”. Isso já é mais difícil de prever, mas tudo indica que a recuperação pode levar décadas. Como sabemos, quando o fundo do lago fica exposto (e seco), ele se torna permeável. Assim a água que voltar atingir esses lugares percola (infiltra) para o lençol freático, antes de criar uma camada impermeável. Se eu fosse usar minha intuição e conhecimento, diria que São Paulo tem duas opções a curto-médio prazo: (a) usar fontes alternativas de abastecimento antes que possa voltar a contar com as represas; (b) ter uma redução drástica em sua economia para que haja diminuição de consumo (há relação direta entre movimento econômico e consumo de água).

5- “Não existe outras fontes de abastecimento que não as represas atuais”. Essa afirmação é duplamente mentirosa. Primeiro porque sempre se pode construir represas em lugares mais e mais distantes (sobretudo em um país com esse recurso abundante como o Brasil) e transportar a água por bombeamento. O problema parece ser de ordem econômica já como o custo da água bombeada de longe sairia muito caro. Outra mentira é que não podemos usar água subterrânea. Não consigo entender o impedimento técnico disso. O Estado de São Paulo tem ampla reserva de água subterrânea (como o chamado aquífero Guarani), de onde é possível tirar água, sobretudo em momentos de crise. Novamente, o problema é custo de trazer essa água de longe que afetaria os lucros da Sabesp.

6- “O aquífero Guaraní é um reservatório subterrâneo”. A ideia de que o aquífero é um bolsão d’água, como um vazio preenchido pelo líquido, é ridiculamente equivocada. Não existe bolsão, em nenhum lugar no mundo. O aquífero é simplesmente água subterrânea diluída no solo. O aquífero Guaraní, nem é mesmo um só, mas descontínuo. Como uma camada profunda do lençol freático. Em todo caso, países como a Holanda acham o uso dessas águas tão bom que parte da produção superficial (reservatórios etc) é reinserida no solo e retirada novamente (!). Isso porque as propriedades químicas do líquido são, potencialmente, excelentes.

7- “Precisamos economizar água”. Outra simplificação. Os grandes consumidores (indústrias ou grandes estabelecimentos, por exemplo) e a perda de água por falta de manutenção do sistema representam os maiores gastos. Infelizmente os números oficiais parecem camuflados. A seguinte conta nunca fecha: consumo total = esgoto total + perda + água gasta em irrigação. Estima-se que as perdas estejam entre 30% e 40%. Ou seja, essa quantidade vaza na tubulação antes de atingir os consumidores. Água tratada e perdida. Para usar novamente o exemplo Holandês (que estudei), lá essas perdas são virtualmente 0%. Os índices elevados não são normais e são resultados de décadas de maximização de lucros da Sabesp ao custo de uma manutenção precária da rede.

8- “Não há racionamento”. O governo está fazendo a mídia e a população de boba. Em lugares pobres o racionamento já acontece há meses, dia sim, dia não (ou mesmo todo dia). É interessante notar que, historicamente, as populações pobres são as que sempre sentem mais esses efeitos (cito, por exemplo, as constantes interrupções no fornecimento de água no começo do século XX nos bairros operários das várzeas, como o Pari). A história se repete.

9- “É necessário implantar o racionamento”. Essa afirmação é bem perigosa porque coloca vidas em risco. Já como praticamente todas as construções na cidade têm grandes caixas d’água, o racionamento apenas ataca o problema das perdas da rede (vazamentos). É tudo que a Sabesp quer: em momentos de crise fazer racionamento e reduzir as perdas; sem diminuição de consumo, sem aumentar o controle de vazamentos. O custo disso? A saúde pública. A mesma trinca por onde a água vaza, se não houver pressão dentro do cano, se transformará em um ponto de entrada de poluentes do lençol freático nojento da cidade. Estaremos bebendo, sem saber água poluída, porque a poluição entrou pela rede urbana. Por isso que agências de saúde internacionais exigem pressão mínima dentro dos canos de abastecimento.

10- “Precisamos confiar na Sabesp nesse momento”. A Sabesp é gerida para maximizar lucros dos acionistas. Não está preocupada, em essência, em entregar um serviço de qualidade (exemplos são vários: a negligência no saneamento que polui o Rio Tietê, o uso de tecnologia obsoleta de tratamento de água com doses cavalares de cloro e, além, da crise no abastecimento decorrente dos pequenos investimentos no aumento do sistema de captação). A Sabesp é apenas herdeira de um sistema que já teve várias outras concessionárias: Cantareira Águas e Esgotos, RAE, SAEC etc. A empresa tem hoje uma concessão de abastecimento e saneamento. Acredito que é o momento de discutir a cassação dessa outorga, uma vez que as obrigações não foram cumpridas. Além, é claro, de uma nova administração no Governo do Estado, ao menos preocupada em entregar serviços público e não lucros para meia dúzia apenas.

Enfim, se eu pudesse resumir minhas conclusões: a crise no abastecimento não é natural, mas sim resultado de uma gestão voltada para a maximização de lucros da concessionária e de um Governo incompetente. Simples assim, ou talvez, infelizmente, nem tanto.

Gabriel Kogan é arquiteto e jornalista, formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; desenvolveu mestrado em Gerenciamento Hídrico no UNESCO-IHE (Holanda), onde pesquisou as origens históricas das enchentes em São Paulo.


mira

A exposição de Mira Schendel na Pinacoteca não faz jus à obra da suíço-brasileira. A arte é intocável, é como um santo em um altar, uma rainha cercada por seus guarda-costas. Ai de quem resolva perfurar barreiras. Alarmes soarão e tiros serão disparados.

“Não pode soprar”, foi o que ouvi do segurança, ao respirar próximo da obra ‘Ondas Paradas de Probabilidade’, feita simplesmente de fios de nylon suspensos no forro. Isso é lamentável e Mira deve se revirar no caixão. Os curadores pesquisaram o pensamento da artista e a intenção desse projeto?

Vejam o que a artista fala sobre a primeira exibição dessa mesma obra na Bienal em 1969: “O modelo será montado no próprio local. No tocante ao dinheiro, custará menos de 10 francos suíços. E também não me importo se o destruírem. Depende da possibilidade de ver-se nele algo ou nada se perceber. De modo que se alguém deixar intactos esses finos fios de náilon, cortá-los com raiva ou arrancá-los, no fundo (plano de fundo!), isso não teria a menor importância.”

Agora a instalação virou simples imagem contemplativa. Todo o conteúdo político, sensorial e libertário foi substituído por um objeto estético inerte. Vamos dizer que isso não é grande novidade. Quantas vezes já vimos obras de Lygia Clark ou Helio Oiticica, por exemplo, também pensadas para originalmente como sensoriais e interativas, acompanhadas de plaquinhas como palavras de ordem: “Não toque, não pise, não pense”.

Na mesma mostra atual de Mira na Pinacoteca, a sala mais impressionante tem quadros meticulosamente trabalhados, feitos em finos papeis e montados entre duas chapas transparentes. Os trabalhos ficam flutuando no espaço, mas – inexplicavelmente – não se pode caminhar entre eles. Por que?

“Foi uma decisão da curadoria mesmo, em Londres podia andar no meio, mas não podia tirar foto”, explicou com naturalidade o monitor do espaço. Seria bom se os museus se preocupassem um pouco com outras coisas senão montar esquemas de segurança intransponíveis para obras de arte. “Não toque!”, tem muito valor, é sagrado, é inatingível. É fetiche. É arte.

Gabriel Kogan, 04/10/2014


Que a arte se tornou um commodity especulativo, não é novidade. Que a arte é hoje uma arma da valorização imobiliária, também não. A exposição ‘Made by… Feito por Brasileiros’ no Hospital Matarazzo arrecadou R$3,2 milhões em dinheiro público para catapultar um novo empreendimento imobiliário a ser edificado no lugar em breve (como foi bem descrito por Fabio Cypriano em seu artigo, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/184652-mostra-parece-so-disfarcar-projeto-imobiliario.shtml). Raras vezes os assuntos ‘arte’ e ‘mercado imobiliário’ foram aproximados de forma tão gritante e cínica.

Resta-nos discutir a ingenuidade dos artistas (esfomeados) que se submetem a projetos desse tipo, sem (pasmem!) muitos deles terem recebido qualquer coisa para isso. Em busca de prestígio, concederam as obras para que o empreendedor imobiliário pudesse se alavancar financeiramente. Escapa-me o que pensaram eles. Talvez quisessem o afago do empresário que os chamou de ‘novos bandeirantes’, esses assassinos-heróis desbravadores do país e que agora abrem as portas para o capital dizimar o que ainda nos resta das cidades.

É comum dirigirmos a críticas aos curadores. Mas vamos devolver a arte aos artistas e cobrar deles a responsabilidade por seus trabalhos, esperando que a importância exagerada conferida hoje a curadoria possa ser enfim eclipsada. Chama a atenção a falta de compreensão dos artistas não só da situação política em questão; mas da possibilidade de ocupação do hospital abandonado. Disponibilizado os espaços para a produção dos chamados ‘site specific’, a gigante maioria dos artistas usou as salas como lugares convencionais de exibição, com obras soltas no meio do ambiente ou com projeções de vídeos, como num museu. Nesses casos, a interface com o local não se estabelece nem como relação espacial criativa, nem como sentido em relação ao contexto histórico. Os artistas não parecem ter entendido as possibilidades abertas pelo uso do espaço em questão. A arte vai muito mal, obrigado.

Há de ser dito que temos por lá pelos menos uma dúzia de boas obras, além de 5 instalações excepcionais: de Iran do Espírito Santo, Cinthia Marcelle, Artur Lescher, Daniel Senise (um trabalho emocionante…) e (único estrangeiro dessa lista) Per Barclay. Mas não consigo abrir muitas concessões, nem aqui. Como artistas tão bons, que são capazes de fazer obras tão poderosas, se deixaram participar desse evento?

“A arte é mais”, bradou certa vez um dos artistas representados na mostra em uma palestra. Devemos nos perguntar antes: “Mais para quem, oras?”.

Gabriel Kogan, 20.09.2014


Albert

Na mostra “Histórias Mestiças”, no Tomie Ohtake, os curadores – Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz – reproduzem a história de dominação eurocêntrica na América, valendo-se de subterfúgios fetichistas que vão de Tarsila do Amaral até Viveiros de Castro, passando por Albert Eckhout. Não fogem do senso comum, ao contrário do que tentam afirmar no texto curatorial.

A história da dominação dos povos é retratada como pacífica dominação incontestável e facilmente transformável em fetiche do mercado – objetivo último em tempos sombrios de arte subjugada a curadoria. Nas obras expostas não há sangue, como a história dos povos na América pudesse se remeter ao concílio e não à guerra; como pudesse ser bela e não medonha.

Ergo: Estamos falando de uma história de genocídio, de uma barbárie de 5 milhões de índios e 4 milhões de negros brutalmente escravizados. A mostra esconde isso para debaixo do pano, e o que não consegue, trata de expor como elemento estético no estilo novecentista: união dos povos ou iconografia acrítica. A aproximação entre os trabalhos é meramente formal, com temas fáceis, saídos da derradeira versão da Enciclopédia Barsa.

Podemos traçar uma analogia com a Bélgica (e sua culpa incurável em forma de nação contemporânea). Na exposição, aquilo que não pode ser suavizado na história da violência assassina do Congo Belga, adentra ao campo das apaziguações superficiais, dissimuladas, barbáricas e capitalistas da gigante dos diamantes De Beers. “Histórias Mestiças” é mais do que colonialista; é, infelizmente, neocolonial.

Como não poderia ser diferente, a curadoria de obras contemporâneas é também ideológica: mais do mesmo, oras; sem criatividade e com pesquisa fácil. O envelhecido artista Ernesto Neto, que há 20 anos mostra o mesmo trabalho em diferentes montagens, agora resolveu descontextualizar o uso xamânico do ayahuasca dentro de um espaço expositivo. Toda a insuficiência do trabalho, e sua fina ironia malandra, foi bem representada em texto publicado na Folha –http://religiosamente.blogfolha.uol.com.br/2014/08/20/sob-o-dominio-do-ayahuasca/.

Assumir as “Histórias mestiças” como uma “Mestiçagem de histórias” é compactuar com a falência (pós-moderna) das artes, com a falência da curadoria nas instituições contemporâneas; a própria falência da poesis e da crítica em nossa sociedade. Acredito ainda numa história crítica, mesmo que insistimos em nos escondermos (ou nossos textos curatoriais fazem isso) na retórica politicamente correta de seres abertos e sem preconceitos enquanto nossos atos são incontestes: uma nação racista que espera, impassível, o fim dos tempos após o grande massacre que tenta desesperadamente esconder. Não há o que dissimular ou velar; trata-se de um conflito; e nós já perdemos, vendidos pela retórica barata: a mercadoria, aqui, da arte – que ainda há de aplaudir essa mostra. Um horror ou alguém dá mais?

Gabriel Kogan, 23.09.2014


cantareira

Olhemos um pouco para a história. Até a década de 1870, a pequena cidade de São Paulo não tinha um sistema de água encanada. A obtenção de água era feita nas próprias margens dos rios, ou em chafarizes, onde os moradores precisavam se dirigir para pegar água. O fluxo era controlado por reduzidos reservatórios, um deles ficava no Bixiga, nas imediações do Ribeirão Saracura, o chamado Tanque do Reúno. 

A expansão do sistema de abastecimento dependia de investimentos e trabalhos de engenharia. Portanto, nunca houve, naturalmente, água em torneira nem disponibilidade hídrica para captação na cidade. As águas das várzeas, apesar de abundantes, eram estanques e poluídas.

Em 1877, foi organizada a Cia Cantareira, a primeira empresa de abastecimento e saneamento que deveria atender a demanda de abastecimento. A empresa construiu uma pequena rede incluindo um reservatório na hoje famosa região da Cantareira (foto). De tão pequena, essa represa é usada atualmente como pesque-pague. A Cia Cantareira quebrou e teve o contrato rompido porque não conseguia expandir o sistema (não muito diferente do que vivemos hoje). Vieram várias empresas depois; RAE, DAE, SAEC e, finalmente, a Sabesp – que não deverá ser, provavelmente, o último estágio dessa sucessão.

O abastecimento de água em SP sempre dependeu de processos artificiais de captação: planejamento e investimento. Se dependêssemos de ajuda divina nem o pequeno Tanque do Reúno teríamos hoje. Os reservatórios devem acompanhar a demanda (o crescimento da cidade) e se tornarem cada vez maiores. Já como a disponibilidade geográfica é sempre limitada, a água precisa ser obtida cada vez mais longe. Primeiro o Bixiga, depois a Cantareira, depois Santo Amaro, depois o Alto Tietê. A existência de anos secos (ou uma sequência deles) não é só natural como previsível. E o sistema deve estar dimensionado para isso.

O problema que enfrentamos hoje não é pela falta de chuva, é pela falta de planejamento e investimento do Governo e da empresa encarregada, que preferiu maximizar os lucros de seus acionistas em vez de atender a população. Em suma, se olharmos para a história veremos que a crise hídrica é, na verdade, uma crise política.

 

Gabriel Kogan, 13/07/2014


Qual arquiteto não tem uma biblioteca em seu escritório e que, de tempos em tempos, não volta a consultá-la, seja em busca de inspiração, seja para copiar um detalhe, seja para admirar um projeto? A história da arquitetura é assim: um projeto puxa o outro, nada é criado do zero. O uso de referências de outros arquitetos, de outras obras, é parte fundamental do desenho na arquitetura.

Quatro profissionais, de diferentes gerações, falam dessas referências. Cada um indicou uma casa, de outros arquitetos, que mora em seu imaginário e que estabelece um diálogo com pelo menos um de seus projetos. Mais do que uma simples indicação, as conversas se tornaram um exercício de generosidade, em que os arquitetos se sentiram livres para homenagear obras e pessoas importantes para suas carreiras.

Milton Braga

“Você sabia que eu morei na casa do Paulo Mendes da Rocha?”. Foi assim que Milton Braga começou a conversa. Em 1994, quando Paulo estava deixando sua famosa residência no Butantã – obra tida como uma das mais importantes da arquitetura brasileira – ele deixou que alguns de seus jovens colegas ficassem por lá. Pediu em troca a reforma da marcenaria. Ao lado de outros três amigos, Milton montou uma república e viveu por pouco mais de um ano na casa. Foi uma experiência impactante, e não poderia ser diferente. A casa traz princípios radicais de arquitetura: construída totalmente elevada do chão, por apenas quatro pilares, tem uma estrutura de concreto inventiva. Por dentro, os quartos, separados por paredes baixas, não permitem qualquer privacidade entre os moradores, desafiando a vida cotidiana.

Quando Milton Braga ao lado dos parceiros do MMBB no final da década de 1990 – como Angelo Bucci – foram convidado para fazer uma residência em Aldeia da Serra, o convívio na Casa Butantã ainda estava muito forte na memória. A casa tem referências da obra do mestre, como em uma bela homenagem de uma geração mais jovem: assim como no Butantã, a casa de Aldeia da Serra se eleva sobre quatro pilotis, utilizando inteligentemente a topografia existente no terreno. A planta também parece uma citação: em vez de um bloco central de quartos como na obra de Paulo, o MMBB desenhou um volume similar que abriga a cozinha e os banheiros. Mais do que estudar em livros, Milton teve a oportunidade de experimentar a arquitetura residencial de Paulo Mendes.

mmbbaldeiadaserra_fotoCasa de Alderia da Serra do MMBB

butantãCasa Butantã de Paulo Mendes da Rocha

mmbbaldeiadaserraPlanta de Alderia da Serra do MMBB

paulomendesdarochabutanta1Planta da Casa Butantã de Paulo Mendes

Eduardo Longo

Rem Koolhaas visitou a famosa Casa Bola em 2011 e perguntou para Eduardo Longo qual era a influência dos metabolistas japoneses na sua obra, já que eram experiências muito semelhantes. Eduardo foi enfático: nenhuma. Na época que começou a fazer sua residência, no final dos anos 1960, mesmo dividindo muitos princípios arquitetônicos com os metabolistas, ele simplesmente não conhecia os japoneses, que se utilizavam de módulos pré-fabricados – espécie de capsulas habitacionais a serem reproduzidas pela cidade. Então qual são as referências que Longo, esse arquiteto tão atípico e criativo da arquitetura de São Paulo, incorpora em seus projetos?

“Quando fiz a minha casa, eu tinha esse projeto na cabeça”, diz Longo apontando para a tela do computador que mostrava uma obra incrivelmente similar a primeira versão construída de sua residência da Rua Amauri. É uma casa pouco conhecida hoje, feita em 1968 por José Priester, mas “que teve seu momento de fama”, nas palavras do próprio arquiteto. Pouco mais velho que Longo, Priester trabalhou com Eduardo de Almeida no começo de carreira e projetou essa casa para sua família no Jardim Marajoara, em São Paulo. Em comum com a casa de Eduardo Longo, há a fachada estreita, que se eleva em formato trapezoidal, criando um pé-direito alto no interior. Esses conceitos foram marcantes para Longo edificar no apertado lote urbano da Rua Amauri. Longo lembra ainda a influência em sua carreira de seu mestre Franz Heep e de outras obras modernas como a casa Cunha Lima de Joaquim Guedes e a Casa Antonio Delboux de Carlos Milan.

Peruíbe LongoResidência da Rua Amauri de Eduardo Longo

priesterCasa do Jardim Marajoara de José Priester

Vito Macchione

Vito Macchione é um jovem arquiteto com bastante experiência. Trabalhou em alguns dos mais importantes escritórios de São Paulo, como o MMBB e Eduardo Colonelli, e hoje tem seu escritório, o Doisamaisv. Dominando um amplo espectro de projetos pelo mundo, conversar com Vito é viajar um pouco pela história da arquitetura. A novíssima geração de arquitetos paulistas, ao mesmo tempo em que permanece grande admiradora dos modernistas brasileiros de meados do século XX, parece cada vez mais aberta para as influências que vêm de fora, como de Portugal, Chile, Japão e a Escandinávia.

Para o projeto Casa em Araçoiaba da Serra, executado no ano passado, Vito se debruçou tanto no estudo de algumas casas brasileiras, como o Pavilhão Carambó do Una Arquitetos, de 2002, quanto estrangeiras, como a Eco House do norueguês Sverre Fehn de 1992. A fachada lateral que expõe o corte transversal da casa, como uma fatia da construção, é um elemento comum entre as três obras. O projeto revela este encontro de várias arquiteturas. Se por um lado, a Casa de Araçoiaba da Serra tem uma estrutura toda feita em madeira, similar às construções escandinavas; por outro lado, o próprio arquiteto lembra que “o bloco de concreto que aflora do solo acabou sendo um elemento que remete à arquitetura moderna paulista, mesmo que talvez o único do projeto”.

doisamaisvAnexo para Hóspedes em Araçoiaba da Serra

Sverre FehnEco House de Sverre Fehn

UnaPavilhão Carambó do Una Arquitetos

Marcos Acayaba

No seu livro publicado pela editora Cosac Naify, Acayaba fez questão de incluir, para cada um de seus projetos, obras de outros arquitetos que serviram como inspiração. “Alguns arquitetos quando viram aquilo falaram que eu não devia entregar tão facilmente essas referências”. Mas Acayaba, professor da FAUUSP, quer dividir o conhecimento. Para ele, as fontes de inspirações vindas de outros projetos são partes fundamentais do ato de projetar. Inevitáveis. “Há uma frase famosa que diz que a arquitetura é sempre 95% de inspiração e 5% de transpiração”. Pois de onde vêm esses 5% de inspiração de suas obras?

Para a famosa Casa Hélio Olga, Acayaba menciona a importância da obra do arquiteto alemão Mies van der Rohe. Em um projeto na Itália que nunca foi construído, a Glass House on a Hillside, Mies desenhou uma casa que se projeta para fora da montanha, como uma ponte que desaparece no infinito. A obra é estruturada por uma treliça metálica feita de elementos triangulares estáveis. Acayaba faz uma relação também com Craig Ellwood, discípulo direto de Mies, que projetou a Weekend House, outra casa-ponte. Em comum com a Casa Hélio Olga em São Paulo, essas obras têm uma peculiar implantação no terreno, em que o volume se descola do solo. Além disso, a estrutura – pensada junto com o proprietário que é engenheiro – lembra as obras de Mies e Ellwood, mas aqui nos trópicos foi reelaborada para a madeira. Acayaba sintetiza o processo projetivo com uma frase do matemático Henri Poincaré, “Criatividade é unir elementos existentes com conexões novas que sejam úteis”.

Casa Helio OlgaResidência Hélio Olga de Marcos Acayaba

esqueteacayabaDesenho esquemático da estrutura da Residência Hélio Olga

Glass House on a HillsideCroquis da Glass House on a Hillside de Mies Van der Rohe

Craig EllwoodWeekend House de Craig Ellwood

Texto de Gabriel Kogan, 21/01/2014

(originalmente publicado na revista bamboo)


rogers pompidou 2a

Em 1970, o Governo da França lançou o edital para o concurso de propostas arquitetônicas de um grande centro cultural na região do Marais em Paris. O projeto ganhador para a sede do chamado Georges Pompidou (Centro Nacional de Artes e Cultura) foi anunciado em 1º de Julho de 1971. Ninguém esperava ouvir do memorial do estrelado júri chefiado por Jean Prouvé, e que contava também com Oscar Niemeyer e Philip Johnson, o nome de dois arquitetos muito jovens (então com menos de 40 anos) – Richard Roger e Renzo Piano. A decisão foi incontestável. O Centro Georges Pompidou é um dos mais revolucionários projetos da segunda metade do Século XX. No depoimento que segue, traduzido especialmente para o Cosmopista, Richard Rogers, fala do clima político pós-Maio de 68 que envolveu o projeto e sobre alguns pressupostos de desenho.

“A coisa mais importante – e, em certo sentido, a mais empolgante – sobre tudo isso [da cultura urbana dos anos 60] era a revolução intelectual e estudantil de 1968, que teve uma imensa importância social e política. [Georges] Pompidou – o então primeiro ministro naquela época – quase teve que escapar do país e tinha até um plano preparado para ir para a Alemanha porque pensou que a França seria tomada em 1968 por estudantes e ‘intelectuais’. E os Estados Unidos estavam fervendo também. Então havia uma tremenda dinâmica e não havia dúvidas que o nosso projeto do centro cultural emergiu dessa atmosfera.

E se vocês olharem as imagens do projeto  apresentadas para o concurso, verão que elas são sobre revolução mesmo, sobre ser contra a guerra, sobre o Vietnã. E o que surge de todo esse espírito é a esperança de mudança. É provavelmente o grande momento em que o capitalismo quase caiu. Em algumas áreas, certamente, começou a colapsar. Mas os anos 70 vieram e tudo ficou quieto novamente. Isso foi terrível, em certo sentido, porque a revolução falhou.

Em termos do design para o concurso do edifício do Pompidou, algumas raízes são muito claras no trabalho do Archigram e de Cedric Price porque isso foi a maior influência arquitetônica dos anos 1960 e se infiltrou no nosso pensamento. Mas vocês podem também traçar um retorno ao futurismo, e especialmente os Construtivistas Russos. Além do conceito da estrutura, havia a ideia da consciência política e social por nós apoiada que provavelmente guiou todo o projeto. (…)

Quando o anúncio do edital do concurso saiu, Ted Happold [chefe do prestigiado Grupo 3 de Estrutura da empresa Arup, responsável por trabalhos na ópera de Sidney] veio a mim e disse: “Que tal fazer esse concurso?”. Foi a primeira grande competição daquela época, fora a da Ópera de Sidney. Inicialmente, eu fui totalmente contra a ideia, e pensei e pensei não se envolver, e fui arrastado para fazê-la. Felizmente, eu fui arrastado para fazer isso.

A razão pela qual eu não queria fazer o concurso é que eu vinha da esquerda política. Então quem afinal queria fazer um centro cultural centralizado em um período quando tudo mundo falava sobre descentralização cultural? E quem queria fazer um palácio para Georges Pompidou? E de qualquer forma, a maioria de nós pensou: “Nunca será construído!”. Então tivemos muitas discussões sobre isso. Por sorte fui voto vencido.” Richard Rogers

Tradução Gabriel Kogan, extraído de ‘Supercritic #3, Richard Rogers, The Pompidou Centre, 2012’.


Imagem

Um recente depoimento de Teixeira Coelho, curador do MASP, reproduzido na imprensa (ver http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sem-seguranca-mostra-e-cancelada-no-masp–,1097299,0.htm e http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-preciso-preservar-o-masp-,1098579,0.htm) sobre o cercamento do vão-livre do museu na Avenida Paulista causou controvérsias e gerou debates em mídias sociais. Procurei Teixeira Coelho para uma entrevista exclusiva para o Cosmopista para que ele pudesse esclarecer seu posicionamento sobre o assunto. O meu compromisso foi que suas respostas seriam publicadas na íntegra, sem qualquer tipo de edição. Seguem assim o texto enviado pelo curador por e-mail. – Gabriel Kogan

 

Gabriel Kogan: Você alguma vez falou as frases: “Estão molestando não só os monitores da exposição como funcionários do museu sem que possamos fazer nada, pois foram inúteis todas as nossas tentativas de mostrar ao IPHAN que o MASP precisa ser cercado”, “A proposta de cercar a área não eliminaria o problema, mas amenizaria a situação” e “Acho um atraso essa posição do Iphan, pois a São Paulo de hoje não é a mesma da época em que o MASP foi inaugurado”? Se sim, em quais contextos?

Teixeira Coelho: Sim, devo ter dito todas elas, é provável que tenha dito todas elas. “É provável” porque não gravo o que digo a jornalistas em conversas ao vivo ou ao telefone. E sim, os contextos, ou melhor, os temas, são distintos.

Este trecho está correto: “estão molestando não só os monitores da exposição como funcionários do museu sem que possamos fazer nada”. É um trecho bem claro e é isso mesmo o que acontece. Os funcionários do museu nada possam fazer em certas Situações porque são ameaçados.

Este outro trecho deve também corresponder ao que eu disse: “pois foram inúteis todas as nossas tentativas de mostrar ao IPHAN (instituto do patrimônio histórico nacional) que o MASP precisa ser cercado”. Mas estão misturadas numa mesma frase questões diferentes, mencionadas sob perspectivas diferentes, no entanto, aqui associadas como se intimamente ligadas. O tema da segunda parte é outro. O MASP não foi ao IPHAN pedir para o museu ser cercado de modo a impedir que monitores e funcionários sejam incomodados e ameaçados com faca, como a frase deixa entender. O MASP, sim, pleiteia há muito tempo que lhe seja reconhecido, no interesse da arte e do público que quer conhecer a coleção em mínimas condições de segurança, o direito de manter no local a divisória de vidro que envolve uma área reduzida do vão livre que dá acesso imediato às escadas e aos elevadores e onde está instalado um detector de metal como em todo museu do mundo, hoje – um detector que tem de estar fora do museu em si e não dentro dele. Essa frágil e simbólica divisória de vidro é a única coisa que garante ao museu que um espaço mínimo à frente de sua entrada seja mantido livre quando das dezenas de manifestações que ali acontecem no ano. Os manifestantes respeitam essa divisória e essa área – quer dizer, respeitam o museu –, o que não serve de muito porque a calçada e a avenida ficam completamente obliteradas e praticamente ninguém se atreve a entrar no museu nessas ocasiões. Quando de certos eventos, aliás, o poder público sugere ou recomenda fortemente que o museu simplesmente feche as portas porque ele, o poder público, não pode garantir a segurança do museu. Mas o museu não pode fechar as portas toda vez que há uma manifestação no vão livre ou na avenida. Os órgãos do patrimônio não querem a divisória, nem a bilheteria instalada diante dos elevadores. Quando o MASP foi construído, São Paulo era uma cidade civilizada, era possível passar diretamente da rua para o museu. Hoje, não. São Paulo é uma cidade que sequer oferece banheiro público às pessoas nas ruas. O MASP tem banheiros que seriam totalmente públicos (hoje são bastante públicos) sem a divisória. A pinacoteca passou a cobrar ingressos para evitar que seus banheiros fossem os banheiros públicos da área. É triste, mas é assim. A cidade está completamente desequipada de serviços públicos há décadas, entra governo sai governo, e entidades como os museus não podem servir de alternativa.

Por outro lado, os arquitetos que o MASP consultou não conseguem colocar uma bilheteria dentro do prédio sem alterações arquitetônicas internas – e os órgãos do patrimônio não autorizam essas alterações. Os órgãos do patrimônio querem que tudo que está no vão livre junto às escadas e elevadores seja eliminado e que o MASP se vire como puder. O problema não é simples. O MASP de inicio ocupava só a parte acima da avenida. Depois, incorporou o chamado subsolo que não é subsolo. A partir desse momento, não parece haver outra solução de fluxo de pessoas dentro do museu, se não se fazem sensíveis mudanças arquitetônicas, a não ser com a bilheteria colocada, por enquanto, fora do museu, antes dos elevadores e das escadas. À entrada do museu, não dentro do museu. O problema é que o museu foi concebido para não ter entrada, a ideia era que as pessoas passassem da rua para o interior do museu como se o museu fosse o prolongamento da rua. Eram tempos civilizados… Como o MASP não encontra uma solução arquitetônica que atenda ao que querem os órgãos do patrimônio e, ao mesmo tempo, proteja os interesses da coleção e garanta a segurança e a comodidade de seus visitantes, já solicitou aos órgãos do patrimônio que seus arquitetos apresentem a solução que lhes pareça satisfatória. Nunca o fizeram, que eu saiba. Apenas querem que o MASP retire o que está ali. Relato aqui uma situação que se iniciou muito antes de minha chegada ao museu. Os problemas do MASP, um museu para a cidade, não são só do MASP. Mas parece mais cômodo dizer que são. Há dois direitos aqui: o do edifício que, de acordo com os entendimentos em vigor, deve ser preservado em sua concepção inicial custe o que custar, e os direitos da coleção em si e do público que quer visitá-la em situações adequadas. O valor cultural do edifício não é maior que o valor cultural da coleção, quer dizer, da arte. Não seria exagero propor o inverso – mas digamos que os dois valores se equivalham. Um edifício concebido para ser museu deve servir como museu e deve servir ao museu. Form follows function, propunham os modernistas de cuja matriz saiu esse prédio. Mas parece que aqui form rules function ou que a form quer comandar a função. O problema é que a arte e o museu mudam e os amigos do edifício, embora não o edifício ele mesmo, querem que ele continue igual a si mesmo e defina a função. A função define a arquitetura. Não? Ou: quando?

Há mais a dizer sobre as grades no vão livre (as divisórias de vidro junto ao elevador e escadas não são grades). As grades amenizariam a situação? Há anos, quando foi mais uma vez perguntado sobre o que poderia fazer para evitar que pessoas se lancem no espaço desde a esplanada do vão livre ou dele caiam, com consequências por vezes trágicas, o MASP respondeu do modo como poderia responder: que nada poderia fazer porque não tem poder sobre a área, que é da Prefeitura. Mesmo assim, observou que uma medida óbvia poderia ser tomada se se quisesse: grades (não verticais, mas inclinadas ou horizontais) ao redor da esplanada. Os órgãos do patrimônio não aceitaram. Na ocasião, o MASP sugeriu também grades rebatíveis diante do vão livre, que ficariam deitadas e incrustadas no piso durante o dia, invisíveis, e que seriam erguidas à noite. Os órgãos do patrimônio não permitiram. Muito bem. Hoje ninguém atento se atreve a circular pelo vão livre, depois que escurece, a fim de ver a vista (que não mais existe). O parque do Trianon era aberto, recebeu grades e hoje fecha ao anoitecer. O vão livre não é do MASP, o vão livre pertence à prefeitura, o MASP não pode fazer nada ali. À cidade ou à prefeitura cabe a decisão sobre o que fazer, como manter aquela área, cartão postal da cidade. O problema que o vão livre do MASP (mais do que o MASP) vive é vivido pela cidade toda, que não tem segurança nas calçadas, dentro dos carros e ônibus e dentro de suas casas e apartamentos.

O problema é comum à cidade toda. Mas não é o caso de esperar pela solução do problema na cidade toda para decidir o que fazer com o vão livre do MASP que não é do MASP, não? Se a cidade decidir que isso não é um problema e que tudo deve continuar como está – e o modo como as coisas estão ali foi mostrado por uma reportagem da folha dia 29 de Novembro– tudo bem. O MASP não propõe, o MASP não pede nada. E o MASP não pode apresentar a solução. Não lhe cabe fazê-lo administrativamente.

GK: Você é a favor do cercamento do vão livre do MASP?

TC: Na mesma entrevista em que me perguntaram sobre a solução das grades eu apresentei claramente minha alternativa preferida que, creio, não veio à tona: a ocupação cultural e artística do vão livre de modo pleno e permanente. O ano todo. Com concertos, como antes; com projeções de filmes, como durante a mostra de cinema, e com arte pública. Mas exposições de arte que possa ser mostrada publicamente, em caráter perene, não é possível porque todo fim de semana se armam ali as barracas de uma feira autorizada pela prefeitura e que tornam inviável expor qualquer coisa por um tempo longo: não é possível montar uma exposição na segunda-feira, tirá-la na sexta e depois repetir o processo na semana seguinte. O que há para ser mostrado tem então de ser confinado na esplanada, como a exposição “a terra vista do céu”, que interessa às pessoas e que deu àquela área, bem como à calçada diante do Trianon, um toque civilizado – que, em parte, não durou muito (do lado do Trianon a policia está presente 24 horas por dia, a situação ali é diferente). A vocação de toda aquela área é cultural e artística. Por enquanto, essa me parece de longe a melhor solução, a solução evidente: uma praça de artes que mantenha o caráter de praça pública inicialmente pensado para o lugar.

GK: Qual é a sua opinião sobre o editorial “É preciso preservar o MASP”?

TC: Não o li quando saiu, só dias depois e apressadamente, em viagem, não guardei seus termos. Mas a ideia do título está correta, não? Embora não esgote o assunto. É preciso preservar a coleção mais importante da América Latina e do hemisfério sul em seu gênero e garantir às pessoas a possibilidade de visitá-lo: isso me parece claro. Se o poder público quer praticar política cultural a sério, deve criar as condições para que as pessoas inventem seus fins culturais. Algumas pessoas, no passado, inventaram o MASP (assim como outras inventaram o MAM e o MAC e a Bienal) e colocaram a coleção à disposição pública – e hoje milhares de pessoas por ano inventam para si mesmas um fim cultural ao visitar ao MASP, ao quererem visitar o MASP: o poder público deve criar as condições para que as pessoas inventem seus fins em cultura. O MASP tenta criar as condições para que a coleção seja preservada e cumpra seus objetivos e para garantir que as pessoas tenham como atender a seus fins quando querem visitar o museu. Para isso, o museu recorre às divisórias de vidro ao redor dos elevadores e escadas. Se outras soluções são viáveis ou melhor, é algo que se deve considerar em conjunto, MASP e sociedade.

Mas o título do editorial, generoso para com o MASP, confunde de novo as duas coisas: o MASP e o vão livre do MASP que não é do MASP. Creio que as duas coisas devam ser preservadas: o MASP e o vão livre do MASP. A sociedade dirá o que quer preservar, se quer preservar, o que quer preservar. E como.

GK: Houve uso político indevido de sua opinião pelo jornal, relacionando sua frase com manifestações?

TC: Não pensei nisso, não me preocupei com essa questão, não me lembro dos termos do texto, que mal li. Como pessoa, apoio totalmente as manifestações de junho/julho. São o fato cultural mais importante no país neste curto e já cansado século, algo que deveria levar todos a pensar seriamente no que está acontecendo aqui. As pessoas estão simplesmente fartas e não é com os 20 centavos da tarifa. E é previsível que as manifestações continuem. O museu nada sofreu com elas. E nada tem contra as manifestações. Por certo, o museu tem de se preservar também diante das manifestações. Mas não foi esse o ponto de partida para estas discussões recentes.

GK: Pelo menos dois outros espaços do museu são frequentemente lembrados como exemplos problemáticos de intervenções em patrimônio moderno: o cercamento da escada do museu no térreo e a descaracterização da pinacoteca do último andar, com o fim da transparência e dos cavaletes de vidro. Qual é a sua opinião sobre a situação desses dois lugares?

TC: Parte da questão está respondida acima. A galeria do segundo andar não está descaracterizada, não concordo com essa descrição. Nenhum arquiteto pode pretender congelar na história um projeto expográfico, seja qual for o projeto. Ainda mais quando os projetos expográficos mudam constantemente conforme as necessidades da exposição. No passado, a expografia permanecia igual a si mesma porque os espaços que a acolhiam nem permitiam outra coisa, como no Louvre antigo. A exposição, quer dizer, a arte não deve se dobrar aos imperativos do espaço: o espaço deve servir à arte, à exposição. Não posso acreditar que Lina Bo Bardi defendesse isso ainda hoje. O museu mudou muito, a coleção aumentou muito desde então, a expografia não pode continuar a mesma de 45 anos atrás, de duas gerações atrás. Nem mesmo os órgãos do patrimônio insistem mais nesse ponto. O mundo muda, a cultura muda, a arte muda, as ideias sobre arte e sobre como mostrar arte mudam, os meios tecnológicos mudam os modos de expor arte. O ainda respeitado (creio) Marx observou, concordando com seu precursor Saint-Simon (também ele muito respeitável, parece), que a tecnologia muda a arte. A tecnologia muda a arte e muda os modos de expor arte. Muitos parecem querer um museu congelado, modo mais delicado de dizer que querem um museu morto. A tendência no Brasil para congelar a vida e o mundo, e com isso a cultura e a arte e as pessoas, é assustadora. A cultura brasileira sob muitos aspectos, talvez sob seus aspectos centrais, é muito conservadora.

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